quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

A jornada familiar de "Capitão Fantástico" encanta com a busca em romper com as instituições


Com inúmeras críticas, a sociedade capitalista é o modo de vida da maioria da população mundial, escapar dessa forma de viver é algo um tanto quanto utópico, mas não impossível, pelo menos no longa-metragem "Capitão Fantástico" (2016), de Matt Ross, que estreia hoje nas salas de cinema do país. Em sua empreitada anticapitalista com ares romântico, o diretor introduz a figura do herói em Ben (Viggo Mortensen), um homem de família, pai de seis filhos, que abdicou da vida em sociedade para criar sua prole no meio da floresta, sem contato com a civilização. 

Nesse ambiente de contato direto com a natureza, os filhos são educados de uma forma peculiar, caçam seus próprios alimentos, discutem teorias e ideologias de modo reflexivo, meditam e exercitam-se no âmago da mata, realizam rituais de passagem e, ao invés de assistirem televisão, conversam num círculo familiar com uma fogueira no centro. Aparatos de extrema simbologia do universo mitológico, deixado de lado pelo homem civilizado.  

Essa família de modo de vida singular, recebe o chamado para aventura, quando são informados do falecimento da mãe. Em razão das escolhas feitas até então, Ben é proibido pelo pai da esposa, de comparecer ao funeral. No entanto, com a disposição dos filhos de afrontar esse veto, eles embarcam numa viagem rumo ao contato com um mundo completamente diferente do habitual. Estar presente para despedir-se da mãe é apenas o estopim, comparado ao descobrimento de outros aspectos da realidade, ao qual estão inseridos.  

O ator Viggo Mortensen, está soberano e encantador como pai protetor, amoroso e de um certo modo autoritário. Assim como seus filhos são expostos a um outro modo de vida, Ben também é direcionado para um processo de transformação, ao confrontar as escolhas feitas em prol do bem familiar. Vale destacar, que por esse papel, o ator foi indicado para o Globo de Ouro de Melhor Ator 2017. 

A fotografia da narrativa é de saltar os olhos, com imagens caprichadas das rodovias americanas versus a natureza dando vazão para a presença da luz natural. Concomitantemente, o roteiro também assinado pelo diretor, está preciso e cativante nessa jornada de descobertas de toda uma família.
CineBlissEK
*Visto durante o Festival do Rio 2016



Ficha Técnica: 

Capitão Fantástico (Captain Fantastic)
2016, Estados Unidos
Direção: Matt Ross
Roteiro: Matt Ross
Produção: Jamie Patricof, Lynette Howell Taylor, Monica Levinson, Shivani Rawat
Fotografia: Stéphane Fontaine
Elenco: Viggo Mortensen, Frank Langella, George MacRay, Kathryn Hahn, Steve Zahn

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

CineBlissEK apresenta a lista com os 10 melhores filmes de 2016


Mais um ano prestes a dar adeus, só que antes desse final, não poderia faltar a tão aguardada lista dos melhores filmes de 2016 do blog CineBlissEK. Vale lembrar, que a seleção foi elaborada com as estreias realizadas no período de dezembro de 2015 a novembro de 2016. O método utilizado para as escolhas, foi puramente pessoal, destacando filmes de diferentes nacionalidades - incluído Brasil -, um blockbuster e também uma animação. Confira a lista com os 10 melhores longas-metragens de 2016: 


Elle (Elle)
2016, França/Alemanha/Bélgica
Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: David Birke
Elenco: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte. Anne Consigny, Charles Berling, Virginie Efira 



Carol (Carol) 
2015, Estados Unidos
Direção: Todd Haynes
Roteiro: Phyllis Nagy
Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Kyle Chandler, Sarah Paulson

  

A comunidade (Kollektivet)
2016, Dinamarca
Direção: Thomas Vinterberg
Roteiro: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm
Elenco: Ulrich Thomsen, Trine Dyrholm, 
Leia mais sobre o filme em: A comunidade



Aquarius (Aquarius)
2016, Brasil
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Sonia Braga, Irandhir Santos, Humberto Carrão
Leia mais sobre o filme em: Aquarius



Star Wars: O despertar da força (Star Wars: The force awakes)
2015, Estados Unidos
Direção: J.J. Abrams
Roteiro:  J.J. Abrams, Lawrence Kasdan, Michael Arndt
Elenco: Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Harrison Ford, Carrie Fisher



Julieta (Julieta)
2016, Espanha
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Alice Munro, Pedro Almodóvar
Elenco: Emma Suárez,Adriana Ugarte, Darío Grandinetti



Filho de Saul (Saul fia)
2015, Hungria
Direção: László Nemes
Roteiro:  Clara Royer, László Nemes
Elenco: Géza Rohring, Amitai Kedar, Attila Fritz



As montanhas se separam (Shan He Gu Ren)
2015, China
Direção: Zhang-ke Jia
Roteiro: Zhang-ke Jia
Elenco: Tao Zhao, Lian Jingdong, Sylvia Chang, Yi Zhang 
Leia mais sobre o filme em: As montanhas se separam



Anomalisa (Anomalisa)
2015, Estados Unidos
Direção: Charlie Kaufman, Duke Johnson
Roteiro:  Charlie Kaufman
Elenco: David Thewlis, Jennifer Jason Leigh, Tom Noonan



Os oito odiados (The Hateful Eight)
2015, Estados Unidos
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Jennifer Jason Leigh, Samuel L. Jackson, Tim Roth, Michael Madsen, Kurt Kussell, Walton Goggin

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

"Quando o dia chegar" sensibiliza e provoca reflexões sobre determinados métodos educacionais


Baseado em fatos reais, o novo filme do diretor dinamarquês, Jesper W. Nielsen (Através do espelho) "Quando o dia chegar" (2016), retrata a efervescência de Copenhague no final da década de 1960, com a jornada dos irmãos Erik (Albert Rubbeck Lindahardt) e Elmer (Harald Kaiser Hermann), 13 e 10 anos respectivamente, quando estão prestes a serem entregues ao orfanato Gudbjerg, por motivos de enfermidade da mãe.

Nessa instituição governamental, a dupla logo depara-se com a maneira rígida e violenta do diretor Heck (Lars Mikkelsen) de impor sua ordem. A forma como ele conduz o local cercado da presença masculina, não é questionado por nenhum membro. Pelo contrário, é seguido da mesma maneira perversa e brutal. Uma das únicas presença feminina no ambiente, é a professora Laerer (Sofie Grabol), que testemunha às atrocidades, porém sem mecanismos para socorrer esses meninos.

Erik e Elmer, são advertidos por alguns garotos para tornarem-se fantasmas, ou seja, não chamarem atenção de ninguém. Todavia, com a coragem do primeiro e a esperança do segundo, eles embarcam numa jornada de acreditar ser possível sair desse local. Em cada tentativa de fuga sem sucesso,  eles recebem punições ainda mais cruéis.

O longa, evoca de uma maneira sutil, o filme "Um sonho de liberdade" (1994), em que o personagem principal, Andy Dufresne (Tim Robbins), mesmo sofrendo diversas formas de violências, não deixa de perder a esperança de sair da prisão. Observa-se essa energia por parte dos irmãos, em particular Elmer, o mais inteligente e sonhador. O mesmo, anseia por ser astronauta, e através de sua imaginação criativa, faz referência a outra narrativa, "2001 - Uma odisseia no espaço" (1968).

Com um roteiro bem estruturado e preciso, o filme propõe uma forte discussão sobre o perfil de cidadão que se planeja educar para a vida em sociedade, quando a palavra de ordem vem através da brutalidade. No âmago de crianças carentes de amor, com olhares cabisbaixos de medo, o modo escolhido por Gudbjerg foi da violência física e psicológica.
CineBlissEK
*Visto durante a 40ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo



Ficha técnica: 

Quando o dia chegar (Der Kommer en Dag)
2016, Dinamarca
Direção: Jesper W. Nielsen
Roteiro: Søren Sveistrup
Produção: Louise Vesth, Peter Aalbæk Jensen, Sisse Graum Jørgensen
Fotografia: Erik Zappon
Elenco: Sofie Grabol, Lars Mikkelsen, Albert Rubbeck Lindahardt, Harald Kaiser Hermann

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

"O plano de Maggie" esforça-se para nutrir as engrenagens da comédia sofisticada


A comédia sofisticada, subgênero tão difundido nos filmes do diretor Woody Allen, é a alavanca para o novo longa da diretor Rebecca Miller (O mundo de Jack e Rose), com  "O plano de Maggie" (2015). Na narrativa amorosa, voltada para as idas de vindas de um relacionamento, a diretora esforça-se para dar ares intelectuais, criativos e bem-humorados à história, escalando dois atores descolados como personagens principais - Greta Gerwig e Ethan Hawke.

A atriz Greta Gerwig, novamente incorpora uma personagem simpática de Nova Iorque - Frances Ha em "Frances Ha" (2012) e Brooke em "Mistress America" (2015) - , através de Maggie, uma mulher independente e amável, que trabalha em uma instituição educacional, onde faz uma ponte estratégica entre possíveis artistas com o mercado. Por ter uma vida financeira estável, diferentemente dos seus relacionamentos anteriores, do qual, confessa não conseguir fazer durar por mais de seis meses, decidi ser mãe solteira contemporânea, através da doação do sêmen de um colega de escola. 

Com uma índole controladora, Maggie, planeja perfeitamente a inseminação artificial. Todavia, como a vida não acontece de acordo com a programação, ela é surpreendida pelo destino, ao conhecer John (Ethan Hawke), antropólogo e escritor, casado com Georgette (Julianne Moore) e pai de dois filhos. Logo, Maggie e John começam a passar bastante tempo juntos, para discutir nuances sobre o livro do qual o último está escrevendo, e quando menos esperam, os dois despertam para a paixão e vão morar juntos.

Ao adentrarem no labirinto da convivência à dois, Maggie observa uma certa falta de interesse por John, juntamente com a percepção de não estar mais apaixonada por ele. Dessa forma, ela cria um plano mirabolante, de pedir ajuda à ex-mulher Georgette, para que ela volte com John.

Num primeiro momento, o roteiro consegue cativar com diálogos inteligentes e sutilmente divertidos, contudo, nota-se uma falta de consistência para dar seguimento à história, uma vez que as soluções para os acasos, são um tanto quanto previsíveis. Notadamente, Julianne Moore, está estonteante como a ex-mulher, louca e egocêntrica.

O cenário do inverno de Nova Iorque, perpassa a frieza dessas relações tão marcadas pelo racional e lógico, do qual, poucas são as cenas de trocas de carinhos, tanto nos casais quanto com seus filhos. À vista disso, o filme tem lá seu mérito em instigar e divertir, bem como seduzir o espectador, com personagens simpáticos e contemporâneos. 
CineBlissEK
*Visto durante a 40ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo




Ficha técnica: 

O plano de Maggie (Maggie's plan)
2015, Estados Unidos
Direção: Rebecca Miller
Roteiro: Karen Rinaldi, Rebecca Miller
Produção: Damon Cardasis, Rachael Horovitz, Rebecca Miller
Fotografia: Sam Levy
Elenco: Greta Gerwig, Ethan Hawke, Julianne Moore, Maya Rudolph, Travis Fimmel, Bill Hader

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

"Much loved" abre espaço para discurtir à exploração do corpo feminino, num local, onde a dominação masculina é suprema


Diretamente do Marrocos, o filme "Much loved" (2015), do diretor Nabil Ayouch (As ruas de Casablanca) estreou na última quinta-feira (10), em circuitos nacionais de cinema. Com uma história centrada no universo da prostituição - na cidade de Marrakech -, o longa apresenta a intimidade de quatro jovens, que dividem a mesma morada e profissão. 

O grupo formado por Noha (Loubna Abidar), Randa (Asmaa Lazrak), Soukaina (Halima Karaouane) e Hlima (Sara Elmhamdi Elalaoui), é liderado pela primeira, que demonstra ter mais experiência com os homens e, também em lidar com qualquer infortúnio. A rotina profissional delas envolve, participar de festas glamorosas realizadas por pessoas poderosas, ou programas privados. Cercada pelo domínio masculino, no qual só opera a lei dos homens, essas profissionais do sexo, são encaradas apenas como objetos sexuais, sem nenhum tipo de direito. 

Na intimidade, as quatro apoiam-se umas nas outras, para defender-se do ambiente perverso, machista e violento, do qual, são submetidas cotidianamente. Nutrem sonhos de um futuro melhor para suas jornadas, como nos casos de: Randa, de ir embora para Espanha encontrar-se com o pai; Soukaina, de morar em outro lugar onde os homens respeitam às mulheres; Noha, em encontrar um marido para protegê-la e ser aceita pela família. No ambiente privado, elas andam pelo apartamento de pijamas infantis, discutem sobre situações banais, dormem juntas, choram ou sorriem, ou seja, acolhem-se como uma família. 

Com uma fotografia vigorosa praticamente todas as imagens carregam ares de provocação e, chocam com o contraste de cenas de luxo e diversão, com a tristeza e misérias das ruas de Marrakech. O ritmo febril da narrativa, expressa o âmago desse universo machista, patriarcal e brutal. Vale ressaltar, a ousadia das atrizes em suas performances, que transparecem em seus olhares, o quão desumano são suas condições. 

O diretor em "Much loved", permite espaço para discutir à exploração do corpo feminino, em um local, do qual, as mulheres não possuem nenhum tipo de direito, onde suas vozes não se fazem ouvir. Encarar as imagens, com certeza, traz uma sensação de desconforto, porém, é algo preciso para uma busca de melhores condições de vida às mulheres em todo mundo, independentemente da profissão. 
CineBlissEK
*Visto durante Festival do Rio 2016



Ficha técnica 

Much loved (Much loved)
2015, Marrocos
Direção: Nabil Ayouch
Roteiro: Nabil Ayouch
Produção: Nabil Ayouch

Fotografia: Virginie Surdej
Elenco: Loubna Abidar, Asmaa Lazrak, Halima Karaouane, Sara Elmhamdi Elalaoui

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

CineBlissEK esteve presente na 40ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo e destaca 3 títulos



O blog CineBlissEK, marcou presença em mais uma edição da Mostra Internacional de Cinema São Paulo, que encerrou-se na última quarta-feira (2). Dentre os 10 longas metragens vistos durante a maratona cinematográfica, destaca-se 3 títulos vindos da Dinamarca, México e França/Chile. 
Confira abaixo a lista com os filmes: 


Quando o dia chegar (Der Kommer en dag)
Direção: Jesper W. Nielsen 
Dinamarca, 2016
Elenco: Lars Mikkelsen, Sofie Grabol, Harald Kaiser Hermann, Albert Rudbeck Lindhardt, Lars Ranthe


Em plena década de 1960, dois jovens irmãos são obrigados a dirigirem-se à um reformatório do governo, uma vez que a mãe encontra-se doente, sem condições de criar os filhos. Nesse local, a dupla logo, sente na pele, a maneira utilizada pelo diretor da instituição para fazer valer suas ordens. Munidos apenas de esperança e sonhos, os irmãos buscam diversas maneiras de escaparem desse ambiente perverso, violento e brutal. Baseado em fatos reais, o filme propõe uma profunda reflexão sobre a crueldade do ser humano perante pessoas indefesas, no caso, crianças e adolescentes e, o quanto isso repercute no futuro destes.


Maquinaria Panamericana (Maquinaria Panamericana)
Direção: Joaquín del Paso
México, 2016
Elenco: Javier Zaragoza, Ramiro Orozco, Irene Ramirez, Edmundo Mosqueira, Delfino López


Nessa divertida e crítica narrativa mexicana, encontra-se a fábrica de construção Maquinaria Panamericana, com seus funcionários desestimulados, imersos no marasmo da rotina. Todavia, com o falecimento do dono da companhia - querido por todos - eles se vêm sem alternativa para o futuro, já que a companhia está falida. Liderados pelo contador, fecham o local, para que ninguém saiba do ocorrido e, com isso, tentam ganhar tempo para organizar as finanças da empresa. Com humor negro preciso, cenários um tanto quanto exagerados, cenas bizarras e uma marcante presença de som, o filme apresenta uma discussão social, sem deixar-se cair nas tentações do clichê, pelo contrário, constrói-se na originalidade e bizarrice. 


Poesia sem fim (Poesia sin fin)
Direção: Alejandro Jodorowsky
França/Chile, 2016
Elenco: Adan Jodorowsky, Pamela Flores, Brontis Jodorowsky, Leandro Taub, Alejandro Jodorowsky, Jeremias Herskovits


Santiago, década de 1940 e 1950, encontra-se o jovem Alejandrito Jodorowsky, em busca do sonho ser um poeta, contrariando o desejo dos pais de torná-lo médico. Para isso, ele divertidamente foge de casa e, encontra abrigo junto de outros futuros artistas. Nesse ambiente criativo, ele desperta para seu dom, depara-se com sua musa excêntrica e conhece diversas pessoas, entre elas, intelectuais dessa geração, como Enrique Lihn, Stella Diaz e Nicanor Parra. A narrativa é construída de uma maneira poética, romântica e exagerada, proporcionando nutrientes para uma imaginação infinita, assim como, um roteiro elegante e preciso no humor.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Confira a lista do CineBlissEK com os cinco destaques do Festival do Rio 2016


No último domingo (16), encerrou mais uma edição do Festival do Rio. O blog CineBlissEK, teve o privilégio de conferir nesses 11 dias de maratona cinematográfica, um total de 24 títulos vindos de todo mundo, incluindo longa metragens e documentários. Dessa seleção de filmes, o blog destaque cinco narrativas que proporcionaram de uma maneira brilhante, jornadas de reflexão, provocação e emoção. Confira abaixo as cinco preferências:


Much Loved (Much Loved)
Direção: Nabil Ayouch
França/Marrocos, 2015
Elenco: Loubna Abidar, Halima Karaouane, Asmaa Lazrak, Sara El Mhamdi Elaaloui, Abdellah Didane



Em Marrakech, encontra-se a experiente garota de programa Noha (Loubna Abidar), acompanhada de outras três jovens, que juntas trabalham para satisfazer as necessidades masculinas. Participam de festas ostensivas - banhada de bebidas alcoólicas, drogas e dinheiro -, realizadas por clientes poderosos, onde são tratadas como mero objetos sexuais. Após a finalização de suas noites de trabalho, refugiam-se num apartamento modesto, unindo-se uma a outra, tanto para defender-se de qualquer abuso, como na cama para dormir. Essas mulheres em suas intimidades, andam pelo apartamento de pijamas infantis, discutem sobre bobagens como irmãs e alimentam sonhos para melhorarem de vidas. 
Uma narrativa febril e emocionante, que mergulha em um universo perverso e violento, no qual a mulher não possui nenhum tipo de direito. Um meio dominado por homens poderosos, que contrasta com a miséria das ruas em Marrakech. 


Você e o seus (Dangsinjasingwa dangsinui geot)
Direção: Hong Sang-soo
Coreia do Sul, 2016
Elenco: Kim Ju-Hyeok, Lee Yoo-Young


A divertida comédia coreana, apresenta o pintor Young-soo (Kim Ju-Hyeok) com diversos problemas pessoais. Um deles, envolve a descoberta de que sua namorada Minjung (Lee Yoo-Young), bebe demais e até saiu com um homem desconhecido. Ao ser interrogada pelo namorado, a jovem nega tudo e decide dar um tempo na relação. Logo, Young-soo percebe seu verdadeiro amor por Minjung, indo à procura dela por toda cidade. Já Minjung, parte para encontros inesperados com certos homens, em que demonstra um outro lado de sua personalidade.
A trilha sonora do filme, converte-se num elemento fundamental para demarcar a passagem de tempo, tal como o roteiro simpático, preciso e elegantemente cômico.


Capitão Fantástico (Captain Fantastic)
Direção: Matt Ross
Estados Unidos, 2016
Elenco: Viggo Mortensen, Frank Langella, Kathryn Hahn, George MacKay, Samantha Isler, Annalise Basso



O pai de família Ben (Viggo Mortensen) junto de sua esposa, decidiram criar os seis filhos no meio da floresta, sem contato nenhum com a civilização, a não ser através de livros. Com uma rotina, regada de exercícios físicos, caça para própria alimentação, contato com a natureza e discussões intelectuais, Ben acredita ser a melhor educação para sua prole. Todavia, com o falecimento da esposa, eles recebem o chamado para aventurar-se na sociedade capitalista e testarem seus conhecimentos, assim como experimentarem novas realidades. 
O ator Viggo Mortensen está primoroso no papel do pai hippie e devoto. O roteiro do road movie familiar, que contrasta natureza versus civilização e, com pitadas de sarcasmo, está construído de uma forma magnífica.


Toni Erdmann (Toni Erdmann)
Direção: Maren Ade
Alemanha/Áustria, 2016
Elenco: Peter Simonischek, Sandra Huller, Lucy Russell



O professor de música Winfried (Peter Simonischek), decidi tirar férias para viajar à Romênia, com o intuito de surpreender sua filha Inês (Sandra Huller), para uma possível reaproximação. Por outro lado, a jovem de extrema organização, dedica o seu tempo ao trabalho, sem permitir espaço para esse contato. Na verdade, Inês prefere continuar a relação de pai e filha com o mesmo distanciamento. Dessa forma, Winfried, utiliza de sua criatividade e concebe um personagem chamado Toni Erdmann,  - com peruca e dentes postiços - para com isso estabelecer uma ligação com a filha. Aversa à essa situação, Inês resiste a todo momento, porém, Toni Erdmannn insiste nessa conexão. 
Um filme de extrema sensibilidade com uma mistura precisa de humor. Os atores Peter Simonischek e Sandra Huller criam uma química perfeita nesta relação paternal, o que permite uma excelente fluidez da narrativa.


O cidadão ilustre (El ciudadano ilustre)
Direção: Gastón Duprat e Mariano Cohn
Argentina/Espanha, 2016
Elenco: Oscar Martínez, Dady Brieva, Andrea Frigerio


Selecionado para o encerramento do Festival do Rio 2016, o filme "O cidadão ilustre" retrata o regresso do escritor Daniel Montavani (Oscar Martínez) - ganhador do Prêmio Nobel de Literatura - à sua cidade natal, Salas (Argentina), para receber a homenagem de cidadão ilustre. Mesmo após 40 anos morando fora, Daniel, logo é acolhido com entusiasmo e carinho pelos moradores e antigos amigos. No entanto, algumas atitudes contrárias à norma vigente, faz com que Daniel seja alvo de várias acusações, transformando-se em um sujeito estranho para o município. 
Com um refinado humor negro, o filme provoca diversas reflexões e consagra o ator Oscar Martínez, em sua brilhante interpretação.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Festival do Rio - "Amnésia" propõe uma reflexão sobre o passado e o presente alemão através de duas gerações


A ensolarada e paradisíaca ilha de Ibiza (Espanha), é o cenário escolhido pelo diretor Barbet Schroeder (Cálculo mortal), para introduzir sua trama "Amnésia" (2015), cujo foco permeia certos obscurantismos do passado alemão. Nesse local de luz e calor, encontra-se Martha (Marthe Keller), uma mulher de meia-idade que vive sozinha, em uma casa simples de frente para o mar. Ao ser surpreendida por seu novo vizinho, Jo (Max Riemelt) - jovem alemão que sonha em ser DJ - os dois iniciam uma amizade. 

À medida que Martha e Jo, tornam-se íntimos, diversas questões relacionadas ao passado misterioso da primeira, despertam. Num primeiro momento, sobre o fato de Martha escolher comunicar-se em inglês, sem que seja sua língua nativa. Outro aspecto, dá-se pela presença de um violoncelo, que se recusa à tocar. Imersa em um passado sombrio, Martha nega de todas as maneiras qualquer elemento da cultural alemã.

Com um roteiro provocativo, no sentido de refletir sobre quais caminhos à seguir após uma história tão marcada de brutalidade e horror, o filme apresenta algumas possibilidades escolhidas por diferentes gerações. Para intensificar esse aspecto, o longa utiliza-se de um jogo de contrastes, entre luz versus escuro e música clássica versus eletrônica. 

As paisagens deslumbrantes de Ibiza, com a refinada fotografia, dão um toque especial, nessa jornada de amizade. Por sua vez, a trilha sonora, tem um papel fundamental na narrativa, como mecanismo para construir carreiras profissionais ou simplesmente curar dores do passado. Sem deixar-se contaminar por maneirismos, o longa aufere sensibilidade em relatar a culpa de uma nação, de um passado ainda não tão distante.
CineBlissEK
*Visto durante o Festival do Rio 2016



Ficha técnica: 

Amnésia (Amnesia)
2015, França/Suiça
Direção: Barbet Schroeder
Roteiro: Barbet Schroeder, Emilie Bickerton, Peter F. Steinbach, Susan Hoffman
Produção: Margaret Ménégoz, Ruth Waldburger
Fotografia: Luciano Tovoli
Elenco: Marthe Keller, Max Riemelt, Bruno Ganz

Festival do Rio 2016 - Os filmes "No andar de baixo" e "Minha amiga do parque", abordam o tema da maternidade


Na maratona cinematográfica carioca no Festival do Rio 2016, o blog CineBlissEK, conferiu dois longas que abordam o tema da maternidade, através de diferentes pontos de vista, tanto na questão do gênero do filme, quanto no enfoque, assim como, a similaridade no quesito da solidão e das dificuldades das mamães.

No suspense inglês "No andar de baixo" (2015), do diretor David Farr, o casal Kate (Clémence Poésy) e Justin (Stephen Campbell Moore) estão no aguardo do primeiro bebê. Coincidentemente, no andar de baixo do flat onde moram, muda-se Jon (David Morrisey) e Theresa (Laura Birn) que também estão à espera do tão sonhado filho. As duas futuras mamães, começam a passar algumas horas juntas, conversando sobre a gestação, dando elo para uma amizade. Todavia, um ocorrido traumático entre os quatro, revela um temperamento assustador de Jon e Theresa, o que cria um certo distanciamento entre eles, temor e suspeitas. 

O diretor que também assina o roteiro, consegue gerar um labirinto de dúvidas em relação a idoneidade de cada personagem, com uma precisa fluidez. A cada nova descoberta, maior tornar-se o mistério. Vale ressaltar, uma certa semelhança com "A mão que balança o berço" (1992), no quesito suspense e tensão. 


Na carona da solidão e fragilidade feminina após o nascimento do bebê, tem-se o longa latino  "Minha amiga do parque" (2015) da diretora Ana Katz, que interpreta a personagem Rosa. Nessa jornada de maternidade não tão romantizada, encontra-se a novata mamãe Liz (Julieta Zylberger), sozinha, insegura e sobrecarregada com os cuidados do filho, uma vez que  o marido está no Chile à trabalho. Dividida entre o apartamento e os passeios no parque, a jovem dedica-se praticamente todo seu tempo ao filho.

Em uma de suas caminhadas pelo espaço público de lazer, Liz conhece Rosa, uma operária e mãe solteira. As duas se aproximam e tornam-se amigas, contudo algumas fofocas das outras mães que também frequentam o parque, sobre o caráter de Rosa, faz com que Liz comece a suspeitar das reais intenções dessa amizade. Além disso, a diferença social alimenta essa sombra de dúvida, pois certos comportamentos de Rosa relacionados à dinheiro, intriga Liz.

Ana Katz, proporciona um retrato palpável sobre a questão da maternidade desacompanhada, todavia, o filme transcorre de uma maneira estancada, vai e volta no mesmo tema da amizade entre as duas mulheres, sem lograr com algo contundente.
CineBlissEK



sábado, 8 de outubro de 2016

O filme "A chegada" abre o Festival do Rio 2016


Na última quinta-feira (6), o blog CineBlissEK teve o privilégio de conferir a grande gala de abertura do Festival do Rio 2016, na Cidade das Artes, com a exibição do filme "A chegada" (2016), do diretor canadense Denis Villeneuve (Incêndios; Sicario: Terra de ninguém). A ficção científica, apresenta a jornada da renomada linguista Dra. Louise Banks (Amy Adams), quando é procurada por militares americanos, para desvendar uma possível comunicação com seres alienígenas, que pousaram no planeta Terra. Ao lado dela, há o matemático Ian Donnelly (Jeremy Renner), para ajudá-la na missão de dialogar com esses seres, com o propósito de saber se eles são ou não, uma ameaça para a raça humana. 

Guiada por seus instintos, a Dra. Louise estabelece contato com os forasteiros do outro planeta, assimilando os reais objetivos deles e, principalmente, compreende certos aspectos de sua vida pessoal. Com o roteiro assinado por Eric Heisserer, a narrativa busca interligar o cenário alarmante da invasão de alienígenas, com a intimidade de um perda sofrida pela linguista, através da não linearidade da trama. Vale ressaltar, a atuação da atriz Amy Adams, que promove uma sensibilidade e profundidade a personagem.

O filme, vem a calhar com o momento atual da sociedade, em relação a ausência de comunicação ou união dos povos, tanto do lado brasileiro com o conturbado cenário político, a Europa a cerca dos refugiados, e, os Estados Unidos com a histórica eleição presidencial.

O Festival do Rio 2016, acontece até o dia 16 de outubro, em diversos pontos da cidade. Para maiores informações acesse: www.festivaldorio.com.br

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

"Aquarius" evidencia a jornada de uma mulher resistente, com pinceladas sobre a sociedade brasileira


Imerso em polêmicas desde sua aparição no Festival de Cannes esse ano quando disputou à Palma de Ouro, o filme "Aquarius" (2016), do diretor Kléber Mendonça Filho (O som ao redor), estreou no dia 1 de setembro, nos circuitos nacionais de cinema. O longa, que vem conquistando o público brasileiro com sessões lotadas, não foi selecionado para representar o Brasil, na corrida do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, causando mais burburinhos sobre a trama e o atual momento político do país.

Representante do eixo pernambucano de cinema, "Aquarius", traz a bela Sonia Braga como Clara, no papel principal, uma jornalista crítica de música, aposentada, mãe de três filhos e moradora do Ed. Aquarius (prédio com vista para Praia de Boa Viagem), que desfruta de uma boa qualidade de vida. Sua tranquilidade, é desafiada com o aparecimento da construtora Bonfim, cujo intuito é comprar todos os apartamentos do edifício, para reconstruir outro empreendimento. Clara, contrariando os outros moradores, decide não vender seu espaço e continuar vivendo normalmente em sua residência, mesmo sendo a única pessoa a ocupar o local. 

Dividido em três capítulos, a narrativa foca na jornada de Clara, ao retratar um momento de seu passado ao lado do marido e familiares, para depois realçar no momento atual, no qual encontra-se viúva, avó e determinada à não vender seu apartamento. Com canções nacionais e internacionais, pontuando a historicidade da trama, tem-se a composição musical da trajetória dessa mulher, visivelmente moderna e de caráter resistente. Sonia Braga, está precisa em sua atuação, denotando uma expressão natural, bem como, simbolizando através de Clara, uma geração de mulheres que lutaram pelos seus direitos, e, atualmente, conseguem identificar algumas conquistas no meio social. Particularmente, o Brasil ansiava por essa imagem de mulher e heroína.

Como em sua obra anterior "O som ao redor", o diretor no novo longa, dá ênfase nas memórias do passado, com destaque para fotografias antigas, objetos do apartamento (armário;vinis) e, claro, nas melodias. Outro elemento semelhante utilizado por Kléber Mendonça Filho, são as imagens em preto e branco no início do filme, do qual no primeiro são de pessoas no meio rural e, em "Aquarius", da Praia de Boa Viagem. Por outro lado, o cenário que conduz a narrativa do último, concentra-se praticamente no apartamento de Clara, dando vazão para algumas cenas externas, em particular à praia. Enquanto que,  "O som ao redor", o núcleo é a rua de uma bairro de classe média alta de Pernambuco. 

Kleber Mendonça Filho, também responsável pelo roteiro do longa, aponta na história diversas discussões de cunho social do Brasil, pincelando um retrato da atual sociedade e, promovendo no espectador uma certa identificação ou desconforto, assim como, uma abertura para à reflexão e a provocação. À vista disso, "Aquarius" triunfa como um filme memorável na história do cinema nacional e merece ser apreciado por todos. 
CineBlissEK



Ficha técnica: 

Aquarius (Aquarius)
2016, Brasil
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Produção: Emilie Lesclaux, Michel Merkt, Saïd Ben Saïd
Fotografia: Fabrício Tadeu, Pedro Sotero
Elenco: Sonia Braga, Humberto Carrão, Carla Ribas, Irandhir Santos, Paula De Renon, Zoraide Coleto, Maeve Jinkings, Barbara Cohen 


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

"A comunidade" trilha caminhos de liberdade e amor, ao mesmo tempo, explora as vulnerabilidades das relações humanas


Thomas Vinterberg, diretor dinamarquês de "Festa em família" (1998), "A caça" (2012) e,  precursor do Movimento Dogma 95, presenteia o público com o seu mais novo filme "A comunidade" (2016), que concorreu ao Urso de Ouro em Berlim esse ano. A história, que se passa na década de 1970, flerta com as relações humanas, desde dos momentos saudáveis de puro contentamento, para o das fragilidades e desequilíbrios. Uma pincelada dos laços fraternos que são construídos e, fragmentados ao longo da vida.

Em "A comunidade", o casal Erik (Ulrich Thomsen) e Anna (Trine Dyrholm) ao herdarem a enorme casa de infância do primeiro, decidem convidar alguns colegas para morarem com eles, com intuito de dividirem as despesas e, concomitantemente, criarem laços fraternos de uma família. Anna, mais entusiasmada com a ideia, logo escolhe um amigo de longa data de ambos, para ser a primeira pessoa à participar dessa proposta libertadora. Junto de Freja (Martha Sofie Wallstrøm Hansen), filha do casal, os quatro, dão andamento no processo de seleção para habitar esse espaço coletivo. No total de sete adultos, uma adolescente e uma criança, essas pessoas acolhem com afeto o plano da comunidade.

À partir desse elo criando pelos integrantes, nota-se o desenvolvimento do suporte um ao outro, o respeito aos diferentes pontos de vista, a disposição para ouvir as necessidades de cada um, e, a aceitação da decisão da maioria para um convívio em harmonia. Num ambiente com esse tipo de proposta, observa-se um espaço para a fomentação da troca, supostamente, não dando licença para um dos temores do ser humano, a solidão.

Todavia, a sintonia do convívio dos moradores da casa, é surpreendida com ares mais pesados, frente à revelação do caso amoroso de Erik, com a jovem estudante Emma (Helene Reingaard Neumann). Com base nessa situação, Anna, dedica-se a demonstrar uma normalidade perante todos e a si mesma, sem permitir espaço para sentimentos que corroem sua alma. Como em "Festa em família", a comunhão na mesa de jantar, torna-se o ambiente perfeito para lavar-se a roupa suja, ali, Anna, desemboca a falar suas inseguranças, fantasias e desejos, gerando uma sensação de desconforto e tensão.

A atriz Trine Dyrholm, presenteia o espectador com uma atuação profunda e sensível - que lhe rendeu o Urso de Prata de Melhor Atriz -, pontuando de maneira significativa o labirinto de transformações, pelos quais Anna é submetida. A completa doação afetuosa de Anna, para o ideal da comunidade, fragmenta-se com a chegada de Emma,  demonstrando as fragilidades das relações humanas. A intensidade da luz, que em várias cenas recaí sobre a personagem, simboliza uma possível cegueira, perante os acontecimentos.

Com uma trilha sonora marcante, composta até por uma canção de Elton Jon, "A comunidade" ilumina o coração do espectador, de como seria uma jornada repleta de amor e liberdade, ao lado de pessoas queridas. No entanto, assim como na vida real, Thomas Vinterberg, introduz o outro lado da moeda, exteriorizando a vulnerabilidade, o medo e o apego do indivíduo. Certamente, um teste de provocação e comoção, o que torna o filme imperdível.
CineBlissEK



Ficha técnica: 

A comunidade (Kollektivet)
2016, Dinamarca/ Países Baixo (Holanda)/ Suécia
Direção: Thomas Vinterberg
Roteiro: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm
Produção: Morten Kaufmann, Sisse Graum Jørgensen
Fotografia: Jesper Tøffner
Elenco: Trine Dyrholm, Ulrich Thomsen, Fares Fares, Martha Sofie Wallstrøm Hansen, Helene Reingaard Neumann, Julie Agnette Vang, Magnus Millang

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

"Café Society", novo filme do diretor Woody Allen, é um mergulho no glamour dos anos 30 em Hollywood e Nova Iorque


O octogenário cineasta americano, Woody Allen (O homem racional; Meia-noite em Paris), estreou no final de agosto (25), seu mais recente filme "Café Society" (2016), nos circuitos nacionais de cinema. O longa, que abriu o Festival de Cannes esse ano, apresenta através de um romance leve, atraente e divertido, as expectativas depositadas em relações amorosas e as escolhas feitas por cada um dos envolvidos. Dividido entre as cidades de Nova Iorque e Los Angeles, o diretor, manteve-se fiel aos elementos marcantes de sua carreira, sem surpreender o público, e sim, em retratar uma narrativa açucarada, pinceladas nas idas e vindas do amor. 

Para essa empreitada romântica retratada na década de 1930, o diretor dispões da fotografia estonteante de Vittorio Storaro - numa tonalidade amarelada -, em prol de apresentar a jornada do jovem ingênuo, Bobby (Jesse Eisenberg), quando este decide se mudar de Nova Iorque, para tentar a vida na ensolarada Los Angeles. Nesse novo ambiente, Bobby busca pela ajuda do seu tio Phil (Steve Carell), um empresário de estrelas de Hollywood, que após dar um chá de cadeira no rapaz, permite que ele trabalhe no escritório, como mensageiro. Concomitantemente, incumbe sua secretária Vonnie (Kristen Stewart), a tarefa de acompanhar Bobby pela nova cidade. 

Bobby e Vonnie, logo começam a desfrutar de bastante tempo juntos, passeando por Los Angeles, visitando diversos lugares e debatendo sobre a alta sociedade de Hollywood. Com discursos parecidos e afinidade em abundância, Bobby declara sua paixão por Vonnie, mesmo sabendo de sua relação com outro homem. A jovem, lisonjeada com a confissão, afirma seu comprometimento com o namorado misterioso, no qual, Bobby descobre futuramente, ser o seu tio Phil. Armado o triângulo amoroso, Vonnie é pressionada a decidir com quem ficar.

Através dessa decisão, a trama volta para Nova Iorque, onde aprofunda-se na família tipicamente judaica de Bobby, em particular seu irmão Ben (Corey Stoll), um gangster que possui um certo senso de humor, do qual arranca boas risadas do espectador. 

Woody Allen, mais uma vez oferece ao seus fãs, um deleite de diálogos sarcásticos e inteligentes, focando em questões já trabalhadas pelo cineasta, como a cultura judaica, a morte, a paixão por Nova Iorque, e, as relações amorosas. Essa última, continua sendo a força motriz do diretor, alimento de alegrias, encantamentos, desejos e também de decepções e tristezas. Na trilha sonora, vale salientar, há um excelente repertório de jazz, embalando o coração de Bobby e de todo público.

Jesse Eisenberg, que atua pela segunda vez em um filme de Woody Allen - o primeiro foi em "Para Roma com amor"- consegue convencer o inconfundível estereótipo de protagonista do cineasta, com as neuroses, crises e dosagens precisas de humor. Já o diretor, em "Café Society" prefere o caminho já trilhado, sem sair de sua zona de conforto. Para os fãs de carteirinha, fica aquele gostinho de saudosismo de longas anteriores.
CineBlissEK 




Ficha técnica: 

Café Society (Café Society)
2016, Estados Unidos
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Produção: Edward Walson, Letty Aronson, Helen Robin, Stephen Tenenbaum
Fotografia: Vittorio Storaro
Elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Steve Carell, Blake Lively, Corey Stoll, Parker Rosey, Paul Schneider

sexta-feira, 8 de julho de 2016

"As montanhas se separam" manifesta a expansão do capitalismo na China com refinamento poético


O triângulo amoroso, costuma aparecer nas narrativas cinematográficas com bastante frequência, como é o caso, do novo filme do diretor chinês Jia Zhang-Ke "As montanhas se separam" (2015), que utiliza inicialmente desse ingrediente romântico, para em seguida, salientar a expansão do capitalismo na China, a partir do final da década de 1990. Coloca-se em jogo, o que se ganha e o que se perde, quando o país permite a abertura das portas para a novidade, a globalização, sucateando o velho, a tradição. 

A eclosão desse momento histórico chinês para o diretor, inicia-se em 1999, na virada para o século XXI, ao som de Pet Shop Boys com a canção "Go west", na qual a personagem principal Tao (Zhao Tao), dança fervorosamente junto de várias pessoas. A jovem, de aparência leve e descontraída, fomenta uma amizade com dois homens completamente diferentes, Zhang (Zhang Yi) um ambicioso empreendedor capitalista que adora ostentar suas aquisições e, Liangzi (Jing Dong Liang) o oposto, trabalhador de uma mina de carvão, com a índole humilde e íntegra.

Ambos, nutrem afeto por Tao, assim, como uma expectativa de relacionamento, o que gera disputa a todo momento pela atenção dela. Já a moça, estima a companhia dos dois, sem tomar partido por nenhum. Como tudo na vida, Tao é forçada a decidir entre Zhang e Liangzi, escolhendo pelo marido capitalista. Sua decisão, simboliza os rumos econômicos chineses, com a abertura para o mercado globalizado. 

A partir desse fato, o filme avança para o ano de 2014, de um lado, tem-se o relacionamento distante entre Tao e seu filho de cinco anos, do outro, a dominância do capitalismo na cultura chinesa, com a predominância de aparelhos tecnológicos e nuances da língua inglesa. Logo, a narrativa atinge um futuro próximo, 2025, com a mudança de cenário, agora em terras australianas. Nesse novo lugar, encontra-se o esfacelamento das tradições chinesas, fruto das imersões globalizantes nessa cultura, cujo resultado, é retratado na busca por reaprender o passado, até mesmo na língua nativa.

Curioso notar, como a cor vermelha está presente nos objetos, em praticamente todas as cenas, casaco, blusa ou até mesmo no chaveiro. A coloração não deixa de ser simbólica, já que é predominante na bandeira chinesa e representativa do comunismo. Também vale a pena ressaltar, que nos três momentos da narrativa, Tao prepara sua especialidade, o bolinho de massa chinês, assinalando momentos decisivos em sua vida.

Com uma narrativa linear precisa, o filme conta com o embalo contagiante da uma trilha sonora, que pontua estágios importantes da história. As imagens impactantes, dialoga com o processo de transformação cultural, econômica e social que aflige a China nesse período apresentado no filme. "As montanhas se separam" provoca uma discussão profunda sobre influências externas, contudo, dá vazão para o flerte com o lado poético da linguagem cinematográfica. Sem sombra de dúvida, uma obra que alimenta o coração de qualquer apaixonado por cinema, com um final magistral e sublime.
CineBlissEK



Ficha técnica: 

As montanhas se separam (Shan He Gu Ren)
2015, China
Direção: Jia Zhang-Ke
Roteiro: Jia Zhang-Ke
Produção: Nathanaël Karmitz, Shiyu Liu, Zhangke Jia, Zhong-lun Ren
Fotografia: Nelson Lik-wai Yu
Elenco: Zhao Tao, Sylvia Chang, Zhang Yi, Jing Dong Liang e Han Sanming

segunda-feira, 20 de junho de 2016

"Campo Grande" dá uma pincelada na dicotomia de espaços na cidade do Rio de Janeiro


A cidade do Rio de Janeiro geralmente aparece nas telas de cinema com belíssimas paisagens da zona sul, contrariando esse retrato, a diretora Sandra Kogut (Mutum; Um passaporte húngaro) busca trazer uma imagem diferenciada da capital fluminense com seu recente filme "Campo Grande" (2015). O cartão postal carioca do famoso bairro de Ipanema com suas praias, cede espaço para a visão de várias obras em construções, assim como outra localização, desconhecida de guias turísticos, a zona oeste, mais precisamente o bairro de Campo Grande, ganha destaque no longa. 

Para mostrar esse contraste de realidades, a diretora introduz a jornada de dois irmãos Rayane (Rayane do Amaral) e Ygor (Ygor Manuel), quando estes aparecem do nada no apartamento de Regina (Carla Ribas), uma mulher de classe média, divorciada, moradora de Ipanema que está prestes a mudar-se de apartamento devido a saída de casa de sua única filha Lila (Julia Bernat). Com esse cenário, a narrativa desenvolve-se na busca de solução para o que fazer com essas duas crianças que dizem estar à espera da mãe. Elas carregam consigo um bilhete com o nome e localização de Regina e a promessa de retorno da mãe.

Num primeiro momento, Regina tenta livrar-se das crianças transferindo a responsabilidade para sua emprega. Sem sucesso, decide levá-los para um abrigo de menores, no qual Ygor consegue fugir e voltar à procurar pela mãe. Logo, o filme centra a narrativa na relação de Regina com sua filha e com Ygor, apresentando uma mulher com dificuldades para cuidar de alguém ou amparar uma pessoa. Esse elemento é tão forte, que Regina aceita seu chamado e resolve ajudar Ygor a encontrar a casa de sua avó em Campo Grande. No interior do carro, os dois embarcam numa trajetória de aproximação e transformação, cujo resultado são cenas de profunda comoção e reflexão.

A mudança de paisagem da cidade carioca tornar-se um componente de extrema importância para a narrativa, pois mostra não só os contrastes sociais como também as modificações que estão sendo feitas nessas áreas com inúmeras obras em implementações, uma certa desconstrução de espaço. Isso é realçado com a predominância de intenso barulho das construções civis nas cenas externas.

Com o emprego de ângulos intrigantes juntamente com um ritmo lento, o longa flerta com uma  meditação sobre o fluxo contínuo de modificações que ocorrem tanto em ambientes como nas vidas das pessoas. Com efeito, vale destacar a interpretação de Carla Ribas que consegue sensibilizar o espectador com sua postura rígida, elevando o drama para um debate da realidade sem cair na mesmice de conto de fadas.
CineBlissEK




Ficha Técnica: 

Campo Grande (Campo Grande)
2015, Brasil/França
Direção: Sandra Kogut
Roteiro: Felipe Sholl, Sandra Kogut
Produção: Flávio R. Tambellini, Laurent Lavolé, Sandra Kogut
Fotografia: Ivo Lopes Araújo
Elenco:  Carla Ribas, Julia Bernat, Ygor Manuel, Rayane do Amaral

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Comédias francesas recheiam o Festival Varilux 2016


O Festival Varilux de Cinema Francês, estreou há uma semana (8), em algumas cidades e capitais do Brasil com uma programação das recentes obras cinematográficas francesas. O evento que ocorre até o dia 22 de junho, conta com a presença ilustre na cidade do Rio de Janeiro, com alguns atores e atrizes para divulgarem seus respectivos filmes, tais como: Roschdy Zem "Chocolate", Finnegan Oldfiled "Os cowboys", Philippe Guay "Flórida", Vincent Lacoste "Lolo, o filho da minha namorada", Lou de Laâge "Agnus Dei" e Virginie Efira "Um amor à altura". Para conferir a programação completa acesse: Festival Varilux de Cinema Francês
 
O CineBlissEK, assistiu duas comédias do Festival Varilux com histórias um pouco bobas, mas simpáticas e divertidas, "Um amor à altura" (2016) com o galã francês Jean Dujardin de "O artista" (2011) e "Lolo, o filho da minha namorada" (2015) com a atriz Julie Delpy conhecida mundialmente por "Antes do amanhecer" (1995) que também assina a direção do filme.

Em "Um amor à altura" dirigido por Laurent Tirard, o queridinho francês é o arquiteto bem sucedido Alexandre (Jean Dujardin) que ao encontrar o celular da bela advogada Diane (Virginie Efira) decidi convidá-la para um encontro para devolver o aparelho, a maneira como ele instiga ela a comparecer, deixa a jovem com expectativas altas para conhecer esse homem. No entanto, quando os dois se veem frente à frente, Diane depara-se com um adulto de 1,36 de altura, ao qual não consegue esconder a decepção devido à baixa estatura de Alexandre.

Apesar disso, Diane resolve vê-lo outras vezes e, a cada encontro é surpreendida Alexandre. Os dois "saltam" para viver o relacionamento de uma maneira genuína, na tentativa de não dar chance para os julgamentos da sociedade e principalmente do ex-marido da advogada, Bruno (Cédric Kahn) que por ser seu sócio, não perde a chance de fazer piadas com o fato. Porém, Diane não tem tanta clareza com relação a esse envolvimento, entrando em conflito com seus próprios preconceitos.

O filme de uma maneira delicada e engraçada desconstrói a imagem de galã de Jean Dujardin colocando-o como um anão para discutir temas complexos, como uma sociedade voltada para a aparência física que tem dificuldades para acolher o diferente. Com uma montagem acertada, roteiro cativante com tiradas inteligentes, o longa traz uma abordagem atípica da comédia romântica ao comparar-se com algumas idiotices recentes americanas.
Estreia prevista para 4 de agosto de 2016.



Já a atriz Julie Deply lança-se no quesito direção e traz a comédia "Lolo, o filho da minha namorada", na trama a gerente de moda Violette (Julie Delpy) conhece de uma forma inesperada o simplório programador de computador Jean-René (Dany Boon) em uma cidade provinciana francesa. Os dois passam a noite juntos, e dão seguimento ao relacionamento quando Jean vai morar em Paris. Na capital, o casal apaixonado são testados a todo momento devido suas diferenças, contudo a maior provação vem por parte do filho de Violett, Lolo (Vincent Lacoste), um rapaz mimado que não aceita nenhum tipo de relacionamento amoroso de sua mãe. 

Para arruinar outra união de Violette, Lolo utiliza de numerosas artimanhas infantis para separar o casal, suas peripécias são mascaradas pelo seu jeito cínico que não deixa em nenhum momento demonstrar estar por trás das situações constrangedoras, além de contar com suporte materno em qualquer suspeita de seu comportamento. A narrativa é construída com base no Complexo de Édipo, juntamente com a ausência do corte do cordão umbilical na relação de mãe e filho. Para equilibrar o ritmo do longa, Violette conta com o apoio da amiga que tem uma ligação com a filha completamente diferente da dela.

Julie Deply que também assina o roteiro junto com Eugénie Grandva, consegue provocar uma discussão sobre a relação materna com os filhos de uma forma divertida e meio pastiche, através de um roteiro que oscila entre alguns exageros, mas sem deixar de ter diálogos com boa dosagem de ironia. Os personagens simpáticos, atrapalhados e complexos, fazem valer a pena conferir o longa e deliciar-se com certas bizarrices francesas.
Estreia prevista para 14 de julho de 2016.





terça-feira, 24 de maio de 2016

As formas de acolhimento materno em "Mommy" sensibiliza e provoca uma profunda reflexão sobre o papel do educador


O diretor canadense Xavier Dolan (Amores imaginários) que esse ano concorreu na 69ª edição do Festival de Cannes com "Juste La Fin Du Monde" apresentou ao universo cinematográfico em 2014 o comovente "Mommy", onde retrata um Canadá ficcional, mais precisamente o ano de 2015 quando entra um novo governo com o projeto de permitir a internação em hospitais públicos de jovens com problemas psicológicos, cujas famílias tenham dificuldades financeiras, sem precisar de um julgamento. Com uma família fora do padrão patriarcal, ao qual a figura da mulher, do materno é o núcleo para educar, transmitir valores e compartilhar afeto, o diretor introduz esse drama com um tom de provocação, sensibilização e uma profunda reflexão.

Para o desenvolvimento da narrativa, Xavier Dolan evidencia a viúva Diane Després (Anne Dorval) prestes a retirar o filho adolescente Steve (Antoine-Olivier Pilon) do internato ao qual fora expulso por atos de violência. O jovem com certos distúrbios psicológicos, nutre pela mãe um amor incondicional - uma analogia ao complexo edipiano - ao mesmo tempo que carrega feridas não cicatrizadas do falecimento do pai. Os dois vão morar em uma nova vizinhança na periferia canadense, onde conhecem Kyla (Suzanne Clément), uma professora de licença profissional com dificuldades para falar. A presença dessa terceira personagem no ambiente íntimo, causa uma certa "harmonia" entre mãe e filho.

Kyla inicia um processo de ministrar aulas particulares à Steve enquanto Diane saí em busca de trabalho para conseguir sustentar ambos. Nessa relação entre os três cria-se uma cumplicidade, um laço amoroso e afetivo, ao qual marcará a vida de cada um. Em virtude do comportamento descontrolado e agressivo de Steve, Diane tenta de diversas maneiras amparar e acolher o filho, já ele até experimenta a tentativa de controlar-se, contudo sem sucesso algumas vezes. A pergunta que se coloca é como criar um filho para seu convívio em sociedade? Qual o melhor modo de ajudar esse filho? Qual a maneira mais correta para socorrer esse adolescente?

Com o formato da tela em 1:1, ou seja, pequeno e quadrado, há sensação de estranhamento no começo e um certo confinamento, o filme decorre praticamente até a metade da história dessa forma, para que só depois haja uma mudança dessa dimensão numa sequencia mágica e esplendorosa ao som de "Wonderwall" do Oásis. A partir daí, ocorre uma alternância dos formatos e percebe-se o motivo dessa escolha inteligente.

O filme proporciona um deleite visual de técnicas cinematográficas, com ângulos primorosos, tanto de objetos como dos rostos das personagens com suas expressões profundas de sentimentos. O som, de extrema importância tanto na parte de trilha sonora contemporânea de excelente qualidade, como os barulhos ou os gritos numa tentativa de comunicação. Uma obra catalisadora de desconforto, choque e comoção, que não a toa faturou o Prêmio do Júri em Cannes em 2014. 
CineBlissEK


Ficha Técnica:

Mommy (Mommy)
2014, Canadá
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Produção: Nancy Grant, Xavier Dolan
Fotografia: André Turpin
Elenco: Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon, Suzanne Clément

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Com uma pitada de bom humor "Truman" retrata a jornada de despedidas de um ator prestes a morrer


A única certeza do ser humano é saber que um dia irá falecer, apesar disso ninguém tem conhecimento de quando esse fato pode acontecer. No caso do novo longa do diretor Cesc Gay (O que os homens falam), a personagem principal Julian (Ricardo Darín), ator argentino radicado em Madri, está com os dias contados em virtude do avanço do câncer em seu corpo. Para não passar os últimos momentos de sua vida em um quarto de hospital, ele decidi interromper o tratamento e aproveitar o tempo que resta.

Para a surpresa de Julian, eis a visita inesperadamente de seu antigo amigo de infância, Thomas (Javier Cámara) que mora no Canadá e veio para Madri passar alguns dias ao lado dele. Thomas até tenta persuadir o amigo de realizar todo processo de tratamento médico, porém sem sucesso. Dessa forma, ele opta por estar junto do parceiro nesses últimos suspiros para matar a saudade e acompanhá-lo em sua rotina. Nessas andanças os dois conversam sobre a amizade, a vida, os amores e a questão da morte, todavia esses assuntos são discutidos com uma pitada de descontração e bom humor, dando um ritmo mais leve a narrativa.

Nessa jornada de despedidas, Julian tem como principal missão encontrar um lar para seu fiel companheiro, Truman, o cachorro de longa data e merecedor do título do filme. Conjuntamente, ele faz uma trajetória interna ao lidar com sentimentos intensos, o perdão, o medo, a coragem e determinação, pois são essas emoções que lhe permitem seguir adiante com sua decisão. Nesse ínterim, Julian junto de Thomas tem a oportunidade de passar uma tarde com o filho que mora em Amsterdã para celebrar o aniversário do jovem e um último adeus.

Todo esse percurso de alta carga dramática só é crível devido a interpretação brilhante dos dois atores consagrados em seus países - Ricardo Darín na Argentina e Javier Cámara na Espanha - que junto com Dolores Fonzi, prima contrária a decisão de Julian, transmitem de uma maneira sensível, humana e acolhedora a dificuldade de dizer adeus para alguém querido. Os laços criados a partir das relações tornar-se o nutriente para a existência humana, como comenta a personagem principal ao indagar que o sentido da vida está justamente nas relações.

O roteiro assinado por Cesc Gay e Tomas Aragay estabelece um equilíbrio entre o drama e o jocoso, obtendo um resultado inteligente e elegante. A montagem com o ritmo afinado à trama consegue perpassar de uma maneira suave a despedida de Julian, fomentando no espectador a comoção, admiração e até possíveis lágrimas ao término da sessão. 
CineBlissEK


Ficha Técnica: 

Truman (Truman)
2016, Espanha/Argentina
Direção: Cesc Gay
Roteiro: Cesc Gay, Tomas Aragay
Produção: Marta Esteban, Diego Dubcovsky
Fotografia: Andreu Rebes
Elenco: Ricardo Darín, Javier Cámara, Dolores Fonzi

segunda-feira, 16 de maio de 2016

"Mesmo se nada der certo" dialoga com términos e recomeços nutrido por uma trilha sonora de encantar os corações


Quando um filme tem como indicação comédia romântica logo suscita o pré julgamento de saber o final da narrativa com o casal vivendo felizes para sempre, o tal do happy end. No entanto, a beleza das obras cinematográficas está justamente no fato de surpreender o espectador, esse flagrante ocorreu ao assistir "Mesmo se nada der certo" recentemente no Netflix. O filme de 2014 dirigido pelo irlandês John Carney (Apenas uma vez), apresenta através da jornada de Gretta (Keira Knightley) e Dan (Mark Ruffalo) um encontro do acaso sem flertar com o açucarado dos romances, mas sim com os términos e recomeços da vida tanto do lado amoroso quando profissional.

Em um bar qualquer de Nova Iorque encontra-se Gretta, uma compositora que assiste a performance de seu amigo Steve (James Corden), este a convida para cantar, com seu jeito tímido e reservado acaba cedendo aos apelos. Sua apresentação desperta em Dan, presente na plateia, um encanto e anseio de produzir um álbum com a jovem desconhecida. O curioso dessa cena é a montagem composta em duas versões para ilustrar o dia complicado de cada personagem antes do encontro, Gretta acabara o relacionamento de longa data com o namorado Dave (Adam Levine) também músico e agora famoso, e Dan um produtor musical arruinado que fora dispensado da empresa ao qual ajudara a criar.

A união de Gretta e Dan contempla a tarefa de gerar uma inusitada composição musical para com isso reverter a trajetória de suas vidas, Dan em reestruturar-se perante sua família e emprego, e Gretta em superar o fim do relacionamento. Para essa missão, eles decidem gravar as canções ao ar livre, em lugares nem sempre permitidos e com músicos amadores. As sequencias dessas imagens mescla clipes musicais e também uma narrativa de sentimentos não expressos pela jovem em relação ao ex-namorado. A trilha sonora exposta no decorrer do longa, contagia o público com letras melosas e sensíveis conectando diversos corações machucados.

O roteiro aparentemente trivial consegue superar expectativas, pois elucida uma sutil crítica ao universo musical, embala um ritmo harmonioso através da montagem, seduz com personagens simpáticos e com desfechos inesperados. A sensação após assistir o filme é de leveza e confiança de que mesmo se nada der certo há algum aprendizado para ser descoberto e transformado. Fica a sugestão para o espectador que está em busca de ausentar-se um pouco da realidade para um universo bacana conjuntamente com uma trilha sonora de encantar os ouvidos.
CineBlissEK  


Ficha Técnica: 

Mesmo se nada der certo (Begin again)
2014, Estados Unidos
Direção: John Carney
Roteiro: John Carney
Produção: Anthony Bregman, Judd Apatow
Fotografia: Yaron Orbach
Elenco: Keira Knightley, Mark Ruffalo, James Corden, Adam Levine, Catherine Keener

quinta-feira, 12 de maio de 2016

A solidão masculina com ingredientes meigos e sinceros traçam a jornada do herói no filme "Desajustados"


Islândia, país nórdico localizado no continente europeu surpreende nesse primeiro semestre o circuito nacional de cinema com dois filmes de qualidades excelentes, o já lançado "A ovelha negra" (2015) de Grímur Hákonarson e o mais recente "Desajustados" (2015) de Dagur Kári (O bom coração). Os dois possuem temáticas completamente diferentes, porém expõem algumas similaridades referentes ao homem solitário.

Em "Desajustados" a jornada fílmica se concentra no personagem Fúsi (Gunnar Jónsson), um adulto com comportamento tímido, sensível e passível que contrasta com a sua aparência física gigante e volumosa. Trabalha no aeroporto com despacho de malas, onde sofre bullying por parte de seus parceiros sem reagir ou denunciar a conduta. Mora com a mãe super protetora que logo perde espaço na casa com a chegada do padrasto.

Seu passatempo consiste em simular a Segunda Guerra Mundial em um tabuleiro de miniaturas com um amigo, ir à um restaurante asiático sozinho, ligar na rádio local para pedir rock pesado ou brincar com a vizinha de oito anos, também solitária, pois o pai encontra-se na maioria das vezes ausente. Esses divertimentos, assinala uma possível metáfora da infantilidade e não enfrentamento dos conflitos da vida no personagem.

No entanto, em seu aniversário de 43 anos eis que surge seu chamado a aventura quando ganha do padrasto um curso de dança. Receoso em sair de sua zona de conforto, já que dedica seu tempo as mesmas coisas diariamente, Fúsi desloca-se para as aulas. Nesse local ele conhece Sjöfn (Ilmur Kristjánsdóttir), uma atendente de floricultura ao qual também lida com a solidão e um problema emocional. A construção da relação dos dois é feita pelo diretor de uma maneira delicada e comovente, sem em nenhum momento sucumbir ao clichê, pelo contrário cria uma sensação de acolhimento do espectador perante o casal.

Com um ritmo lento e reflexivo, o filme contempla o público com um herói autêntico em sua jornada de descobertas sobre si mesmo, desapego materno e o enfrentamento da vida. O longa merecidamente faturou três prêmios no Festival de Tribecca em 2015 como Melhor Narrativa, Melhor Roteiro e Melhor Ator para (Gunnar Jónsson) e com certeza sensibilizará o coração de cada espectador que se permitir mergulhar nessa trajetória masculina de autoconhecimento e redenção. 
CineBlissEK  



Ficha Técnica: 

Desajustados (Fúsi)
2015, Islândia/Dinamarca
Direção: Dagur Kari
Roteiro: Dagur Kari
Produção: Agnes Johansen, Baltasar Kormákur
Fotografia: Rasmus Videbæk
Elenco: Gunnar Jónsson, Ilmur Kristjánsdóttir, Sigurjon Kjartansson, Franziska Una Dagsdóttir

sábado, 7 de maio de 2016

Para celebrar o Dia das Mães, o CineBlissEK comenta "Mia Madre" que retrata o amor materno como legado aos filhos


Amanhã, 8 de maio, comemora-se o Dia das Mães, a data além de impulsionar o comércio através da compra de presentes, tem como finalidade celebrar e agradecer os cuidados, a proteção e o amor materno na vida de cada pessoa. O afeto que envolve a figura da mãe é um assunto recorrente na literatura, música e no cinema não seria diferente, há milhares de títulos cinematográficos que trabalham com esse tema universal. Para ilustrar essa temática, o CineBlissEK seleciona "Mia Madre" (2015), o mais recente filme do diretor italiano Nanni Moretti (O quarto do filho; Habemus Papam).

No longa metragem, o foco está na cineasta Margherita (Margherita Buy), uma mulher moderna envolta em diversos conflitos, produzir um filme com um ator egocêntrico de Hollywood Barry Huggins (John Turturro), ser uma mãe presente com sua filha adolescente, responsabilizada pelo fim de um relacionamento, e o mais difícil e dolorido, lidar com o câncer da mãe Ada (Giulia Lazzarini). Uma senhora simpática e batalhadora que no passado fora professora de latim, influenciando diversos alunos.

Nesse turbilhão de eventos ao mesmo tempo, Margherita conta com a ajuda do irmão Giovanni interpretado por Nanni Moretti, para cuidar da adora mãe. Os dois dividem o tempo entre o trabalho e o hospital, confidenciando as dificuldades de encarar a doença materna, cujo efeito se reflete na crise existencial de cada um, Giovanni decidi abandonar o emprego e Margherita desperta para um processo de autoconhecimento meditando sobre sua índole.

Para amenizar a carga dramática, tem-se na figura de Barry os momentos divertidos do filme, pois com o talento do comediante John Turturro há um show à parte com seus embaraços com a língua italiana ou mesmo reverenciando a si mesmo ao dizer ser o ator favorito de Stanley Kubrick. Outro componente utilizado é a mistura entre a realidade e o onírico, pois algumas cenas aparenta ser real para minutos depois perceber que trata-se de um sonho ou imaginação, como na sequencia ao qual Margherita caminha contraria a uma fila de cinema e revê conhecidos e a si mesma.

A harmonia entre a dor e sofrimento da enfermidade da mãe com o humor leve na gravação do filme de Margherita é o que sensibiliza o espectador sem cair na mesmice de um drama barato. Os diálogos bem construídos e uma montagem acertada, proporciona um ritmo perfeito ao longa, humanizando as personagens na interação com o espectador através da temática do amor materno. A figura da cineasta, é considerada um alterego do diretor Nanni Moretti que vivenciou um caso parecido com sua mãe durante as filmagens de Habemus Papam. Sem sombra de dúvidas, um elegante presente para enaltecer o legado de ser mãe.
CineBlissEK



Ficha técnica 

Mia madre (Mia madre)
2015, Itália/França
Direção: Nanni Moretti
Roteiro: Francesco Piccolo, Nanni Moretti, Valia Santella
Produção: Domenico Procacci, Nanni Moretti
Fotografia: Arnaldo Catinari
Elenco: Margherita Buy, John Turturro, Giulia Lazzarini, Nanni Moretti

segunda-feira, 18 de abril de 2016

"Soul Kitchen" conquista pela simpatia e carisma dos personagens


Sabe aquele momento na vida onde nada dá certo, tudo parece esfacelar-se em questões de segundos sem perspectiva de melhoras, para o trapalhão e desastrado cozinheiro e dono do restaurante "Soul Kitchen" mesmo nome do filme, é justamente essa etapa da jornada ao qual ele encontra-se. Lançado em 2009 pelo diretor alemão Fatih Akin (Contra a parede; Do outro lado), a narrativa apresenta de um modo irônico e divertido, as dificuldades de um herói fora do convencional, que busca de todas as maneiras possíveis manter seu restaurante peculiar em meio a um "inferno astral".

Hamburgo, mais especificamente num área industrial, encontra-se o restaurante "Soul Kitchen" cujo dono é o jovem Zinos Kazantsakis (Adam Bousdoukos), suas artimanhas em administrar e cozinhar no estabelecimento divide-se com sua namorada Nadine (Phéline Roggan), que está prestes a embarcar para China numa viagem profissional sem data de volta. Essa situação é apenas o começo de diversas enrascadas ao qual a personagem depara-se nessa conturbada trajetória. Seu irmão Illias (Moritz Bleibtreu) ao sair da prisão pede-lhe um emprego de fachada, Zinos fratura a coluna ao tentar mudar a máquina de lavar louça do lugar e precisa contratar outro chefe para assumir sua posição, também enfrenta problemas com a vigilância sanitária e tributos do governo, e para aumentar seu caos, um amigo de infância resolve fazer jogo sujo para comprar sua propriedade.

Todos esses elementos de pura confusão são encaixados na jornada de Zinos, criando uma atmosfera de tragédia, porém com foco totalmente voltado para a comédia, o humor e divertimento. Algumas cenas chegam a ser exageradas, como a do resgate da escritura do restaurante ou do afrodisíaco na sobremesa servido para os clientes. No entanto, essas demasias não deixam de atrapalhar o objetivo da obra que é entreter seu público com alegria. 

O restaurante "Soul Kitchen", além de ser um personagem em si do filme é o local onde a maioria das cenas ocorrem, reúne pessoas de diferentes tribos para alimentar-se de "comida para alma", expressão utilizada na narrativa, e de ótimas músicas que presenteiam o público com uma trilha sonora de excelência. Os diálogos por sua vez, tornam-se confusos em alguns momentos, todavia sem deixar de evidenciar a simpatia dos personagens que conquista o espectador de imediato, na torcida para um desfecho lúcido e sereno da história. Vale a pena deliciar-se e divertir-se com a vida aos avessos de Zinos, afinal rir nunca é demais.   




Ficha técnica:

Soul Kitchen (Soul Kitchen)
2009, Alemanha/França/Itália
Direção: Fatih Akin
Roteiro:  Adam Bousdoukos, Fatih Akin
Produção: Klaus Maeck
Fotografia: Rainer Klausmann
Elenco: Adam Bousdoukos, Phéline Roggan, Moritz Bleibtreu