terça-feira, 22 de maio de 2018

"Aos teus olhos" expõe a velocidade e a dimensão do motim de 'caça às bruxas' na era das redes sociais


O novo filme da diretora brasileira Carolina Jabor, "Aos teus olhos" (2017), busca retratar o momento atual da sociedade por meio da polarização de opiniões e a viralização de informações nas redes sociais. Estrelado pelo ator Daniel de Oliveira como o professor de natação infantil Rubens, a narrativa se desenvolve neste personagem quando é acusado pelo aluno Alex (Luiz Felipe Mello) de ter passado dos limites na demonstração de afeto, ao dar-lhe um beijo no vestiário. 

Logo, o pai de Alex, Davi (Marco Ricca) e a mãe Marisa (Stella Rabello), tomam a frente da situação e agem de acordo com seus impulsos. Davi, um pouco mais cauteloso vai à polícia dar queixa, já Marisa, decide apelar para rede social incriminando o professor. A divulgação do fato em grupos de WhatsApp, faz com que outros pais também acusem o professor sem saber ao certo se ele é culpado ou não. 

O drama faz referência ao filme dinamarquês "A caça" (2012), de Thomas Vinterberg, com a mesma provocação de caça às bruxas por parte de um grupo de pessoas, sem necessariamente uma comprovação que legitime a acusação. No caso brasileiro, o processo de difamação do acusado toma proporções ainda maiores devido a velocidade da propagação de informações na era das redes sociais.

A maioria das cenas são ambientadas no clube de natação com a piscina como pano de fundo, o que possibilita uma certa fluidez no ritmo da narrativa e também complementa o destaque dado para as imagens de reflexo do personagem Rubens, uma radiografia da dualidade e complexidade deste.  "Aos teus olhos", chega num momento oportuno para refletir sobre a dimensão do compartilhamento de notícias e, principalmente, sobre como esse processo pode afetar em diversas esferas a vida de uma pessoa, independente de sua culpabilidade ou não.
CineBliss
*Visto no Festival do Rio 2017



Ficha técnica: 

Aos teus olhos (Aos teus olhos)
Brasil, 2017
Direção: Carolina Jabor
Roteiro: Lucas Paraizo
Produção: Carolina Jabor
Fotografia: Azul Serra
Montagem: Sergio Mekler
Elenco: Daniel de Oliveira, Marco Ricca, Luisa Arraes, Stella Rabello

quinta-feira, 10 de maio de 2018

"Esplendor" mergulha na subjetividade da imaginação de deficientes visuais


O filme japonês "Esplendor" (2017), que disputou à Palma de Ouro ano passado e logrou o Prêmio do Júri Ecumênico, estreia hoje nas principais salas de cinema do país. Dirigido pela japonesa Naomi Kawase (Sabor da Vida; O segredo das águas), a narrativa busca trabalhar o mais profundo aspecto da imaginação na arte cinematográfica através de personagens com deficiência visual, já que a paixão pelo cinema não reside nas imagens que aparecem no retângulo de pano branco, mas sim, no material real: o imaginário.

Para isso, a história é focada na jovem Misako (Ayame Misaki), cuja profissão é escrever versões de filmes para pessoas privadas de visão. Em uma das exibições, ela conhece Nakamori (Masatoshi Nagase), um fotógrafo famoso que está perdendo a visão lentamente. Num primeiro momento, os dois são contaminados por provocações um ao outro por discordarem do modo como são feitas as descrições por ela. Esses embates, acaba sendo questionado pela coordenadora quando fala para Misako: "Qual de vocês dois não tem imaginação". Porém, logo os dois são guiados em abrir-se para a imaginação e, consequentemente, são despertos para as surpresas da vida. 

A fotografia de "Esplendor" capta a beleza e o brilho da luz solar de uma forma que parece perfurar os corpos humanos. As imagens sensoriais e os dispositivos sonoros utilizados com certa intensidade no filme, afloram os sentidos do espectador. O roteiro por sua vez, contempla com cuidado e elegância essa imersão em um universo extremamente sensível, uma vez que, cada um dos personagens principais estão fechados na escuridão de suas próprias dores, sem permitirem a entrada de luz, de vida nova, de esperança.  

São várias sequencias que demonstram esse primor na construção da narrativa, como por exemplo, na cena em que Misako e Nakamori estão dentro do vagão do metrô, sentados um ao lado do outro sem trocarem uma palavra, no entanto, um evento permite a aproximação dos dois e suas mãos tocam e seguram uma a outra. Outro momento é no final, quando o grupo de deficientes visuais estão na sala de cinema mergulhados em suas subjetividades imaginando a história descrita por Misako e, o espectador não vê as imagens da tela do cinema, e sim, da expressão destes personagens. O filme todo é um exercício de reflexão e empatia.  Não deixem de conferir! 
CineBliss





Ficha técnica: 

Esplendor (光) 
2017, Japão/ França
Direção: Naomi Kawase
Roteiro: Naomi Kawase
Produção: Masa Sawada, Naoya Kinoshita, Yumiko Takebe
Elenco: Masatoshi Nagase, Ayame Misaki, Tatsuya Fuji 

quinta-feira, 3 de maio de 2018

"Ciganos da Ciambra" tem no rito de passagem de um adolescente, o retrato social dos excluídos na Calábria


Estreia hoje nas principais salas de cinema do país o filme italiano "Ciganos da Ciambra" (2017), do diretor e roteirista Jonas Carpignano, que logrou no ano passado em Cannes, o prêmio Europa Cinemas Label, na Quinzena de Realizadores. O drama produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira (Frances Ha; Me chame pelo seu nome), goza do neorrealismo italiano para narrar os rituais de passagem do adolescente de 14 anos, Pio (Pio Amato). Junto de sua família numerosa, ele vive na Ciambra, uma pequena comunidade romana na Calábria, cercado de miséria e violência.

Pio anseia em tornar-se adulto, uma vez que bebe, fuma e comete pequenos delitos, porém, ainda experimenta o lado infantil de brincar de bola ou sentar-se no colo da mãe. Quando seu irmão Cosimo (Damiano Amato) é preso, ele assume o posto de provedor da família, o que acarreta num fardo pesado para aguentar sozinho. Sua única ajuda é do amigo africano Ayiva (Koudous Seihon), cuja relação se desenvolve no molde de mentor para Pio. Esse despertar para responsabilidades de um adulto, coloca-o diante de escolhas cruciais para sua jornada. Tanto que a cena final, com o caminhar do jovem rumo à sua decisão é de uma beleza estética e narrativa visceral.  

O local da história como destacado no título original "A Ciambra" não deixa de ser um personagem, que mesmo de forma precária, acolhe essas pessoas excluídas da sociedade - imigrantes africanos, máfia italiana e ciganos. Essa mistura de culturas é exposta com frequência no decorrer do filme, como por exemplo, durante o jantar da família de Pio um dos integrantes fala: "comem comida de italianos e bebem como africanos".   

A fotografia com tomadas realistas da Ciambra e seu entorno, faz com que o ambiente miserável seja transpassado para às telas por meio de uma radiografia cru e pungente das pequenas mazelas humanas. As engrenagens desse cenário social desfavorável, é enaltecido com um trabalho de som eficaz que entrega a efervescência dessa conjuntura com muito barulho, ruídos de motocicletas, carros, música ou pessoas falando alto. Esse retrato social dos excluídos visto sob a ótica de Pio, provoca uma experiência inquietante e ao mesmo tempo comovente no espectador. Não deixem de conferir!

CineBliss
*Visto no Festival do Rio 2017. 




Ficha técnica: 

Ciganos da Ciambra (A Ciambra) 
Itália/França, 2017
Direção: Jonas Carpignano
Roteiro: Jonas Carpignano
Produção: Alessio Lazzreschi, Christoph Daniel, Gwyn Sannia, Jon Coplon, Rodrigo Teixeira, Ryan Zacarias
Fotografia: Tim Curtin
Montador: Affonso Gonçalves
Elenco: Pio Amato, Damiano Amato, Koudous Seihon