quinta-feira, 27 de julho de 2017

Com uma imaginação sem limite "Poesia sem fim" desperta o lado criativo da alma


Entrar no escurinho do cinema para conferir o novo filme do diretor chileno Alejandro Jodorowsky, "Poesia sem fim" (2016), tem-se a necessidade de abrir o coração, desprender-se de qualquer tipo de amarra racional e, simplesmente, permitir-se ser guiado na jornada onírica do jovem futuro poeta Alejandro (Adan Jodorowsky). A narrativa é baseado na vida do próprio diretor que utiliza da fantasia, do exagero e teatral, para recriar suas memórias.

Ambientando em Santiago do Chile, no período de 1940, Alejandro contraria as expectativas dos pais em ser um médico para seguir o sonho de tornar-se um poeta. Com uma das cenas mais divertidas e simbólicas, Alejandro corta laços com os familiares, golpeando com um machado a árvore da casa da avó, dizendo "família de merda". Esse evento é apenas a "entrada", para as outras tantas situações escrachadas vivenciadas pelo jovem. Em cada uma destas cenas, observa-se o trabalho primoroso de toda equipe para apresentar um vislumbre visual e poético. 

Alejandro junta-se a outros artistas para cultivar seu dom. Saí em busca de sua musa inspiradora no Café Iris, local com uma decoração singular, cercado de pessoas em estado de sonolência. Ali, depara-se com a extravagante poeta Stella Diaz (Pamela Flores), uma mulher repleta de peculiaridades com quem desenvolve um caso amoroso. Tem a oportunidade de conhecer o famoso poeta Nicanor Parra e tornar-se amigo de Enrique Lihn.

Com um colorido de encher os olhos de vida, a fotografia transporta o espectador para um universo onde não há fronteiras, apenas a fluidez da imaginação. Concomitantemente, o cenário alegórico proporciona ainda mais energia para esse mergulho poético, ao lado de personagens um tanto quanto circenses. Todo esse invólucro relembra algumas obras do italiano Federico Fellini. 

Vale destacar a presença do diretor como ele mesmo em alguns momentos da narrativa, sendo a consciência do jovem Alejandro com conselhos sobre a jornada da vida. "Poesia sem fim", é o segundo filme do montante de cinco estipulados por Alejandro Jodorowsky para transportar ao cinema suas memórias. O primeiro deles foi "A dança da realidade", de 2013. Sem sombra de dúvida, fica a expectativa do que a imaginação desse poeta, sonhador e cineasta, pode presentear o público nos próximos três filmes. 
CineBlissEK





Ficha técnica: 

Poesia sem fim (Poesía sin fin)
Chile/França, 2016
Direção: Alejandro Jodorowsky 
Roteiro: Alejandro Jodorowsky 
Produção: Alejandro Jodorowsky 
Fotografia: Christopher Doyle
Elenco: Adan Jodorowsky, Brontis Jodorowsky, Carolyn Carlson, Pamela Flores, Leandro Taub,

quinta-feira, 13 de julho de 2017

"Mulheres do século XX" pulsa com as transformações de uma época sob a ótica do feminino


Cada geração é envolvida por características específicas que enaltecem a época e, na maior parte das vezes, contradiz a anterior. Em "Mulheres do século XX"(2016), novo longa-metragem do diretor e roteirista Mike Mills (Toda forma de amor), as discussões sobre as transformações culturais e de revolução de um período, são baseados nas próprias experiências do diretor. 

O momento é 1979, na ensolarada Califórnia - especificamente Santa Barbara, onde mora Dorothea Fields (Annette Bening), uma mulher de 50 anos, moderna, complexa e mãe solteira. Ao constatar que seus esforços em preparar seu filho adolescente Jamie (Lucas Jade Zumann) para a sociedade, não estão sendo suficientes, ela decide pedir ajuda para duas pessoas nada convencionais: a fotógrafa Abbie (Greta Gerwing), apaixonada pelo movimento punk, que aluga um quarto na casa de Dorothea e, a jovem Julie (Elle Fanning), com seus primeiros contatos sexuais e em busca de auto-conhecimento. Ambas muito próximas de Jamie aceitam o desafio, ao mesmo tempo que lidam com seus próprios conflitos.

Guiado por Abbie e Julie, o adolescente depara-se com experiências fora do padrão patriarcal, desloca-se do aprendizado do homem viril - que conserta coisas, para seguir um novo caminho, o de valores até então considerados banais, como a afetividade, o entendimento do corpo feminino e suas zonas de prazeres. Esse contato com o feminino, alimenta em Jamie novos nutrientes para dialogar de uma maneira igualitária com a mãe. A única proximidade com o masculino - já que a figura paterna é ausente, está em William (Billy Crudup), outro locatário da pensão de Dorothea.

Cada um dos personagens retratados no desenrolar da narrativa, carregam suas feridas. No entanto, são trabalhadas de modo efervescente e leve, sem deixar-se dramatizar pelas situações. Feliz para Mike Mills, que desenvolve as histórias dos personagens de um modo sublime e divertido. Não apenas isso, os fatos históricos introduzidos, são sucintamente pincelados num ritmo coerente a trama. Vale destacar, as referências culturais da época, apontados com veemência em praticamente todo o filme: a pop art, o punk, a dança, a fotografia, o skate, entre outros.

A fotografia do longa-metragem assinado por Sean Porter, faz jus a esse belo retrato da época, com um colorido de vivacidade e, em certos momentos, uma mistura de sobreposições que proporciona uma certa velocidade aos eventos. Não se pode deixar de ressaltar, a nostálgica trilha sonora, com sucessos marcantes desta geração que respingou transformações até hoje vistas na sociedade.
CineBlissEK




Ficha técnica: 

Mulheres do século XX (20th Century Women)
2016, Estados Unidos
Direção: Mike Mills
Roteiro: Mike Mills
Produção: Anne Carey, Megan Ellison, Youree Henley
Fotografia: Sean Porter
Elenco: Annette Bening, Elle Fanning, Greta Gerwing, Billy Crudup, Lucas Jade Zumann

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A importância da semente plantada por "Mulher-Maravilha" para futuras gerações


Com a estreia do filme solo da super-heroína da DC Comic, "Mulher-Maravilha" (2017), milhares de teorias e discursos feministas repercutiram nas redes sociais. Dirigido pela americana Patty Jenkins (Monster - Desejo assassino) - que assumiu o comando após o afastamento de Michelle MacLaren, o longa-metragem apresenta uma referência de mulher que sabe exatamente o que quer, uma mulher que se posiciona, uma representação do feminino que não utiliza da sensualidade para atingir seus objetivos, e sim, da inteligência e força física. A atriz israelense Gal Gabot, abraça com carinho a personagem Diana Prince/Mulher Maravilha, presenteando o público com uma heroína jus ao momento atual da sociedade ocidental nas reivindicações de direitos iguais e inúmeras provações no dia a dia. 

Originária da ilha paradisíaca de Themyscira, Diana, ao lado de outras amazonas é treinada por sua tia Antiope (Robin Wright), para ser a maior guerreira. À chegada inesperada do capitão Steve Trevor (Chris Pine) - acidentalmente caí na ilha depois de seu avião ser abatido -, desperta na jovem seu chamado à aventura. Contrariando sua mãe, a rainha Hippolyta (Connie Nielsen), ela decidi juntar-se a Steve, para tentar impedir que a guerra tome proporções ainda mais devastadoras. Para isso, Diana acredita que precisa encontrar o deus da guerra Ares, combate-lo, para impedir sua influência sobre os humanos. Todavia, as atrocidades estão à cargo do General Erich Ludendorff (Danny Huston) e, a química Doctor Maru/Poison (Elena Anaya). 

Durante as duas horas e pouco de duração, observa-se uma guerreira que busca enfrentar o que for necessário para atingir seu objetivo, mesmo contrariando recomendações de outras pessoas. Sua esperança em trazer a paz no mundo novamente, é a sua força motriz.  Ao mesmo tempo, vê-se uma heroína ativa e sem apelo sexual, junto de outros homens, companheiros da empreitada. O personagem do capitão Steve Trevor, é de um homem consistente, destemido e convincente, cuja significância para jornada da Mulher Maravilha é crucial no sentido de complementaridade e não de dominação.

O roteiro situado na Primeira Guerra Mundial - a história de quadrinhos de 1941 tem-se a Segunda Guerra Mundial -, proporciona uma narrativa introdutória sobre a origem da Mulher Maravilha de um modo didático, com uma fotografia clara e viva nas cenas em Themyscira, para logo depois, o público ser arremessado na escuridão do conflito armado na Europa. Em Londres, Diana necessita a todo momento provar sua força e posição perante os homens que a cercam. Claro, que não poderia faltar uma parcela de humor, perante tanto horror, esse feito além de ser realizado pelo casal, também é visto na secretária de Steve, Etta Candy (Lucy Davis), que proporciona divertidas provocações em relação à sociedade patriarcal, além de dar menções do movimento das sufragistas.

Com um figurino libertador, que valoriza um vestuário para facilitar nas lutas e não para apelo sensual, Mulher Maravilha enfrenta seus adversários com a consistência e habilidade de uma heroína. Os diversos planos de slow motion, são uma outra forma de realçar a força física de Diana, sem em nenhum momento masculinizá-la.

O ponto fraco do filme se concentra no embate final, com um vilão pouco desenvolvido durante a narrativa. Por outro lado, a mensagem de amor e união entre homens e mulheres, deixa notório que só através desses dois elementos, o mundo pode sonhar com a esperança de tempos de paz. Dessa forma, a importância de milhares de meninas/jovens/mulheres/senhoras, em se verem finalmente representadas no universo dos super-heróis, é uma conquista que trará sementes poderosas para as futuras gerações.
CineBlissEK



Ficha Técnica: 

Mulher-Maravilha (Wonder Woman)
Estados Unidos, 2017
Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Zack Snyder, Allan Heinberg, Jason Fuchs
Produção: Charles Roven, Deborah Snyder, Zack Snyder
Fotografia: Matthew Jensen
Elenco: Gal Gabot, Chris Pine, Robin Wright, Connie Nielsen, David Trewlis, Danny Huston, Elena Anaya, Lucy Davis