quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O diretor estreante Taylor Sheridan esbanja seriedade e provocação com o filme "Terra Selvagem"


Taylor Sheridan, roteirista de "A qualquer custo"(2016) e "Sicario: Terra de ninguém"(2015) teve sua estreia na direção no filme "Terra Selvagem"(2017), em que o próprio título já indica o cenário como personagem, assim como o adjetivo selvagem, para caracterizar o lugar. O longa-metragem situado em Wyoming, nos Estados Unidos, tem na morte de uma pessoa na região da reserva indígena Wind River, uma história em busca da verdade, onde cada um é por si mesmo. 

O corpo encontrado pelo guarda florestal Coby Lambert (Jeremy Renner), logo, desperta outros problemas da região devastada por drogas e violência. O FBI envia a agente novata Jane Banner (Elizabeth Olsen) para ajudar na investigação do caso, no entanto, por não conhecer a área e não estar acostumada com o rigoroso inverno, escala Coby para auxiliá-la. Juntos, os dois caminham perigosamente num labirinto de mistérios sobre o caso e também sobre suas próprias vidas.

O diretor que logrou o prêmio de Melhor Direção na mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes 2017, contempla o espectador com uma narrativa provocadora sobre a situação de mulheres indígenas, num local predominado pelo homem branco. As sequencias conduzidas num ritmo paciente e frio, têm nas imagens em plano aberto da vastidão da natureza - no caso as montanhas cobertas de neve - um confronto com a fragilidade e pequenez do indivíduo.

Até mesmo o personagem Coby Lambert exterioriza o lado humano gélido, contrapondo com a energética Jane Banner. Jeremy Renner, entrega uma de suas melhores performances expondo de modo preciso as diversas camadas de seu protagonista, que balança entre uma figura reservada e quieta versus desejosa em encontrar sua própria verdade fruto de um passado infeliz.

O roteiro assinado por Taylor Sheridan expõe um tema complicado e indigesto, de um modo cru e brutal arrancando reflexões profundas sobre o sistema de domínio e submissão, onde a lei do mais forte opera sobre o mais fraco. Como na maioria dos casos na sociedade patriarcal, sobra para mulher ser relegada à opressão. 
*Visto no Festival do Rio 2017
CineBliss



Ficha técnica: 

Terra Selvagem (Wind River) 
Estados Unidos, 2017
Direção: Taylor Sheridan
Roteiro: Taylor Sheridan
Produção: Elizabeth A. Bell, Peter Berg
Fotografia: Ben Richardson
Elenco: Jeremy Renner,, Elizabeth Olsen, Graham Greene, Gil Birmingham 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Com roteiro bem humorado "Doentes de amor" contagia pela simplicidade e leveza


O estopim para qualquer roteiro de comédia romântica flerta na concepção básica de "menino encontra menina" ou vice versa, logo, o casal se apaixona, se desentende, enfrenta conflitos para no final, na maioria das vezes, ficarem juntos. No caso de "Doentes de amor" (2017), do diretor Michael Showalter, essa premissa até se faz presente, porém os ingredientes para conduzir a narrativa são direcionados para outro patamar, iluminando para uma outra relação, a do rapaz com os pais da mocinha.

Baseado na vida real dos roteiristas Kumail Nanjiani e Emily V. Gordon, o primeiro interpretado por ele mesmo e condutor da narrativa, tem em sua origem paquistanesa um dos elementos primordiais para sua jornada.  Com uma família extremamente devota das tradições, Kumail divide seu tempo como motorista de Uber, comediante e, pretendente para diversas mulheres arranjadas por sua mãe, que tem o sonho de casá-lo com alguém de mesma nacionalidade. Ao se apaixonar por Emily (Zoe Kazan), uma moça branca americana, estudante de psicologia, o comediante se vê num dilema emocional diante da tradição familiar versus seus próprios sentimentos.

Para incrementar ainda mais o conflito, Emily é internada às pressas em um hospital por causa de uma infecção, e, acaba sendo induzida ao coma. À partir daí, a narrativa desloca-se do romance do casal, para focar na relação de Kumail e os pais da jovem, Beth e Terry - respectivamente desempenhados por Holly Hunter e Ray Romano -, enquanto aguardam no hospital a melhora da filha. Os três embarcam numa aproximação um tanto quanto obrigatória, que num primeiro momento, é cercada por barreiras e preconceitos para depois ganhar novos ares. É justamente nesse ciclo que Kumail desperta para questionar sua própria vida até então governada por seus pais, tendo como mentores Beth e Terry cuja relação também passa por um momento de crise.

O roteiro bem humorado e inteligente transcorre de forma assertiva do começo até o meio da narrativa, como na cena em que Kumail e Emily estão se despedindo depois de fazerem sexo e, ela pede um Uber, a resposta vem do motorista mais próximo, no caso, o comediante. Porém, quase no final torna-se um pouco arrastada com situações um tanto quanto banais, cuja função é forçar emoções no espectador. Esse fator, não desmerece a graça e simplicidade do filme.

"Doentes de amor" produzido por Judd Apatow mesmo de "Missão madrinha de casamento" e "Descompensada", segue a linha de seus antecessores com o mesmo ritmo ágil para as piadas. Kumail Nanjiani - que interpreta Dinesh no seriado da HBO Silicon Valley -, ao emprestar sua vida para o personagem do filme, permiti revelar seu lado simpático e cativante por meio de diálogos inteligentes, sarcásticos e provocadores. Além de uma comédia romântica misturada com drama, "Doentes de amor", aposta na reflexão sobre as diferenças culturais sem deixar de ser leve e divertida.
*Visto no Festival do Rio 2017
CineBlissEK





Ficha técnica:

Doentes de amor (The Big Sick)
Estados Unidos, 2017
Direção: Michael Showalter
Roteiro:  Emily V. Gordon, Kumail Nanjiani
Produção:  Barry Mendel, Judd Apatow
Fotografia: Brian Burgoyne
Elenco:  Kumail Nanjiani, Zoe Kazan, Holly Hunter, Ray Romano

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

"Como nossos pais" chega num momento oportuno para discutir a mulher contemporânea


Em 2015, o cinema brasileiro apresentou ao espectador a emprega doméstica Val (Regina Casé), em "Que horas ela volta?", da diretora Anna Muylaerte. No ano seguinte, foi a vez de Clara (Sonia Braga), em ""Aquarius", de Kleber Mendonça Filho, e, esse ano, o destaque é para a personagem Rosa (Maria Ribeiro), do filme "Como nossos pais" (2016), de Laís Bodanzky (O bicho de sete cabeças; Chega de saudade). A jornada dessas três personagens brasileiras demonstra uma transformação de narrativas cinematográficas nacionais, por meio de um aumento de protagonistas femininas e um novo jeito de contar histórias. Val, Clara e Rosa, retratam os diferentes tipos de mulheres que anseiam serem heroínas de suas próprias jornadas. Seja em construir uma relação afetiva com a filha, em resistir ou em suspirar pela verdade. 

No caso de Rosa, uma mulher com seus trinta e poucos anos, a fase de buscas e conflitos sucede nos minutos iniciais do filme com a revelação bombástica de sua mãe Clarissa (Clarisse Abujamra), sobre a verdadeira identidade de seu pai. A cena da confissão que ocorre após um desastroso almoço familiar, indica o clima tenso na relação entre mãe e filha. Casada com Dado (Paulo Vilhena) e mãe de duas adolescentes, Rosa desenvolve conteúdos para uma empresa de cerâmica de banheiros, contudo, guarda em seu coração o sonho frustrado de ser uma dramaturga.

Sua rotina imersa em acúmulo de papéis - mãe, filha, esposa, trabalhadora e dona de casa-, sucumbe com a revelação de Clarissa. À partir disso, sua trajetória transforma-se em questionar seus laços afetivos e, aceitar que não consegue dar conta de tudo sozinha. Sua jornada por uma nova identidade e pela verdade, tornam-se seu propósito. 

É notório a exploração do roteiro - assinado por Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi - sob o ponto de vista da mulher, perante uma sociedade regida pelos ditames patriarcais com diálogos provocadores sobre os conflitos da mulher contemporânea. Destaca-se também as diversas referências de mulheres no filme, que buscaram transgredir o patriarcalismo tanto no mundo real, ficcional ou bíblico. No primeiro caso, a menção é para Simone de Beauvoir, com a clássica obra "O segundo sexo", de 1949, que abriu espaço para discussões e reivindicações feministas. Na literatura, a ligação é com a peça teatral "Casa de Bonecas", do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, de 1879, em que a protagonista Nora, abandona a família patriarcal. Por último, a citação da escritura referente à Eva - origem de todo pecado na Terra segundo a Bíblia - feita de um modo um tanto quanto sarcástico.

Com uma interpretação arrebatadora de Maria Ribeiro - logrou o Kikito de Melhor Atriz em Gramado -, expondo de forma intensa as diversas camadas de sua personagem, as questões sobre os papéis desempenhados pela mulher contemporânea afloram para fora da sessão de cinema e alavanca reflexões e discussões profundas. O mérito de atuações primorosas também contempla Clarisse Abujamra que faturou o Kikito, como Melhor Atriz Coadjuvante e, esbanja a complexidade de ser uma mãe intelectual de classe média, que procura resistir aos ditames da sociedade capitalista.

Vale destacar os personagens masculinos, cuja representação no longa-metragem expressam uma tentativa de nova imagem do homem. Tanto o pai de Rosa, Homero (Jorge Mautner), com seu jeito sonhador e dependente financeiramente das mulheres, como Pedro (Felipe Rocha) ou, Dado, no papel do marido exercitando na cooperação com a divisão de tarefas dentro de casa.

"Como nossos pais", chega num momento oportuno para incrementar debates sobre os papéis desempenhados tanto pelas mulheres quanto pelos homens na construção de uma sociedade mais igualitária. Além de contemplar uma delicada e expressiva relação de mãe e filha. Sem sombra de dúvidas, o cinema nacional vive um período pujante, com narrativas cinematográficas de alto nível e para todos os gostos. Não deixem de apreciar o Cinema Brasileiro!
CineBliss




Ficha técnica: 

Como nossos pais (Como nossos pais)
Brasil, 2016
Direção: Laís Bodanzky
Roteiro: Laís Bodanzky, Luiz Bolognesi
Produção: Caio Gullane, Rodrigo Castellar
Fotografia: Pedro J. Márquez
Elenco: Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena, Felipe Rocha, Jorge Mautner