quinta-feira, 24 de novembro de 2016

"O plano de Maggie" esforça-se para nutrir as engrenagens da comédia sofisticada


A comédia sofisticada, subgênero tão difundido nos filmes do diretor Woody Allen, é a alavanca para o novo longa da diretor Rebecca Miller (O mundo de Jack e Rose), com  "O plano de Maggie" (2015). Na narrativa amorosa, voltada para as idas de vindas de um relacionamento, a diretora esforça-se para dar ares intelectuais, criativos e bem-humorados à história, escalando dois atores descolados como personagens principais - Greta Gerwig e Ethan Hawke.

A atriz Greta Gerwig, novamente incorpora uma personagem simpática de Nova Iorque - Frances Ha em "Frances Ha" (2012) e Brooke em "Mistress America" (2015) - , através de Maggie, uma mulher independente e amável, que trabalha em uma instituição educacional, onde faz uma ponte estratégica entre possíveis artistas com o mercado. Por ter uma vida financeira estável, diferentemente dos seus relacionamentos anteriores, do qual, confessa não conseguir fazer durar por mais de seis meses, decidi ser mãe solteira contemporânea, através da doação do sêmen de um colega de escola. 

Com uma índole controladora, Maggie, planeja perfeitamente a inseminação artificial. Todavia, como a vida não acontece de acordo com a programação, ela é surpreendida pelo destino, ao conhecer John (Ethan Hawke), antropólogo e escritor, casado com Georgette (Julianne Moore) e pai de dois filhos. Logo, Maggie e John começam a passar bastante tempo juntos, para discutir nuances sobre o livro do qual o último está escrevendo, e quando menos esperam, os dois despertam para a paixão e vão morar juntos.

Ao adentrarem no labirinto da convivência à dois, Maggie observa uma certa falta de interesse por John, juntamente com a percepção de não estar mais apaixonada por ele. Dessa forma, ela cria um plano mirabolante, de pedir ajuda à ex-mulher Georgette, para que ela volte com John.

Num primeiro momento, o roteiro consegue cativar com diálogos inteligentes e sutilmente divertidos, contudo, nota-se uma falta de consistência para dar seguimento à história, uma vez que as soluções para os acasos, são um tanto quanto previsíveis. Notadamente, Julianne Moore, está estonteante como a ex-mulher, louca e egocêntrica.

O cenário do inverno de Nova Iorque, perpassa a frieza dessas relações tão marcadas pelo racional e lógico, do qual, poucas são as cenas de trocas de carinhos, tanto nos casais quanto com seus filhos. À vista disso, o filme tem lá seu mérito em instigar e divertir, bem como seduzir o espectador, com personagens simpáticos e contemporâneos. 
CineBlissEK
*Visto durante a 40ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo




Ficha técnica: 

O plano de Maggie (Maggie's plan)
2015, Estados Unidos
Direção: Rebecca Miller
Roteiro: Karen Rinaldi, Rebecca Miller
Produção: Damon Cardasis, Rachael Horovitz, Rebecca Miller
Fotografia: Sam Levy
Elenco: Greta Gerwig, Ethan Hawke, Julianne Moore, Maya Rudolph, Travis Fimmel, Bill Hader

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

"Much loved" abre espaço para discurtir à exploração do corpo feminino, num local, onde a dominação masculina é suprema


Diretamente do Marrocos, o filme "Much loved" (2015), do diretor Nabil Ayouch (As ruas de Casablanca) estreou na última quinta-feira (10), em circuitos nacionais de cinema. Com uma história centrada no universo da prostituição - na cidade de Marrakech -, o longa apresenta a intimidade de quatro jovens, que dividem a mesma morada e profissão. 

O grupo formado por Noha (Loubna Abidar), Randa (Asmaa Lazrak), Soukaina (Halima Karaouane) e Hlima (Sara Elmhamdi Elalaoui), é liderado pela primeira, que demonstra ter mais experiência com os homens e, também em lidar com qualquer infortúnio. A rotina profissional delas envolve, participar de festas glamorosas realizadas por pessoas poderosas, ou programas privados. Cercada pelo domínio masculino, no qual só opera a lei dos homens, essas profissionais do sexo, são encaradas apenas como objetos sexuais, sem nenhum tipo de direito. 

Na intimidade, as quatro apoiam-se umas nas outras, para defender-se do ambiente perverso, machista e violento, do qual, são submetidas cotidianamente. Nutrem sonhos de um futuro melhor para suas jornadas, como nos casos de: Randa, de ir embora para Espanha encontrar-se com o pai; Soukaina, de morar em outro lugar onde os homens respeitam às mulheres; Noha, em encontrar um marido para protegê-la e ser aceita pela família. No ambiente privado, elas andam pelo apartamento de pijamas infantis, discutem sobre situações banais, dormem juntas, choram ou sorriem, ou seja, acolhem-se como uma família. 

Com uma fotografia vigorosa praticamente todas as imagens carregam ares de provocação e, chocam com o contraste de cenas de luxo e diversão, com a tristeza e misérias das ruas de Marrakech. O ritmo febril da narrativa, expressa o âmago desse universo machista, patriarcal e brutal. Vale ressaltar, a ousadia das atrizes em suas performances, que transparecem em seus olhares, o quão desumano são suas condições. 

O diretor em "Much loved", permite espaço para discutir à exploração do corpo feminino, em um local, do qual, as mulheres não possuem nenhum tipo de direito, onde suas vozes não se fazem ouvir. Encarar as imagens, com certeza, traz uma sensação de desconforto, porém, é algo preciso para uma busca de melhores condições de vida às mulheres em todo mundo, independentemente da profissão. 
CineBlissEK
*Visto durante Festival do Rio 2016



Ficha técnica 

Much loved (Much loved)
2015, Marrocos
Direção: Nabil Ayouch
Roteiro: Nabil Ayouch
Produção: Nabil Ayouch

Fotografia: Virginie Surdej
Elenco: Loubna Abidar, Asmaa Lazrak, Halima Karaouane, Sara Elmhamdi Elalaoui

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

CineBlissEK esteve presente na 40ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo e destaca 3 títulos



O blog CineBlissEK, marcou presença em mais uma edição da Mostra Internacional de Cinema São Paulo, que encerrou-se na última quarta-feira (2). Dentre os 10 longas metragens vistos durante a maratona cinematográfica, destaca-se 3 títulos vindos da Dinamarca, México e França/Chile. 
Confira abaixo a lista com os filmes: 


Quando o dia chegar (Der Kommer en dag)
Direção: Jesper W. Nielsen 
Dinamarca, 2016
Elenco: Lars Mikkelsen, Sofie Grabol, Harald Kaiser Hermann, Albert Rudbeck Lindhardt, Lars Ranthe


Em plena década de 1960, dois jovens irmãos são obrigados a dirigirem-se à um reformatório do governo, uma vez que a mãe encontra-se doente, sem condições de criar os filhos. Nesse local, a dupla logo, sente na pele, a maneira utilizada pelo diretor da instituição para fazer valer suas ordens. Munidos apenas de esperança e sonhos, os irmãos buscam diversas maneiras de escaparem desse ambiente perverso, violento e brutal. Baseado em fatos reais, o filme propõe uma profunda reflexão sobre a crueldade do ser humano perante pessoas indefesas, no caso, crianças e adolescentes e, o quanto isso repercute no futuro destes.


Maquinaria Panamericana (Maquinaria Panamericana)
Direção: Joaquín del Paso
México, 2016
Elenco: Javier Zaragoza, Ramiro Orozco, Irene Ramirez, Edmundo Mosqueira, Delfino López


Nessa divertida e crítica narrativa mexicana, encontra-se a fábrica de construção Maquinaria Panamericana, com seus funcionários desestimulados, imersos no marasmo da rotina. Todavia, com o falecimento do dono da companhia - querido por todos - eles se vêm sem alternativa para o futuro, já que a companhia está falida. Liderados pelo contador, fecham o local, para que ninguém saiba do ocorrido e, com isso, tentam ganhar tempo para organizar as finanças da empresa. Com humor negro preciso, cenários um tanto quanto exagerados, cenas bizarras e uma marcante presença de som, o filme apresenta uma discussão social, sem deixar-se cair nas tentações do clichê, pelo contrário, constrói-se na originalidade e bizarrice. 


Poesia sem fim (Poesia sin fin)
Direção: Alejandro Jodorowsky
França/Chile, 2016
Elenco: Adan Jodorowsky, Pamela Flores, Brontis Jodorowsky, Leandro Taub, Alejandro Jodorowsky, Jeremias Herskovits


Santiago, década de 1940 e 1950, encontra-se o jovem Alejandrito Jodorowsky, em busca do sonho ser um poeta, contrariando o desejo dos pais de torná-lo médico. Para isso, ele divertidamente foge de casa e, encontra abrigo junto de outros futuros artistas. Nesse ambiente criativo, ele desperta para seu dom, depara-se com sua musa excêntrica e conhece diversas pessoas, entre elas, intelectuais dessa geração, como Enrique Lihn, Stella Diaz e Nicanor Parra. A narrativa é construída de uma maneira poética, romântica e exagerada, proporcionando nutrientes para uma imaginação infinita, assim como, um roteiro elegante e preciso no humor.