segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Conhecer a ti mesmo para capturar o serial killer


Acredito não haver ninguém que nunca tenha visto a imagem do personagem Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) utilizando a focinheira no filme O silêncio dos inocentes, do diretor Jonathan Demme de 1991. A trama baseada no livro de Thomas Harris descreve a jornada da estudante do FBI Clarice Starling (Jodie Foster) na caça ao serial killer Buffalo Bill (Ted Levine), para essa tarefa ela conta com a ajuda do nada sedutor ou confiável, Dr. Hannibal Lecter, psiquiatra preso acusado de matar vários de seus pacientes. 
 
O filme começa com Clarice praticando exercícios físicos numa névoa, uma metáfora para indicar sua entrada em um universo obscuro ao qual precisará de sua intuição para lhe guiar. Por a história iniciar justamente nela e não no serial killer ou em Lecter gera um maior suspense conforme esses personagens são introduzidos nas cenas.

A jovem detetive inicia seu chamado a aventura quando é incumbida pelo agente especial da Unidade de Ciência Comportamental do FBI, Jack Crawford (Scott Glenn) a colher o depoimento de um dos mais bem protegidos assassinos dos Estados Unidos, Hannibal Lecter que é acusado de comer vivo seus pacientes. Quando ela desce os degraus de escada do manicômio para chegar até a cela subterrânea do canibal, esta cena representa na linguagem simbólica uma descida para o inconsciente, ou seja, Clarice não apenas irá discutir questões práticas para encontrar o assassino de mulheres, mas também identificar conflitos internos não resolvidos para conhecer a si mesma.

Através dos encontros com Lecter que mais se parecem com uma sessão de terapia, Clarice ganha a confiança do psiquiatra relatando fatos de sua infância e com isso consegue sua ajuda para criar o perfil e desvendar a identidade do serial killer Buffalo Bill. O canibal que no início do filme tem ares do arquétipo da Sombra, com projeção do lado escuro do ser humano, adquiri no decorrer da trama outra função, como mentor, fornecendo informações para a captura do assassino.

A construção dos dois personagens principais traz um estranho e inamistoso relacionamento entre Clarice e Lecter o que vislumbra a semelhança de ambos sentirem-se impotentes, Lecter por estar encarcerado em uma prisão subterrânea e Clarice por estar cercada de homens que a querem dominar. A dupla utiliza do poder de persuasão para escapar dessas armadilhas. 
 
A questão da mulher num ambiente profissional dominado pelo masculino, já é vista no começo do filme quando Clarice entra no elevador com homens apenas e ela como a única mulher, e continua em todo decorrer do filme, seja na cena em que Miggs se masturba quando ela passa por ele na cela ou quando o agente Crawford pede para Starling sair da sala, pois prefere falar a sós com os homens. Esse fator é interessante porque no outro lado da trama há Buffalo Bill - transexual - querendo se transformar de homem para mulher, para essa mudança de sexo ele retira a pele de suas vítimas. Para identificar os crimes como de sua autoria, Buffalo Bill introduz mariposas nas gargantas das mulheres mortas, inseto este que simbolicamente representa transformação.

Nos extras do DVD o diretor Jonathan Demme declara um arrependimento não ter se aprofundado na questão do abuso sexual sofrido por Hannibal Lecter quando criança. O silêncio dos inocentes é aclamado até hoje pela crítica e público por ser mais que um filme de suspense, mas por focar também para os mistérios do inconsciente e não simplesmente na violência propriamente dita.
CineBlissEK



Curiosidades:
  • O papel de Hannibal Lecter foi oferecido ao ator Gene Hackman assim como o de Clarice Starling para Michelle Pfeiffer;
  • Ganhou 5 Oscars: Melhor Filme, Melhor Diretor (Jonathan Demme), Melhor Ator (Anthony Hopkins), Melhor Atriz (Jodie Foster) e Melhor Roteiro Adaptado;
  • Baseado no romance de Thomas Harris

Ficha Técnica: 

O silêncio dos inocentes (The silence of the lambs)
1991, Estados Unidos
Direção: Jonathan Demme
Roteiro: Jonathan Demme,  Ted Tally
Produção: Edward Saxon, Kenneth Utt, Ron Bozman
Fotografia: Tak Fujimoto
Elenco: Anthony Hopkins, Jodie Foster, Scott Glenn, Ted Levine, Anthony Heald

Bibliografia: 

EBERT, Robert. A magia do cinema
VOGLER, Christopher. A jornada do escritor

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Os inusitados despertares para o amor


Em quase todo filme os cinco primeiros minutos de exibição mostra-se várias características do personagem principal em seu mundo comum, em A vida secreta das palavras a diretora Isabel Coixet utiliza desse artifício de uma forma metafórica para retratar a jovem Hanna (Sarah Polley) em uma fábrica regida pela padronização da linha de montagem plastificando tubos de plásticos, e durante a refeição alimentando-se sempre da mesma comida (arroz, frango e maçã) em uma vasilha de plástico.

Tanto o elemento da comida quanto do plástico são metáforas para entender o processo de transformação de Hanna que vê-se sem apetite para a vida, se isolando de todos e apenas como uma máquina trabalhando numa rotina sem abertura para as surpresas da jornada.

Contudo por mais que o ser humano encontre formas para plastificar suas vidas, há sempre um momento do chamado para se aventurar em mundo completamente desconhecido, muitas vezes esse caminhar acaba sendo inconsciente, mas as consequências se torna visível. Para Hanna esse acontecimento novo surge na obrigação em tirar férias após quatro anos de trabalho ininterrupto, ela viaja, mas sem pestanejar decide se candidatar para ser enfermeira de um homem queimado em uma plataforma de petróleo em alto mar.  

O ambiente rotineiro que antes era de uma fábrica fechada com várias pessoas se transforma para um espaço aberto, com alguns homens e as ondas do mar como remédio para limpar o passado de cada tripulante desta plataforma. A água que está associada a fluidez e limpeza se torna o cenário perfeito para pessoas imperfeitas.

O paciente Joseph (Tim Robbins) encontra-se na cama com uma parte do corpo com queimaduras e sem enxergar devido ao incêndio na plataforma. Assim que Hanna se apresenta, este lhe chama de Cora e fala que ela deve ser loira. Várias são as tentativas dele em aproximar-se de Hanna, mas esta resiste a todo momento. Interessante pensar que ambos tenham deficiências seja auditiva da jovem ou visual dele, que não são de nascença, mas sim causadas por fatores da vida.

Como cuidadora de Joseph, a heroína despertar-se para novos sabores em sua alimentação, indicando que há uma transformação, uma abertura para a construção de sentimentos que envolve carinho, confiança, atenção e amor. Tanto Joseph quando Hanna fazem revelações sobre seus passados demonstrando a cumplicidade dos dois. Passado este de Hanna que emociona o paciente assim como o público e explica certas atitudes de autoproteção por parte da jovem, não vou comentar sobre a revelação do segredo pois arruinaria o filme.

Em uma cena ao qual Joseph relata uma história de sua infância conta o segredo de que não sabe nadar, essa revelação muda todo o desfecho do casal no final do filme e se torna para mim como uma das mais bonitas declarações de amor que eu já vi no cinema. Segue a transcrição abaixo e também o link da cena:

Joseph: Venha comigo Hanna?
Hanna: Eu acho que isso não vai ser possível...
Joseph: Porquê não?
Hanna: Porque eu acho que, se formos para algum lugar juntos, tenho medo de que um dia, talvez não hoje, talvez nem mesmo amanhã, mas algum dia, de repente, eu possa começar a chorar tanto que nada vai me fazer parar. As lágrimas encherão o quarto, não conseguirei respirar, vou levá-lo junto e ambos vamos nos afogar...
Joseph: Eu aprendo a nadar Hanna, eu prometo!
Cena final

Impossível não se emocionar com a declaração de amor, mas muito mais que isso em ver a coragem dele em deixar-se ser tocado pelo sentimento do seu coração e lutar por isso. Algo totalmente em desuso nos dias de hoje, como o filme mesmo mostra com a metáfora do plástico, de seres humanos encapados com receios de sentir, provar, viver.

A mensagem de amor não fica apenas no casal, mas também para o planeta através do personagem do oceanógrafo que está na plataforma para contar as ondas, mas se interessa por mariscos, ele diz acreditar que um dia a plataforma poderia ser transformada para a limpeza da água diminuindo os estragos causados pela extração de petróleo e diz para Hanna: "Eu continuo a pensar que algo vai ser feito..." Um comentário de esperança para todos nós, moradores do planeta Terra que ainda tem fé na salvação da espécie através do cuidado e proteção da nossa Mãe-natureza.

A direção e roteiro de Isabel Coixet são bem construídos nesse filme que retrata através de metáforas seres humanos que buscam mecanismos para se proteger e não serem tocados pelo amor. Também aplausos para as interpretações de Tim Robbins e Sarah Polley. Recomendo vários lenços na hora de assistir a trama, pois é impossível não se emocionar.
CineBlissEK




Curiosidades: 
  • A vida secreta das palavras é o segundo filme entre a diretora Isabel Coixet e a atriz Sarah Polley, o anterior foi "Minha vida sem mim" de 2003;

Ficha técnica:

A vida secreta das palavras (La vida secreta de las palabras)
2005, Espanha
Direção: Isabel Coixet
Roteiro: Isabel Coixet
Produção: Esther Gárcia, Pedro Almodóvar
Fotografia: Jean-Claude Larrieu
Elenco: Tim Robbins, Sarah Polley, Javier Cámara, Julie Christie

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Os contos de fadas que marcaram a minha infância



Como muitas crianças nascidas na década de 80 eu fui hipnotizada pelos clássicos desenhos da companhia Walt Disney, cada princesa, príncipe, boneco, sereia fizeram parte da minha infância como se realmente existissem na vida real, a forma como essas histórias se perpetuaram em meu imaginário fora marcante.

As princesas que foram despertas por seus príncipes, o boneco que queria ser de verdade, o peixe à procura de seu filho, a jovem que busca o caminho de volta para casa, contos de fadas que fazem parte do imaginário dos seres humanos e que foram lindamente trazidas as telas de cinema para o desfrute do público.

Mesmo agora adulta quando revejo alguma cena me emociono e sinto a minha criança interior vibrando com as tramas. Em homenagem a essa criança, decidi listar as dez melhores animações da Walt Disney que marcaram a minha trajetória como uma sonhadora dos contos de fadas.


Alice no país das maravilhas (Alice in Wonderland)
Direção: Clyde Geronimi, Hamilton Luske, Wilfred Jackson, 1951



Procurando Nemo (Finding Nemo)
Direção: Andrew Stanton, Lee Unkrich, 2003




A bela adormecida (Sleeping Beauty)
Direção: Clyde Geronimi, 1959




Cinderela (Cinderella)
Direção: Clyde Geronimi, Hamilton Luske, Wilfred Jackson, 1950



A Bela e a Fera (Beauty and the Beast)
Direção: Gary Trousdale, Kirk Wise, 1991



Branca de Neve e os sete anões (Snow White and the Seven Dwarfs)
Direção: David Hand, Larry Moey, Perce Pearce, Walt Disney, Wilfred Jackson,William Cottrell, 1937



Fantasia (Fantasia)
Direção: Bill Roberts, Ford Beebe, James Algar, Samuel Armstrong, 1940



A pequena sereia (The Little Mermaid)
Direção: John Musker, Ron Clements, 1989



O rei leão (The Lion King)
Direção: Robert Minkoff, Roger Allers, 1994

 

Pinóquio (Pinocchio)
Direção: Ben Sharpsteen, Hamilton Luske, 1940

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Darth Vader o vilão mais amado do cinema


"May the Force be with you"

Em meio aos burburinhos sobre as primeiras imagens lançadas hoje do novo filme da saga Star Wars: Episódio VII - O despertar da Força com direção de J.J. Abrams e lançamento previsto para dezembro de 2015, pensei sobre meu primeiro contato com a história intergalática criada pelo diretor George Lucas.

Esse contato foi um pouco tardio em 2006, mas a forma como atingiu meu imaginário foi surpreendente o que me levou a ser como muitos outros, uma fã de todos elementos e personagens que compõem esse grande clássico do cinema. Me lembro como se fosse ontem, quando na Universidade minha grande amiga Patrícia soube que eu nunca havia assistido Star Wars, naquela época ela me fez prometer que assistiria aos seis episódios de uma só vez, mas teria que vê-los de acordo com o lançamento, ou seja, IV, V, VI, I, II, III. Passei um feriado torcendo por Luke Skywalker (Mark Hamill), princesa Leia (Carrie Fischer), Hans Solo (Harrison Ford), Chewbacca (Peter Mayhew), R2D2, CP3O, Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness/Ewan McGregor) e Yoda, contudo ao terminar de assistir percebi uma simpatia pelo grande vilão Darth Vader, acredito que a maioria dos admiradores dessa saga também sentiram e sentem até hoje, pois ele continua sendo adorado por uma legião de fãs em todo mundo.

Por acaso do destino esses dias revi os filmes novamente em um canal pago que não me lembro qual, a forma de interpretar cada personagem foi bem diferente da primeira vez, o motivo foi ter agora o conhecimento da jornada do herói de Joseph Campbell e dos arquétipos de Carl G. Jung utilizados no filme, o que para muitos são elementos cruciais para o sucesso cinematográfico além claro dos efeitos especiais.

A jornada do herói aos olhos do jovem Luke Skywalker traz todos os estágios descritos por Campbell: mundo comum, o chamado a aventura, o encontro com o mentor Obi-Wan Kenobi e aliados como Hans Solo, a travessia do primeiro linear, aproximação da caverna oculta, provação, recompensa, caminho de volta, ressurreição e o retorno com o elixir. Não foi por acaso que George Lucas trabalhou com Joseph Campbell, um especialista em mitos básicos da humanidade, para elaborar um roteiro que deve-se às histórias mais antigas do universo. 

Mas como toda história com seu herói não pode faltar um vilão capaz de confrontar o personagem salvador para que esse venha se fortalecer em sua jornada, no caso de Star Wars o arquétipo da Sombra foi tão bem construído que se tornou em um dos vilões mais adorados do cinema, Lord Darth Vader. Em qualquer história a função do arquétipo da Sombra é desafiar o herói para que ele venha a ter um oponente à altura em sua luta, para o escritor Christopher Vogler: "as Sombras criam conflitos e trazem à tona o que o herói tem de melhor, ao colocá-lo numa situação que ameaça sua vida".

A criação desse anti-herói já começa através de sua vestimenta totalmente negra, sugerindo aspectos negativos do herói não trabalhados, ou seja, o lado negro da Força que Luke reluta em não querer participar mesmo depois sabendo que seu pai é na verdade o vilão, Darth Vader. Para Joseph Campbell Darth Vader representa: "... quando a consciência assume o controle o que surge é esse Darth Vader, o homem que passou para o lado intelectual. Ele não está pensando nem vivendo  em termos humanos, está vivendo em termos de um sistema. E é essa ameaça à nossa vida que todos nós encaramos. Todos nós agimos na nossa sociedade em relação a um sistema. Será que o sistema vai devorá-lo e tirar de você sua natureza humana ou você vai conseguir usar o sistema para realizar objetivos humanos"?

Esses objetivos humanos é representado por Luke Skywalker quando decidi não fazer parte do lado negro da Força, mas sim lutar contra e tentar buscar a bondade em seu pai, tanto que quando Darth Vader é derrotado e prestes a morrer, as sementes da bondade se despertam ao ponto de procurar o perdão e a reconciliação com seu filho. O drama de George Lucas com seus seis filmes é todo a respeito da ascensão, queda e redenção de Anakin Skywalker/ Darth Vader.

Star Wars é um mito no cinema porque utilizou de uma linguagem comum da cultura pop, com metáforas e símbolos para exprimir como os seres humanos se sentem em relação ao bem e ao mal, à tecnologia e a fé.

Se existe ainda alguém que não tenha visto a saga intergalática, por favor, vá logo assistir antes da estreia do novo episódio e se tornar mais um fã desse clássico do cinema que até hoje conquista o público, seja pelos efeitos especiais, pelo romance de Hans Solo e a princesa Leia ou simplesmente pela autêntica jornada do herói. 
CineBlissEK


Confira o teaser do novo Star Wars: Episódio VII - O despertar da Força:



Para aqueles que se esqueceram um pouco sobre a saga, segue uma síntese bem legal do filme: 



Uma das cenas mais marcantes não só do filme, mas também do cinema, quando Anakin Skywalker coloca a máscara de Darth Vader e dá a primeira respiração, para mim é de arrepiar. Confira:



A utilização do personagem Darth Vader no mercado publicitário, uma demonstração de como ele se tornou o anti-herói mais pop da galáxia:


Ficha Técnica:

Star Wars: Episódio IV - Uma nova esperança (1977)
Direção: George Lucas

Star Wars: Episódio V - O império contra-ataca (1980)
Direção: Irvin Kershner

Star Wars: Episódio IV - O retorno do Jedi (1983)
Direção: Richard Marquand

Star Wars: Episódio I - A ameaça fantasma (1999)
Direção: George Lucas

Star Wars: Episódio II - O ataque dos clones (2002)
Direção: George Lucas

Star Wars: Episódio III - A vingança dos Sith (2005)
Direção:  George Lucas

Star Wars: Episódio VII - O despertar da Força (2015)
Direção: J.J. Abrams 

Bibliografia: 

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces
CAMPBELL, Joseph. O poder do mito
EBERT, Robert. A magia do cinema
VOGLER, Christopher. A jornada do escritor

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Quando a vida traz questões impossíveis de controlar é a proposta de "Depois do casamento"


"Não podemos controlar tudo na vida" frase do personagem Jorgen em Depois do casamento.

O dinamarquês Jacob (Mads Mikkelsen) faz trabalho voluntário na Índia, em um orfanato, ele é tão envolvido com a ajuda humanitária que tem um carinho especial por um dos meninos Pramod. Contudo, seu projeto está com os dias contados por falta de dinheiro. Ao ser requisitado pessoalmente por um milionário Jorgen (Rolf Lassgard), à voltar para Copenhague, para uma possível ajuda financeira na creche, Jacob reluta mas decide fazer a viagem, ou seja, aceita seu chamado mesmo sem entender o motivo desse encontro.

Em Copenhague ao se reunir com Jorgen, Jacob sente um desinteresse dele pelo projeto voluntário, mas ao mesmo tempo é convidado pelo empresário a comparecer ao casamento de sua filha Anna (Stine Fischer Christensen). Ao chegar à festa Jacob se depara com sua ex-namorada Helene (Sidse Babett Knidsen), e também com uma revelação que mudará todo o destino de sua vida.

O nome Jacob que significa "aquele que vence" é surpreendido quando descobre que Anna na verdade é sua filha e não de Jorgen. Ele imerso em suas emoções paternas decide tirar satisfação com Helene para saber os motivos de nunca ter tido conhecimento dessa paternidade e principalmente porque Jorgen quer ajudar o orfanato na Índia sabendo que isso não lhe trará nenhum benefício.

Para o destino de Jacob não só a descoberta de uma filha, mas outras revelações farão com que sua existência se transforme, ao ponto de ser peça fundamental da tentativa de Jorgen de controlar o rumo da vida de sua família, mas que muitas vezes não é possível, como ele mesmo diz à sua esposa "não podemos controlar tudo na vida".

Um drama familiar que envolve várias formas de tentar controlar situações que saem do controle humano, prerrogativas da vida que são expostas para o público de uma maneira intensa ao focar a câmera nos olhos, bocas e na pele. Como os personagens reagem a cada revelação, a cada descoberta de erros do passado, são percebidos na maneira como olham um para o outro e a câmera para filmar esses olhares.

Porém nem tudo é o que parece ser, a intenção de construir o personagem de Jorgen como maniqueísta voltado para o capitalismo logo se desfaz em algo mais profundo e humano, explicando os motivos de tentar estar em domínio de tudo e até mesmo dos vários copos de bebida alcoólica.

Não são meros personagens, mas seres humanos com situações dramáticas parecidas com qualquer outra pessoa, aí vem a identificação que o filme proporciona ao público ao tratar de questões frágeis, profundas e complexas.

A diretora Susanne Bier que é herdeira do Dogma 95 (proposta de realização de filmes com base na economia de meios, como câmera na mão, iluminação natural, etc) traz no seu drama elementos parecidos com Festa de Família de Thomas Vinterberg como a câmera inquieta de Morten Soborg que retrata documentalmente a vida das crianças pobres na Índia, assim como o contraste entre os dois países, a fria e rica Dinamarca com uma miserável e calorosa Índia.

Para os amantes de um melodrama familiar, Depois do casamento traz todos os elementos possíveis para uma boa choradeira, mas por focar em personagens tão profundos e complexos o filme traça um caminho contrário ao clichê melodramático.
CineBlissEK




Curiosidades:
  • Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007

Ficha Técnica:

Depois do casamento (Efter Brylluppet)
2006, Dinamarca/Suécia
Direção: Susanne Bier
Roteiro: Anders Thomas Jensen, Susanne Bier
Produção: Sisse Graum Olsen
Fotografia: Morten Soborg, Ole Kragh-Jacobsen, Otto Stenor, Stine Hein
Elenco: Mads Mikkelsen, Rolf Lassgard, Stine Fischer Christensen, Ida Dwinger, Sidse Babett Knidsen

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Em "As pontes de Madison" o amor demanda por escolhas delicadas


 "O amor é um nó feito de duas liberdades entrelaçadas
  Amor é escolha
  Amor é liberdade de escolha
  Escolha da liberdade
  Amor é a aposta deliberada na liberdade. Não só a minha, mas a do ser amado".
                                                                                                    (Octavio Paz)

O amor entre um casal envolve escolhas como descritas acima pelo autor Octavio Paz, às vezes a escolha de duas liberdades é se unirem em um nó, mas há também a liberdade de cada um optar pelo caminho de se estar só ou com outra pessoa. Eis o grande mistério da liberdade de escolha do amor que acarreta a responsabilidade de decidir, não há como ficar na "terceira margem do rio", ou seja indeciso, cada um tem que eleger o caminho a seguir e ser responsável pela decisão.

No filme "As pontes de Madison" (1995) o diretor Clint Eastwood trabalha justamente o amor e a liberdade de escolha dos apaixonados. No verão de 1965 no estado de Iowa, Estados Unidos, a dona de casa Francesca (Meryl Streep) ao se despedir de seu marido e filhos que partem para uma viagem, nem imagina que os quatro dias a sós serão os mais importantes de sua vida. Ao estar sozinha em sua fazenda se vê surpreendida com a chegada de um homem perguntando pela direção da ponte Rosemary, ao explicar ela decidi ir junto para ele não se perder.

Esse estranho homem chamado Robert (Clint Eastwood) é um fotógrafo da revista National Geographic que viaja pelo mundo tirando fotos de diversas culturas, seu trabalho em Iowa é fotografar a ponte Rosemary. Após Francesca levá-lo até o local, esta resolve convidá-lo para jantar em sua casa. Nesse jantar cada um fala sobre suas vidas, ela uma imigrante italiana mãe de dois filhos presa na instituição casamento, se encanta ao ouvi-lo descrever os lugares visitados. Ele um divorciado e viajante diz precisar de todas as pessoas, mas ninguém em particular, demonstrando seu desapego a qualquer pessoa ou convenção social.

Num primeiro momento é nítido a atração que Robert exerce sobre Francesca ao ponto de culminar na entrega dos dois a paixão que toma conta do corpo e mente de ambos. Esse caso amoroso com data para terminar faz com que tanto ela quanto ele se entreguem totalmente ao amor sem medo de qualquer consequência, são conduzidos pelo coração a simplesmente viverem aquele presente.

O despertar para o amor traz a transformação em Francesca, muda suas vestimentas de vestidos para calça jeans, seus cabelos que no início apareciam presos vê se depois soltos para voarem com o vento. Através da sensibilidade e do amor de Robert, ela se vê livre de qualquer amarra da sociedade, assim como ele nos braços de Francesca encontra um pouso seguro para relaxar de sua vida sem morada fixa.

A ponte que serve como isca para a união desse casal representa simbolicamente ligar o que está separado, a junção de uma margem a outra de um rio. Unir essas duas margens, passar nesta ponte é estar pronta para viver o amor, para se entregar ao desconhecido da paixão. 

Mas como qualquer coisa na vida, o amor também exige decisões e cada um tem a liberdade de fazer a sua, Robert pede para Francesca seguir com ele, abandonar a família. Mas ela até faz suas malas para caminhar junto ao amado, contudo opta por seus filhos e marido, mesmo sabendo que não viverá seu grande amor, escolhe o papel que fora lhe dado. Quantas mulheres principalmente na década de 60 também não tiveram que fazer escolhas semelhantes?

Robert ao se despedir de Francesca diz: "...é por isso que estou neste planeta, neste momento Francesca. Não é para viajar nem para tirar fotografias, mas para te amar. Agora sei. Quando penso em porquê fotografo, a única razão que me vem à mente é que passei minha vida tentando chegar aqui. Tenho a impressão de que tudo que fiz até hoje foi para chegar até você". 

O filme que inicia-se com os filhos de Francesca lendo o testamento da mãe falecida e seu pedido para ter suas cinzas jogadas na ponte Rosemary, se solidarizam com sua vontade após lerem o diário escrito por Francesca relatando seu caso amoroso com Robert e sua decisão de escolher a família. Essa leitura também os ajudam a questionarem seus próprios casamentos.

O romance tem seus ingredientes "água com açúcar" para emocionar o público, mas mesmo assim conquista o telespectador pela belíssima fotografia e claro pela ótima interpretação da atriz Meryl Streep que foi indicada ao Oscar por esse personagem.
CineBlissEK

                                           


Curiosidades:

  • Sydney Pollock diretor de "Entre dois amores" de 1985 era indicado para direção deste filme e Robert Redford como protagonista 

Ficha Técnica:

As pontes de Madison (The bridges of Madison County)
1995, Estados Unidos
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Richard LaGravaneve
Produção: Clint Eastwood, Katherine Kennedy
Fotografia: Jack N. Green
Elenco: Clint Eastwood, Meryl Streep, Annie Corley, 

Bibliografia:

PAZ, Octavio. A dupla chama - Amor e Erotismo

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

As comédias românticas favoritas do blog CineBlissEK


Pode parecer óbvio mas nesses mais de 100 anos de cinema o gênero que continua sendo um grande sucesso são as comédias românticas, entra ano sai ano e vê-se novos meninos que encontram suas meninas nas telas de cinema, a mesma história com roupagens diferentes, mas que emociona a todos.

O público torce com as idas e vindas da dupla e aplaudem o final feliz (happy end), mesmo sabendo como será o término do filme, as pessoas lotam as salas de cinema para vibrar por mais um casal construído por Hollywood. O que me chama atenção é o motivo pelo qual nós continuamos a assistir as comédias românticas sabendo que o menino irá conquistar o coração da menina no final. Muitas teorias vieram em minha cabeça e acredito que talvez por nos identificarmos e termos esperança no amor desfrutamos 120 minutos de encontros e desencontros de um casal apaixonado.

Por acreditar no amor resolvi selecionar as minhas 10 comédias românticas favoritas, até hoje continuo a me emocionar com cada uma delas e o quanto são significativas para a minha jornada amorosa.

Uma linda mulher (Pretty woman)
Direção: Garry Marshall, 1990, Estados Unidos

O conto de fadas da Cinderela que se torna realidade para uma garota de programa Vivian (Julia Roberts) ao conhecer o bilionário carente Edward (Richard Gere). Ele a contrata apenas para uma noite, mas decide prolongar por uma semana. O que era apenas um contrato de serviço para os dois, acaba tornando-se em algo inesperado quando descobrem que estão perdidamente apaixonados.
Um grande sucesso do cinema que alavancou a carreira da atriz Julia Roberts que será eternamente lembrada como uma linda mulher.



Sintonia de amor (Sleepless in Seattle)
Direção: Nora Ephron, 1993, Estados Unidos

O filho pequeno do viúvo Sam (Tom Hanks) liga para um programa de rádio para relatar a vida solitário de seu pai. A jornalista Annie (Meg Ryan) fica comovida e obcecada ao ouvir a história e decide entrar em contato com a família. Com muitos desencontros os dois acabam tendo seus caminhos cruzados.



Como perder um homem em 10 dias (How to lose a guy in 10 days)
Direção: Donald Petriee, 2003, Estados Unidos

O publicitário Benjamin Berry (Matthew McConaughey) para ganhar um contrato de diamantes aposta com seu chefe que é capaz de conquistar uma mulher e fazê-la se apaixonar por ele, contudo a selecionada é a jornalista Andie Anderson (Katie Hudson) que está escrevendo um artigo sobre como perder um homem em dez dias, cometendo certos erros que a maioria das mulheres fazem ao estar em um relacionamento. Objetivos completamente diferentes mas que cria um ambiente para os dois se apaixonarem.




Só você (Only you)
Direção: Norman Jewison, 1994, Estados Unidos

Quando garota Faith Corvatch (Marisa Tomei) teve a revelação de que sua alma gêmea se chama Damon Bradley, prestes a se casar ela recebe a ligação do amigo de seu noivo dizendo ser Damon Bradley avisando sua viagem para Veneza. Sem pestanejar ela embarca para Itália à procura desse amor. Em sua busca ela encontra Peter Wright (Robert Downey Jr.) um vendedor de sapatos que ao se apaixonar imediatamente por Faith finge ser Damon Bradley.



Enquanto você dormia (While you were sleeping)
Direção: Jon Turteltaub, 1995, Estados Unidos

A solitária cobradora de metrô Lucy (Sandra Bullock) sonha com seu príncipe encantado, um homem lindo, charmoso que passa por ela todos os dias sem notá-la. Ao sofrer um assalto e cair nos trilhos Peter (Peter Gallagher) é salvo por Lucy que acaba sendo confundida como sua noiva no hospital. Ele fica em coma e ela se torna membro de sua família. Contudo seus olhos começam a se voltar para o irmão Jack (Bill Pullman) ao qual passa a maior parte do tempo enquanto Peter dorme.



Se meu apartamento falasse (The apartment)
Direção: Bily Wilder, 1960, Estados Unidos

C.C. Baxter (Jack Lemmon) trabalha em um escritório em que a maioria dos homens emprestam seu apartamento para ir se encontrarem com suas amantes. Por esse favorzinho ele ganha sua promoção, mas ao mesmo tempo se apaixona pela amante de seu chefe, a belíssima Fran Kubelik (Shirley MacLaine). Após ela tentar suicido em seu apartamento, ele resolve cuidar dela de uma forma hilária e também apaixonante.



10 coisas que odeio em você (10 things I hate about you)
Direção: Gill Junger, 1999, Estados Unidos

Para ter a permissão de seu pai para namorar a jovem Bianca (Larissa Oleynik) precisa que sua irmã mais velha Kat (Julia Stiles) de um temperamento difícil comece a namorar, para isso acontecer Bianca conta com a ajuda de um de seus pretendentes Cameron (Joseph Gordon-Levitt). Ele paga para o estranho Patrick (Heather Ledger) conquistar o coração da Kat.  




Sabrina (Sabrina)
Direção: Billy Wilder, 1954, Estados Unidos

Sabrina (Audrey Hepburn) filha do chofer de uma família bilionária costuma observar as festas glamourosas dos Larrabee em cima de uma árvore, seu amor platônico por David (Willian Holden) a faz sonhar poder um dia ser sua namorada. A realização desse sonho se torna realidade quando ela retorna de uma viagem de Paris completamente deslumbrante. David com casamento marcado começa a se interessar por Sabrina, contudo seu irmão Linus (Humphrey Bogart) para impedir o fim do noivado de seu irmão, decide conquistar Sabrina. Mas o seu plano ganha outro caminho quando percebe que também está apaixonado por Sabrina.



Sem reservas (No reservations)
Direção: Scott Hicks, 2007, Estados Unidos

A chef de cozinha Kate (Catherine Zeta Jones) tem sua vida completamente mudada quando se vê obrigada a cuidar de sua sobrinha Zoe (Abigail Breslin) após a morte inesperada de sua irmã. Por ter um temperamento difícil Kate se irrita com a chegada de um novo sub-chefe Nick (Aaron Eckhart) por temer a perda do emprego. Porém com a ajuda de Nick, ela consegue uma aproximação com sua sobrinha. 



(500) dias com ela (500 days of Summer)
Direção: Marc Webb, 2009, Estados Unidos

Narrado de uma forma não linear, o filme conta a história do jovem Tom (Joseph Gordon-Levitt) ao se apaixonar por sua colega de trabalho Summer (Zooey Deschanel) que tem ideias um pouco diferentes da sua em relação ao amor. A história mostra desde o começo do relacionamento com os suspiros da paixão até o rompimento do casal e a dificuldade de lidar com a separação.


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A busca por si próprio é o nutriente para a jornada de "Comer, rezar e amar"


"Todo mundo tem na sua jornada, um momento na vida quando precisa redefinir quem você é e o que está buscando", declara Julia Roberts sobre o filme "Comer rezar amar"

O indivíduo, em sua jornada busca por condições estabelecidas pela sociedade e acredita que quando atinge o grau invejado por muitos chegou ao ápice, contudo para alguns a sensação de vazio se apodera da mente e do corpo gerando perguntas sobre o caminho percorrido. Nesse momento o indivíduo volta sua atenção para sua alma e começa a buscar não lugares ou posições sociais, mas a si próprio. Essa forma de tentar ver a vida é considerada para Carl G. Jung fundador da psicologia analítica, como a maior aventura do ser humano, buscar a si mesmo.

Em "Comer Rezar Amar" a personagem Liz Gilbert (Julia Roberts) encontra-se num casamento perfeito, bem sucedida profissionalmente como jornalista, a casa dos sonhos, mas não está feliz, algo falta em sua vida. Como alternativa para mudar essa realidade pede o divórcio para o marido Steven (Billy Crudup) para em seguida estar em outro relacionamento com o ator David (James Franco), porém o vazio de sua alma não é satisfeito pelos relacionamentos. Dessa forma ela decide viajar para três países Itália, Índia e Bali para buscar algo que nem ela mesmo sabe o quê é, mas simplesmente se deixa levar para esses lugares.

Na Itália é conquistada pelas delícias culinárias e a forma como a cultura local aprecia os momentos de lazer, sua passagem por Roma é regada a belas paisagens, pratos da comida italiana apetitosos e um alto grau de clichês. Já na Índia sua busca espiritual confronta-se com bilhares de pensamentos borbulhando em sua mente sobre seus relacionamentos, hospeda-se em um ashram hindu para praticar meditação e conta com a ajuda do americano Richard (Richard Jenkins) para conseguir esvaziar sua cabeça de tantos pensamentos. Finalmente em Bali entra em sintonia consigo própria encontra o equilíbrio guiada pelo guru Ketut (Hadi Subiyanto) e consequentemente se depara com um novo amor ao lado do brasileiro Felipe (Javier Barbem) que arranha um português misturado com espanhol. A parte final do filme é ao som de várias músicas brasileiras o que não deixa de transparecer os estereótipos criados do Brasil no exterior.

O filme baseado no best-seller autobiográfico da jornalista Elizabeth Gilbert traz paisagens de tirar o fôlego e só, a narração mais se parece com um programa de televisão voltada para turismo misturado com autoajuda. Faltou uma maior profundidade de um tema tão complexo que é a transformação pela qual a personagem de Liz passa nos 140 minutos de filme, ela sai do aceitável pela sociedade, de sua zona de conforto para confrontar consigo própria.

A heroína como qualquer outra pessoa viu sua vida regada a condições preestabelecidas pela sociedade, mas que para ela não servia como sua jornada, ela precisava de mais, tinha fome de mais. Todo ser humano em algum momento de sua vida sente esse apetite, essa ânsia de ir em busca de si mesmo, contudo poucos são os que se aventuram nessa jornada, pois o caminho além de ser criticado por amigos e familiares é completamente incerto, mas como disse Joseph Campbell o que conta é a beleza da jornada.
CineBlissEK



Curiosidades:

  • O filme é baseado no livro homônimo da jornalista Elizabeth Gilbert que vendeu mais de 6,2 milhões de cópias e foi traduzido para 40 idiomas
  • Durante as filmagens na Índia a atriz Julia Roberts encantou-se com o hinduísmo tornando-se uma praticante

Ficha Técnica:

Comer Rezar Amar (Eat pray love)
2010, Estados Unidos
Direção: Ryan Murphy
Roteiro: Jennifer Salt, Ryan Murphy
Produção: Brad Pitt, Dede Gardner
Fotografia: Robert Richardson
Elenco:  Julia Roberts, Javier Bardem, James Franco, Richard Jenkins, Billy Crudup, Viola Davis

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Comemoração ao meu aniversário com Pina


"Dance, dance otherwise we are lost" (Pina Bausch)

Pensei qual filme poderia representar a celebração de mais um ano de vida para mim, milhares de histórias cinematográficas vieram em minha cabeça, selecionei algumas contudo o que mais me tocou foi o visto recentemente "Pina" do Wim Wenders ao qual o diretor alemão faz um documentário/musical para Pina Bausch, uma das maiores coreógrafas que o mundo já conheceu.

O documentário lançado em  2011 no Festival de Berlim traz o conjunto Tanztheater Wuppertal com demonstrações de tirar o fôlego da arte da dança com imagens e coreografias impossíveis de não se emocionar. Alguns dançarinos relatam como era trabalhar com Pina e suas formas de buscar o melhor de cada um deles, outros preferem apenas ficar em silêncio e se expressarem com os movimentos. Cada um desses artistas mostram através da dança elementos como amor, dor, sofrimento, felicidade, perda, leveza, entre outros que foram característicos nos trabalhos de Pina.

Como muitos dos dançarinos descrevem, Pina estava sempre em busca do que os moviam, da profundidade de seus interiores, do que cada um carregava em suas almas e através desse sentimento representar com movimentos. 

No início do documentário à apresentação das quatro estações da natureza (primavera, verão, outono e inverno) com belíssimas coreografias, nada mais simbólico pois é justamente como nossas vidas são regidas quando aceitamos que para tudo há momento de recolhimento como no inverno ou de colher como na primavera, vemos a vida como ciclos, de vida-morte-vida.

Há dois momentos interessantes para qualquer brasileiro, o primeiro é a dança de um bailarino ao som de Caetano Veloso com "O Leaõzinho" e da dançarina brasileira Regina Advento que faz a homenagem a Pina falando em português e com movimentos de leveza.

O documentário além de ser imagem em movimento da dança também é uma celebração da vida, da experiência de se estar vivo, seja na dor ou seja no prazer.
CineBlissEK




Selecionei algumas cenas que para mim são lindas:






Curiosidades:

  • O documentário foi baseado em três trabalhos de Pina Bausch: Café Muller, Le Sacre du printemps e Vollmond
  • Pina Bausch morreu em 2009 e trabalhou por 35 anos na cidade de Wuppertal
  • Indicado ao Oscar de documentário em 2012

Ficha Técnica:

Pina (Pina)
2011,  Alemanha
Direção: Wim Wenders
Roteiro: Wim Wenders
Produção: Erwin M. Schmidt, Gian-Piero Ringel, Wim Wenders
Fotografia:  Hélèna Louvart

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Billy Elliot no "caminho da mão esquerda"



O estudioso norte-americano de mitologia Joseph Campbell formulou que na vida há dois caminhos principais: o "caminho da mão direita" que é prudente e prático, mas nas palavras de Campbell "você pode seguir esse caminho, subir pela escada do sucesso e descobrir que essa escada está apoiada na parede errada". Já o outro caminho descrito pelo pesquisador é o "caminho da mão esquerda", caracterizado como o mais arriscado "... ele é o caminho em que a pessoa, na frase famosa de Campbell, busca sua própria felicidade, o seu entusiasmo, o seu êxtase. Embora a cultura talvez não compreenda essa escolha e não haja nenhuma garantia a respeito da parede à qual este caminho irá conduzir, a escolha do caminho da mão esquerda vale a pena porque a própria jornada é sua recompensa". (O despertar do herói interior)

Em Billy Elliot de 2000 o primeiro longa metragem do diretor Stephen Daldry é nítido esses dois caminhos descritos por Campbell. Billy (Jamie Bell) de 11 anos de idade é incentivado por seu pai a praticar boxe e talvez se tornar um minerador como todos os homens da família, um caminho prático e já percorrido pelos membros familiares. Porém o garoto recebe seu chamado através da dança quando a Sra. Wilkinson (Julie Walters) instrutora de balé começa a dar aulas no mesmo espaço em que ele pratica boxe.

Aceitar o chamado de pendurar as luvas de boxe para calçar as sapatilhas significa para Billy ir contra toda família dominada pelo masculino e também sua comunidade que vê o ato da dança praticada por homem com preconceito. Nesse espaço masculinizado com predominância da força física e violência há em Billy a sensibilidade de querer buscar o caminho da mão esquerda, mesmo sem saber qual as consequências dessa opção. Em seu primeiro contato com a dança, enquanto pratica boxe ele ouve a professora dizer "mão esquerda na barra", o que faz ele bater no saco de areia de uma forma coreografada, como se abrisse sua alma para o despertar de sua vocação.

A dura realidade da cidade de Billy, norte da Inglaterra, que se encontra em greve dificulta ainda mais a realização do seu sonho, pois tanto seu pai quanto seu irmão são os líderes da paralisação dos mineiros. Em uma belíssima cena mostra Billy dançando com uma leveza e o contraponto da greve com sua dureza.

Quando Billy junto com a professora vão se matricular para o teste que pode permitir a entrada do garoto numa escola de balé, eles atravessam uma ponte ao som da ópera "Lago do Cisne" do Tchaikovsky, um atravessar do linear, como caracterizado por Campbell quando o herói aceita seu chamado, saí do seu mundo comum para o desconhecido, tendo a ponte simbolizando esse movimento.

A jornada de Billy através da dança além de ser um talento é como trazer a sensibilidade, a leveza, o feminino para sua vida, elementos estes que não são presentes nas figuras masculinas de sua família e no trabalho que estes exercem.

No filme a cor azul é predominante, talvez como uma representação da cor do mar com sua grandeza e infinitas possibilidades de ir e vir, tanto que uma cena Billy sobe a colina de asfalto dançando com o mar e um barco como pano de fundo. Ele machucado na perna por não poder seguir seu chamado dança na dureza do asfalto com um fundo representando a liberdade. Há também a questão das grades, elemento utilizado em vários momentos do filme, seja nas aulas de dança ou no ônibus que carrega os trabalhadores da mina, como se fosse o sistema aprisionando a jornada de Billy.

O riso, o apoio a Billy, as lágrimas são fatores que cada pessoa carrega ao assistir Billy Elliot, pois é impossível não se emocionar em algumas cenas, em especial a que o pai indo contra suas convicções decide voltar ao trabalho para poder dar a oportunidade de Billy ir a Londres fazer o teste.

Nessa jornada cinematográfica é evidente os obstáculos, as barreiras, que cada herói precisa enfrentar para seguir o caminho da mão esquerda sem saber qual será o resultado, mas mesmo assim acreditar e ir em frente, no caso de Billy, se resulta num final emocionante e de sucesso. Para esse final o diretor gravou as cenas no próprio teatro londrino durante as apresentações do Lago do Cisne de Matthew Bourne com o ator/bailarino Adam Cooper.
CineBlissEK



Curiosidades:
  • Exibido no Festival de Cannes de 2000 com o título Dancer 
  • Ganhador de 3 prêmios BAFTA: Melhor Filme Britânico; Melhor Ator (Jamie Bell); Melhor Atriz Coadjuvante (Julie Walters)
  • Indicado a 3 Oscars: Melhor Diretor; Melhor Atriz Coadjuvante (Julie Walters); Melhor Roteiro Original 

Ficha Técnica:

Billy Elliot (Billy Elliot)
2000, Reino Unido
Direção: Stephen Daldry
Roteiro: Lee Hall
Produção: Greg Brenman, Jon Finn
Fotografia: Brian Tufano
Elenco: Gary Lewis, Jamie Bell, Jean Heywood, Jamie Draven, Julie Walters

Bibliografia:

PEARSON, Carol S. O despertar do herói interior.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Confira algumas dicas para 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que começa hoje



Começa hoje a 38ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que acontece até o dia 29 de outubro. Serão ao todo 331 títulos espalhados por 35 salas da capital. O filme de abertura "Relatos Selvagens" do diretor Damián Szifron com produção do cineasta Pedro Almodóvar será exibido hoje no auditório do Ibirapuera para convidados.

O homenageado esse ano é o diretor espanhol Pedro Almodóvar que assina o pôster da 38ª Mostra Internacional mas não estará presente por ter passado recentemente por uma cirurgia nas costas e está impedido de fazer longas viagens de avião. Ao todo 15 dos 20 filmes que dirigiu serão apresentados nas duas semanas de festival.

A Mostra também traz uma homenagem aos 100 anos do personagem Carlitos de Charles Chaplin com uma sessão gratuita ao ar livre no Parque do Ibirapuera, no dia 1 de novembro com o último filme mudo "O circo" de 1928. A versão restaurada terá a trilha apresentada pela Orquestra Experimental de Repertório da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.
  
Para mais informações acesse: 38.mostra.org

Confira algumas dicas de filmes que serão exibidos durante o festival:

Relatos selvagens (Relatos salvajes)
Direção: Damián Szifron, 2014, Argentina/Espanha



10.000 noites em lugar nenhum (10.000 noches en ninguna parte)
Direção: Ramón Salazar, 2014, Espanha




A história da eternidade 
Direção: Camilo Cavalcanti, 2014, Brasil



Entre Mundos (Zwischen Welten)
Direção: Feo Aladag, 2014, Alemanha



Mais perto da lua (Closer to the moon)
Direção: Nae Caranfil, 2013, Romênia, EUA, Itália, Polônia



Pare ou eu sigo em frente (Arrête ou je continue)
Direção: Sophie Fillières, 2014, França



O círculo (Der Kreis)
Direção: Stefan Haupt, 2014, Suíça



O jantar (Het diner)
Direção: Menno Meyjes, 2013, Holanda



segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Considerações sobre o Festival do Rio 2014

O Festival do Rio 2014 foi a primeira vez que participei de um festival de cinema com oportunidade de assistir vários filmes, uma maratona cinematográfica, foram filmes de diferentes nacionalidades vistos durante uma semana. Procurei ir às sessões de filmes sem ler as sinopses de nenhum deles, deixei ser guiada pela intuição e ser surpreendida pelas obras. Foi uma sensação maravilhosa estar em contato com esse universo que me desperta uma grande paixão.

Dentre os filmes vistos alguns me fascinaram ao ponto de ficar refletindo sobre eles durante horas, dessa forma fiz a seleção de alguns filmes que marcaram para mim o Festival do Rio.

Na cadencia do amor (Lilting)
Direção: Hong Khaou, 2013, Reino Unido
Elenco: Ben Whishaw, Cheng Pei Pei, Peter Bowles, Andrew Leung

A beleza do amor está no fato de refletir em todas as pessoas de diferentes formas, seja em um relacionamento amoroso, na amizade ou com familiares. No filme "Na cadencia do amor" o diretor Hong Khaou retrata a forma de amar  entre dois tipos de relações: mãe/filho, e um casal homossexual.

Após a morte inesperada do jovem Kai, seu namorado inglês Richard busca uma  aproximação com sua sogra a cambojana Junn que mora em uma casa de repouso em Londres. Junn em seu processo de imigração não aprendeu a língua inglesa e seu filho era para ela a única pessoa com a qual conseguia se comunicar, com sua morte a comunicação entre ela e Richard se torna quase impossível. Para superar esse obstáculo, Richard contrata uma tradutora para ajudá-lo em se expressar com Junn. Nesse elo de aproximação os dois falam da saudade que sentem do Kai e como o amavam.

*Ganhador do prêmio de melhor fotografia no Sundance Film Festival 2014



O homem mais procurado (A most wanted man)
Direção: Anton Corbijn, 2014, Reino Unido/ Estados Unidos/Alemanha
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Rachel McAdams, Grigoriy Dobrygin, Willian Dafoe, Robin Wright

O filme é uma adaptação do romance de John Le Carré ao qual retrata a busca do espião Gunther por Issa, um imigrante checheno-russo que chega em Hamburg (Alemanha) sem nenhum documento para resgatar uma certa quantia de dinheiro herdado de seu pai, para isso ele conta com a ajuda da jovem advogada Annabel.

Para os alemães e americanos Issa não passa de um terrorista que precisa ser preso o quanto antes, mas Gunther prefere estudá-lo melhor e dessa forma atingir outro alvo que envolve um esquema de remessa de dinheiro entre um filantropo muçulmano e um grupo terrorista.

Um típico filme de espionagem que traz várias reviravoltas, a sensação de não saber quem está falando a verdade e principalmente em quem confiar. Um dos últimos filmes do ator falecido este ano Philip Seymour Hoffman.



Pessoas-pássaro (Bird people) 
Direção: Pascale Ferran, 2014, França
Elenco: Anais Demoustier, Josh Charles, Roschdy Zem

Após sair de uma reunião em Paris o norte-americano Gary vê um acidente de carro que o afeta de uma forma sem precedentes. Ele em um hotel perto do aeroporto começa a se perguntar se todo estresse do trabalho, do casamento realmente valem a pena. O jovem decide mudar sua vida completamente abandonando tudo, essa mudança causa desconforto para as outras pessoas envolvidas.

Na mesma situação se encontra a jovem Audrey, camareira no mesmo hotel que está hospedado Gary. Ela também se vê esgotada fisicamente do trabalho e procura uma fuga da sua realidade, que ao contrário de Gary, acaba sendo de uma forma sobrenatural. Ambos buscam mecanismos de escapatória da rotina do estresse e nada mais simbólico utilizado no filme, do que um pássaro representando a liberdade.

*Exibido na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes 2014




O presidente (The president)
Direção: Moschen Makmalbaf, 2014, Geórgia/França/Reino Unido/Alemanha
Elenco: Dachi Orvelashvili, Misha Gomiashvili

Em um país de origem desconhecida o presidente e seu neto buscam várias formas de escapar dos rebeldes que assumiram o poder depois de um golpe de Estado. Disfarçados de músicos de rua os dois atravessam o país se confrontando com a dura realidade de seu povo. Para amenizar as cenas de crueldade da guerra o diretor utiliza da arte como música, dança na fuga dos dois. E do humor como alívio para a violência constante das pessoas.

A fotografia se destaca pelo tom cinza que perpassa quase o filme todo, apenas contrapondo com cenas do passado quando há mais cores. Uma forma de retratar a dificuldade de um país em guerra. 

É nítido nas figuras do presidente e seu neto a simbologia do velho x novo, de quando certos ideais precisam ser mortos para que o novo possa surgir. Assim como uma crítica ao poder, ao acúmulo de riquezas, a forma de governar ditatorial.Tanto que em uma das cenas do filme um grupo de rebeldes pergunta o que fazer com o presidente, um deles diz "vamos fazer ele dançar para a democracia".

*Filme de abertura da mostra Horizontes,Veneza 2014




Titli (Titli)
Direção: Kanu Behl, 2014, Índia
Elenco: Ranvir Shorey, Shashank Arora, Shivani Raghuvanshi

Em uma família pobre indiana dominada pelo universo masculino vive Titli, um rapaz que não aguenta mais a forma como seus irmãos vivem e se expressam sempre de maneira violenta. Em um de seus planos para fugir da realidade acaba sendo forçado por seus irmãos a se casar com Neelu, uma jovem que carrega um segredo.

Titli e Neelu elaboram um plano que ajudará ambos a saírem da brutalidade que o cercam e quebrar as raízes familiares de Titli de suas vidas. Contudo nem sempre a fuga significa uma forma de se estar livre, mas sim o enfrentamento do ciclo familiar.

*Exibido na mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes 2014.



A hard day's night: os reis do iê iê iê (versão restaurada)
Direção: Richard Lester, 1964, Reino Unido
Elenco: John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Ringo Starr

Em uma cópia restaurada do sucesso de público e crítica na época de seu lançamento o filme do diretor Richard Lester retrata de forma fictícia a rotina dos jovens de Liverpool no auge da beatlemania. Com suas agendas lotadas de shows e entrevistas, fugas de fãs, os ingleses John, Paul, George e Ringo interpretam a si mesmos e passam a ideia de como é ser um jovem no show business.
A figura do avô de Paul no filme perpassa o aspecto da liberdade que eles não têm, por estarem a todo momento cercado de pessoas e compromissos.

Com sucessos de "Can't buy me love", "I should have known better", "If I fell" entre outros, o filme traz sequencias musicais que para muitos são consideradas como os primeiros videoclipes da história.

O que mais me chamou atenção foi ver a sessão lotada em plena quarta-feira a tarde para a exibição do filme, demonstrando a influência que "The Beatles" tiveram e ainda tem nas pessoas e suas futuras gerações.



Os mais jovens (Young Ones)
Direção: Jake Paltrow, 2013, Estados Unidos
Elenco: Michael Shannon, Nicholas Hoult, Elle Fanning, Kodi Smit-McPhee

O tema da água já era preocupante algumas décadas atrás, mas agora demonstra ser um agravante em todas as sociedades, o filme "Os mais jovens" retrata justamente esse fator da falta de água em uma terra estéril num futuro não tão distante. A dificuldade da família de Ernest de viver em uma realidade sem um dos maiores recursos naturais, mostra como o ser humano pode ser  brutal para conquistar ou defender sua terra, água ou qualquer outro meio de sustento.

Ernest que defende sua terra com a ajuda de seus filhos Jerome e Mary se torna alvo do namorado de sua filha que tem outros planos para as terras da família.