terça-feira, 21 de maio de 2019

"Os papéis de Aspern" trafega em um labirinto de mistério e obsessão


 
Baseado na obra de Henry James de 1888, estreia nesta quinta-feira (23) o filme "Os papéis de Aspern" (2018), do diretor francês Julien Landais, estreante em longa-metragem. O drama situado no século XIX, narra a viagem do ambicioso editor norte-americano Morton Vint (Jonathan Rhys Meyers) para a cidade italiana de Veneza, em busca de cartas escritas pelo poeta Jeffrey Aspern para sua amada, Juliana (Vanessa Redgrave). No local, ele depara-se com uma senhora de idade e sua sobrinha, Tina (Joely Richardson), morando em uma caquética mansão.

Ao assumir uma identidade falsa, Morton Vint adquiri a permissão de Juliana para hospedar-se na casa e começa a vasculhar a rotina dessas mulheres. Logo, ele percebe a existência de vários segredos envolvendo o conteúdo desses papéis e decide pedir ajuda à sobrinha, só que a mulher exige uma condição um tanto quanto perigosa para colaborar nessa empreitada.

Com a maioria das cenas centradas em uma antiga mansão veneziana de Palazzi, poucas são as imagens externas da cidade italiana. Todavia, em raros momentos quando isso acontece, é um encanto turístico acompanhar Morton na gôndola pelo canal de Veneza. Esse mesmo personagem é quem narra e guia todo desenvolvimento da trama, com raras exceções nas sequencias do passado de Juliana ao lado do amado Jeffrey Aspern. Essa escolha permite ao espectador mergulhar no desespero e na obsessão do protagonista em não medir esforços para concretizar seu objetivo. 

Esse sentimento perverso também é observando nas duas mulheres, tanto no desejo reprimido a as oportunidades perdidas de Tina por ter dedicado toda sua juventude em cuidar da tia, quanto na própria Juliana, em esconder à todo custo o conteúdo das cartas e em não deixar ser tocada nas mãos.

O roteiro constrói de modo preciso os diálogos desse drama psicológico, uma vez que os personagens nunca revelam completamente suas intenções, talvez por isso mesmo, o labirinto de mistérios e jogo de sedução se sobrepõem e gradativamente transforma a narrativa em algo um tanto quanto insossa. "Os papéis de Aspern", tem como mérito a impetuosidade dos atores em transpassarem para seus personagens o quão presos estão em armadilhas que vão além de seus controles, traduzindo as fragilidades e desamparos destes.  
CineBliss***

 



Ficha técnica: 

Os papéis de Aspern (The Aspern Papers)
Alemanha/Reino Unido, 2018
Direção: Julien Landais
Roteiro: Hannah Bhuiya, Henry James, Jean Pavans, Julien Landais
Produção: Gabriela Bacher, Julien Landais
Fotografia: Philippe Guilbert
Montagem: Hansjörg Weißbrich
Elenco: Jonathan Rhys Meyers, Vanessa Redgrave, Joely Richardson

quarta-feira, 15 de maio de 2019

"A espiã vermelha" compartilha a versão feminina sobre o universo da espionagem


Narrativas cinematográficas envolvendo o universo da espionagem com a névoa de tensão e incerteza pairando no ar sobre os personagens é algo recorrente. No entanto, raras são às vezes que esse modelo é aplicado para o protagonismo feminino, ou seja, a mulher como a agente ativa nesse labirinto conflitante entre passar adiante ou não a informação confidencial. Essa exceção é a matéria-prima para o filme "A espiã vermelha" (2018), que estreia amanhã (16) nas principais salas de cinema do país. 

Dirigido pelo inglês Trevor Nunn, o longa-metragem acompanha a aposentada Joan Stanley (Judi Dench), quando inesperadamente tem sua vida mudada com a visita do serviço secreto britânico MI5. Ao ser interrogada pelos investigadores, a narrativa desloca-se do presente para o passado da protagonista - interpretado por Sophie Cookson -, em sua chegada na Universidade de Cambridge, em 1938.

Nesse período, o espectador imerge na jornada de Joan quando ingressa em um cineclube do partido comunista e, logo se apaixona pelo militante, Leo (Tom Hughes). À partir desse encontro, de seus estudos e trabalho na área de física e suas convicções, a protagonista se solidariza em compartilhar dados com o Comitê de Segurança Russo (KGB), sobre o projeto secreto envolvendo a construção da bomba atômica.   

O filme baseado na história real de Melita Norwood - uma inglesa descoberta como espiã aos 87 anos -, constrói o roteiro com o cruzamento entre o passado e o presente, enaltecendo o protagonismo feminino por meio da independência, da inteligência e intuição de Joan. A personagem dotada de um espírito moderno, destaca-se por ingressar na Universidade na área de ciências, ter amantes e, principalmente, na convicção de lutar por um ideal, aspectos bem incomuns para mulheres no final da década de 1930. 

Esse retrato singular da espionagem desempenhada por uma mulher nesse período, transparece a imensidão da divisão entre homens e mulheres, uma vez que o universo feminino é mostrado com total desconhecimento e pavor por parte de alguns personagens masculinos. Como na sequencia do soldado ao abrir a bolsa de Joan e deparar-se com uma caixa de absorvente. Esses apetrechos femininos tornam-se aliados para se sobressair nessa empreitada e não levantar suspeitas em um mundo machista. 

Com uma fotografia distinta pela tonalidade cinza (representando o presente) e cores quentes (para o passado), o filme proporciona uma história profundamente imersiva, complexa, política e, por que não, também romântica. Um vislumbre bem construído da possibilidade de uma mulher ser visível e contribuir para um mundo melhor em um período dominado pelos homens. 
CineBliss**** 





Ficha Técnica: 

A espiã vermelha (Red Joan)
Reino Unido/ Irlanda do Norte, 2018
Direção: Trevor Nunn
Roteiro: Lindsay Shapero
Produção: Alice Dawson, David Parfitt
Fotografia: Zac Nicholson
Montagem: Kristina Hetherington
Elenco: Judi Dench, Sophie Cookson, Tom Hughes, Steven Campbell Moore, Teresa Srbova, Ben Miles

terça-feira, 7 de maio de 2019

O filme húngaro "Entardecer" enaltece o protagonismo feminino e flerta com os prenúncios da Primeira Guerra Mundial


O diretor e roteirista húngaro László Nemes, vencedor do Oscar 2016 na categoria Melhor Filme Estrangeiro por "O filho de Saul", lançou nos cinemas seu mais recente trabalho, "Entardecer" (2018). O filme que logrou o prêmio FIPRESCI – Federação Internacional dos Críticos de Cinema na última edição do Festival de Veneza, é situado em 1913, em Budapeste, em um período pré-Primeira Guerra Mundial com o início do esfacelamento do Império Austro-húngaro. 

Na cidade de intenso movimento e circulação de pessoas de diferentes línguas, a jovem Irisz Leiter (Juli Jakab) retorna após anos de reclusão no interior do país, em busca de suas origens. O primeiro lugar ao qual se destina é a loja de chapéus Leiter, que por muitos anos pertenceu a sua família. Ali, ela consegue um trabalho e, logo descobre a existência de um suposto irmão que simplesmente desapareceu. 

Nesse contexto, ela decide ir atrás de seu parente mais próximo, porém, conforme ela se aprofunda em sua investigação pelas ruas escuras de Budapeste, mas ela observa a podridão da sociedade permeada em revestimentos de luxo, poder, aparência, violência contra as mulheres, trabalho escravo, entre outros. 

Assim como em "O filho de Saul" cujo protagonista empenha-se com uma força esmagadora em realizar sua missão de enterrar o menino que toma como seu, em "Entardecer", Irisz Leiter assume esse posto e potencializa toda sua energia em encontrar o paradeiro de seu único familiar. Mesmo sozinha, perdida e assediada em várias ocasiões, a personagem principal emprega atos de bravura em uma civilização dominada pelos homens. 

Se Budapeste é vista como um turbilhão às vésperas de sua ruína, a mesma intensidade é aplicada aos movimentos de câmera grudada na protagonista na maioria das vezes com enquadramentos tanto do rosto ou da nuca. Esse fator segundo o diretor: "possibilita uma abordagem altamente íntima em um filme de época incomum" e, realça a sensação de desorientação e tensão vivenciada tanto pela personagem Irisz Leiter quanto pelo espectador. 

Mesmo retratado historicamente em um momento de prenúncio de brutalidade, o filme trabalha com uma fotografia tomada pela tonalidade dourada com bastante luz solar, contrapondo-se vez ou outra com a escuridão da noite durante as perambulações da protagonista. À vista disso, essa ótica simbólica permite transparecer um ar nostálgico de um momento de cosmopolitismo e glamour que está com seus dias contados. "Entardecer", é uma amostragem singular da sociedade europeia ainda inconsciente sobre seu destino, sob o viés do olhar feminino.
CineBliss****




Ficha técnica:

Entardecer (Napszállta)
Hungria/França, 2018
Direção: László Nemes
Roteiro: László Nemes
Produção: Gábor Sipos 
Elenco: Juli Jakab, Vlad Ivanov, Judit Bárdos,

sexta-feira, 3 de maio de 2019

"Tudo o que tivemos" é um retrato comovente dos conturbados laços familiares


Conflitos familiares é um tema recorrente em narrativas cinematográficas sendo vez ou outra revisitado em diversos gêneros. Como na comédia romântica "Tudo em família", de 2005, de Thomas Bezucha, ou no drama "Álbum de família", de 2013, de John Wills. Se no primeiro a lavagem de roupa suja acontece em uma reunião natalina, no segundo, o estopim se dá por conta de uma enfermidade envolvendo a matriarca. A junção desses dois argumentos - celebração de final de ano e doença - são a força motriz para o drama familiar "Tudo o que tivemos" (2018), da diretora e roteirista Elizabeth Chomko.

Estrelado por um elenco em estado de graça, a começar pela ganhadora do Oscar Hilary Swank, seguindo pelo atores Michael Shannon, Robert Forster e Blythe Danner, esse conjunto de intérpretes unem-se para dar vida aos membros da família Everhardt, respectivamente a filha Bridge, o filho Nicky, o pai Burt e a mãe Ruth. O pulsar de cada um desses personagens transbordam as angústias e incertezas da vida em meio à uma tragédia familiar.

Às vésperas das celebrações de final de ano, na cidade de Chicago, Ruth desaparece em meio a uma tempestade de neve devido ao Alzheimer. O evento faz com que Bridget junto de seu filha Emma (Taissa Farmiga), desloque-se da Califórnia para a casa dos pais. No reencontro familiar, ela depara-se de um lado com Nicky ansioso para internar a mãe em uma clínica especializada, do outro lado, o pai, teimoso e apaixonado pela esposa, insistindo em deixá-la em casa. No meio dessa divergência de ideias, encontra-se Bridget indecisa sobre qual o melhor caminho para o destino de sua mãe e do seu próprio, uma vez que também perpassa por um momento de crise em sua vida amorosa.

Nesse caldeirão de nervos à flor da pele, o roteiro busca trabalhar com vários temas de cunhos universais como a velhice, a morte, o casamento, o amor, a religião, o patriarcalismo, a maternidade, a instituição família e a memória. Esse último perpassa por todo decorrer da história, seja pela força de vontade de Burt de relembrar Ruth de seu passado, das fotografias em constante destaque ou na própria perda da memória, efeito colateral da doença.

O cruzamento dessas questões é construído de modo primoroso e profundo. Como pode ser visto na sequencia em que Bridget, pela primeira vez contesta o pai sobre suas escolhas tanto no casamento quanto na religião. Ao mesmo tempo, observa-se também um certo tom de jocosidade nos diálogos, principalmente oriundos do cético e amargo Nicky, como quando fala que a mãe está hidratada após beber água benta. 

"Tudo o que tivemos" consegue sobressair-se aos dois exemplos citados acima, em virtude de contemplar assuntos caros para as pessoas como o medo da solidão ou o medo de envelhecer de um modo humano, frágil e visceral, sem apelar para excessos ou maneirismos como ocorre nos anteriores.
CineBliss****




Ficha técnica: 

Tudo o que tivemos (What they had)
Estados Unidos, 2018
Direção: Elizabeth Chomko
Roteiro: Elizabeth Chomko
Produção: Albert Berger, Bill Holderman, Keith Kjarval, Sefton Fincham, Alex Saks, Ron Yerxa, Hilary Swank
Elenco: Hilary Swank, Michael Shannon, Blythe Danner e Robert Forster, Taissa Farmiga