quinta-feira, 30 de agosto de 2018

A coprodução brasileira "As herdeiras" estreia hoje nos cinemas com uma bagagem recheada de prêmios


A coprodução brasileira "As herdeiras" (2018), do diretor paraguaio Marcelo Martinessi, logrou no último sábado (25) seis dos oito prêmios da competição de longas estrangeiros no Festival de Cinema de Gramado, incluindo Melhor Filme, Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Filme pela Crítica, Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Atriz para Ana Brum, Margarita Irun e Ana Ivanova e, no Festival de Berlim 2018, foi laureado com Melhor Filme pela crítica FIPRESCI. O longa-metragem que estreia hoje nos cinemas, aborda de forma delicada o esfacelamento financeiro de duas herdeiras de famílias ricas no Paraguai. 

Com seus mais de 60 anos Chiquita (Margarita Irun) e Chela (Ana Brum), vivem juntas confortavelmente em uma casa há cerca de 30 anos. No entanto, elas observam não haver dinheiro suficiente para continuarem com o mesmo padrão de vida e, com isso, começam a vender os bens, incluindo móveis e louças. O desapego de objetos valiosos é encarado por cada uma de forma diferenciada, para a primeira algo necessário a ser feito, já para segunda há uma certa resistência e desconforto, uma vez que não quer contar para nenhuma das amigas a situação financeira e evitar falatórios. 

O modo distinto das personagens de lidarem com a crise, abre o leque para  particularizar a índole de cada uma, ao ponto de Chiquita ser presa por cobranças fraudulentas e  Chela ficar em casa, meio perdida aos cuidados da empregada doméstica Pati (Nilda Gonzalez). Devido aos acasos da vida, Chela inicia um serviço de táxi para senhoras ricas o que permite conhecer Angy (Ana Ivanova), uma mulher envolvente e misteriosa. O convívio entre as duas desperta em Chela sentimentos conflitantes, permitindo aflorar uma sensualidade esquecida.  

A ausência da figura masculina projeta uma narrativa construída no âmbito das relações entre as mulheres, o modo como as personagens cuidam uma das outras ou como se deixam afetar pela outra demonstra uma singularidade, uma vez que, o universo feminino na terceira idade é pouco explorado pelo cinema. Outra questão também exposta em "As herdeiras", é a de classe social por meio da relação entre patrão versus empregado, como por exemplo, as cenas em que Chela dá ordens para Pati, seja em abrir a porta ou a garrafa de vinho ou em como organizar a bandeja.

A casa revela-se como uma peça fundamental para o filme, pois é onde se desenvolve a maioria das cenas com a presença marcante de ruídos e o abrir e fechar de portas. A cenografia também merece destaque já que os objetos da casa ou o carro são colocados em evidência em várias sequencias, estampando o quão presa está a personagem de Chela à situação.

"As herdeiras" traça o caminho do afeto e das descobertas na terceira idade feminina, se sensibilizando com as dificuldades e conflitos que possa aparecer nessa fase da vida e, apostando nos imprevistos que surgem quando as pessoas deixam de resistir e aceitam as situações. Assim como Chela, ao guiar o espectador nessa narrativa delicada e emocionante.
CineBliss



Ficha técnica: 

As herdeiras (Las herederas) 
Paraguai/Brasil/Alemanha/França/Uruguai, 2018
Direção: Marcelo Martinessi
Roteiro: Marcelo Martinessi
Produção: Karen Franenkel
Elenco: Ana Brum, Margarita Irun, Ana Ivanova, Nilda Gonzalez

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O filme "Escobar: A traição" retrata sob o ponto de vista de Virginia Vallejo, o apogeu e declínio do narcotraficante Pablo Escobar


Em 2015 a rede de streaming Netflix produziu o seriado "Narcos" com duas temporadas baseadas na vida do narcotraficante colombiano Pablo Escobar, interpretado pelo ator brasileiro Wagner Moura. Já o filme "Escobar: A traição" (2017), que estreia hoje nos cinemas, destina o papel principal para o ator espanhol Javier Barbem, ao lado de sua esposa na vida real Penélope Cruz dando vida à famosa jornalista Virginia Vallejo, amante de Escobar por seis anos. Um dos diferenciais mais marcantes entre o seriado e o longa-metragem é o ponto de vista da narrativa, no primeiro é do agente americano do DEA, Steve Murphy (Boyd Holbrook) e, no segundo da própria Virginia.  

Com a direção de Fernando León de Aranoa (Um dia perfeito), o filme baseado no livro "Amando Pablo, Odiando Escobar", escrito pela jornalista/amante Virginia Vallejo, retrata a ascensão, o triunfo e a queda do reinado de Escobar.  Os 123 minutos de duração, sintetiza a forma como o traficante colombiano se relacionava com seus subalternos, com os políticos, com as pessoas famosas, com seus aliados e inimigos, com sua família e, em especial o relacionamento extraconjugal com Virginia.     

Para quem assistiu o seriado, algumas cenas vão parecer familiares, como a morte do Ministro da Justiça, o atentado ao avião - todos à mando de Escobar -, e, até mesmo a construção do próprio presídio. Já outras situações, aparecem tão violentas quanto, como as matanças desordenadas à policiais colombianos ou de um dos capangas do traficante sendo massacrado por seus inimigos com um cachorro em suas costas.  

Javier Barbem, além de protagonizar também é produtor do filme e, comenta o porque de ter recusado várias vezes o papel de interpretar o narcotraficante. "Pelos últimos 20 anos, me ofereceram vários papéis de Pablo Escobar, mas sempre os recusei porque nenhum passava de um estereótipo". À vista disso, em "Escobar: A traição" o ator entrega uma performance expressiva, porém, sem exageros, do qual possibilita identificar as nuances de personalidade de Escobar, ora extremamente forte e violento ora vulnerável.  Penélope Cruz, também entrega um trabalho notável, uma vez que expressa com naturalidade o lado sedutor, profissional e descontrolado da jornalista Virginia Vallejo. 

A narrativa falada no idioma inglês, é construída com ritmo tenso e provocador prendendo a atenção do espectador durante todo o filme. As informações por mais que não tenha uma maior durabilidade de tempo como no seriado, consegue explorar os acontecimentos marcantes da vida de Pablo, sem parecer superficial. Para quem é intrigado pela história pessoal do narcotraficante colombiano, "Escobar: A traição" é mais uma versão desse homem tão complexo, cuja personalidade encantou e assombrou milhares de pessoas. 
CineBliss
Ficha técnica: 
Escobar: A traição (Loving Pablo) 
Espanha, 2017
Direção: Fernando León de Aranoa
Roteiro: Fernando León de Aranoa, Virginia Vallejo
Produção: Aleksander Kenanov, Dean Nichols, Ed Cathell III, Javier Bardem, Kalina Kottas, Miguel Menéndez de Zubillaga
Fotografia: Alex Catalán
Elenco: Javier Bardem, Penélope Cruz, Peter Sarsgaard

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

"O Animal Cordial" disseca visceralmente embates de cunho social banhado com muito sangue


A diretora baiana Gabriela Amaral Almeida conhecida pelos curtas-metragens "Uma Primavera" (2010), "A mão que afaga" (2011) e "Estátua" (2014), lança hoje nos cinemas seu primeiro longa-metragem "O animal cordial"(2017), com a produção de Rodrigo Teixeira. Categorizado como slasher movie - subgêneros do terror - o filme se desenrola em um restaurante de classe média em São Paulo em apenas uma noite, quando é subitamente invadido por dois bandidos armados, no fim do expediente.

Dentro do estabelecimento encontra-se o pacato dono Inácio (Murilo Benício), a fiel garçonete Sara (Luciana Paes), o cozinheiro Djair (Irandhir Santos) e os clientes Amadeu (Ernani Moraes), Bruno (Jiddu Pinheiro) e Verônica (Camila Morgado). Diante da situação do assalto em que possivelmente se teria o roubo concretizado, a narrativa se direciona para o sentido oposto, uma vez que Inácio reage e decidi dar um rumo completamente diferente para cada um dos personagens. 

O restaurante um tanto quanto decadente, mas que finge ser chique, perpassa a sensação de claustrofobia com suas portas e janelas fechadas. Esse ambiente embriagado pela sensação de perigo, torna-se propício para diversos embates sociais tais como empregado versus patrão; homem versus mulher; ricos versus pobres, entre outros. Como por exemplo, logo no começo do filme quando Sara atende a mesa do casal Bruno e Verônica e a última trata a garçonete com desdém, ou, nas várias discussões entre Inácio e Djair.  

As performances dos intérpretes merece destaque pois transitam com maestria a ambiguidade dos personagens, cujo processo de desconstrução ao longo da narrativa permite que os desejos e violências internas venham à tona e o lado animalesco se sobressaia, em particular de Inácio e Sara. Os atores Murilo Benício e Luciana Paes, lograram prêmios referentes aos seus papéis, respectivamente, o de Melhor Ator no Festival do Rio 2017 e de Melhor Atriz no FantasPoa 2018.

Essa trágica fábula da violência na sociedade brasileira, tem no roteiro assinado pela própria Gabriela uma reflexão e provocação sobre até que ponto pode-se vangloriar em relação ao conceito de  civilização. Haja visto, que a força oposta desse conceito - a barbárie - está numa linha tênue nas engrenagens dos comportamentos das pessoas. No caso de "O animal cordial", esse embate visceral é efervescido com várias sequencias banhadas de muito sangue.
 

Para os admiradores do trabalho de Gabriela Amaral Almeida, o IMS (Instituto Moreira Salles) de São Paulo e Rio de Janeiro, terá uma programação especial neste final de semana apresentando os três curtas-metragens citados acima. Para conferir as datas e horários é só acessar o site. Já o segundo longa-metragem da diretora "A sombra do pai", foi selecionado pelo Sundance Institute para participar dos laboratórios de Roteiro, Direção e Música e Desenho de Som, assessorados por nada menos que Quentin Tarantino, Robert Redford, entre outros.
CineBliss




Ficha técnica: 

O animal cordial (O animal cordial)
Brasil, 2017
Direção: Gabriela Amaral Almeida
Roteiro: Gabriela Amaral Almeida
Produção: Rodrigo Teixeira
Fotografia: Barbara Alvarez 
Elenco: Murilo Benício, Luciana Paes, Irandhir Santos, Ernani Moraes, Jiddu Pinheiro, Camila Morgado, Humberto Carrão

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Baseado em uma história verídica, o filme "O nome da morte" é uma radiografia brutal da realidade brasileira


Quando o jornalista Klester Cavalcanti investigava o trabalho escravo na Amazônia, não imaginava que se depararia com a história verídica do pistoleiro Júlio Santana, responsável pela morte de 492 pessoas, conforme relatou durante a coletiva de imprensa do filme "O nome da morte". Após colher os depoimentos do matador profissional, Klester publicou o livro em 2006 e, doze anos depois, a biografia chega hoje às telas do cinema. Dirigido por Henrique Goldman (Jean Charles), a narrativa cinematográfica retrata a jornada desse homem devoto do catolicismo, pai de família atencioso e filho prestativo, porém, atormentando pelas mortes realizadas por encomenda.

O ator Marco Pigossi em seu primeiro trabalho no cinema, dá vida ao personagem de Júlio quando este é convidado pelo tio Cícero (André Mattos) para mudar-se da casa dos pais no sertão e ir morar na cidade com intuito de tornar-se um "policial". Júlio, oriundo de uma família pobre aceita o convite e, assim que se hospeda na casa do familiar defronta-se com uma outra realidade. Logo, ele começa a fazer parte de um grupo de matadores profissionais ao lado do tio. Na trajetória de matanças, Júlio conhece Maria (Fabiula Nascimento) por quem logo se apaixona e constitui família, sem revelar sua real profissão.

A montagem constrói uma narrativa com ritmo febril e tenso, por meio da utilização de várias sequencias de mortes a sangue frio - como a do feirante ou do membro dos direitos humanos - intercalando com a vida afetiva de Júlio. Concomitantemente, a fotografia de Azul Serra, com exuberantes planos gerais da paisagem do Jalapão - parque estadual localizado na região do Tocantins, onde foi gravado o filme - proporciona a sensação de quão ínfimo é o personagem atormentado entre os dois mundos distintos em que habita, a violência da profissão versus o homem familiar e religioso.

A fé cristã do personagem é enfatizado em várias cenas, tanto com ele dentro da igreja quanto rezando Ave-marias e Pai-Nossos após a concretização da morte ordenada de cada pessoa. O curioso também é a constante presença de imagens com água corrente, o que por meio de uma ótima simbólica possibilite deduzir uma busca de Júlio por purificação de seus pecados.

Durante a coletiva de imprensa, o ator Marco Pigossi relatou os desafios de interpretar Júlio, confessando o quão intenso e doloroso foi dar vida ao: "... vazio que esse cara tinha, ele não tinha prazer em matar, ele não é nenhum psicopata". Haja visto que para o intérprete, Júlio, faz parte desse meio social sem nenhuma educação ou perspectiva de vida, sendo mais uma vítima e massa de manobra.

O roteiro entrega de forma precisa uma radiografia de uma realidade brasileira brutal, provocando inúmeras reflexões sobre o valor de uma vida humana, as mazelas sociais incrustadas em cada canto do país, as mortes encomendadas que não acontecem apenas nos sertões, mas também nas grandes cidades, como o caso da vereadora carioca Mariela Franco, citada por Klester Cavalcanti durante a coletiva. Um filme pertinente para o momento atual da sociedade brasileira, com a aproximação das eleições e na prerrogativa de qual futuro se espera do Brasil.
CineBliss








Ficha técnica: 

O nome da morte (O nome da morte) 
Brasil, 2017
Direção: Henrique Goldman
Roteiro: George Moura
Produção: Rodrigo Letier
Fotografia: Azul Serra
Elenco: Marco Pigossi, Fabiula Nascimento, André Mattos, Tony Tornado, Matheus Nachtergaele