terça-feira, 30 de setembro de 2014

Em "Fale com ela" a pergunta é: O que fará com sua vida ao despertar?




Quando fui morar em São Paulo em 2009 meu primeiro curso de cinema foi no Espaço Itaú de Cinema na Rua Augusta com a professora Ana Figueiredo chamado "Mito, cinema e a arte de contar" não tinha a mínima ideia do que poderia ser, mas após esse encontro nunca mais fui a mesma. Ana durante todo o curso fez menções ao seu mestre o estudioso Joseph Campbell, a partir dessa introdução busquei mais informações e aprofundei nos estudos da jornada do herói e mitologia tão difundidos por Campbell.

Cinco anos depois encerro meu ciclo em São Paulo com mais um curso da Ana chamado "O que amo quando amo alguém em especial", as aulas são de sábado de manhã no Espaço Itaú de Cinema e vai até o final de dezembro. A aula que ocorreu no último sábado foi maravilhosa e como não poderia deixar de faltar ela fez uma análise do filme "Fale com ela" do diretor espanhol Pedro Almodóvar.

"Fale com ela" lançado em 2002 retrata o estado de coma e o despertar para a vida e o amor. Marco (Darío Grandinetti) e Benigno (Javier Cámara) no início do filme estão em um teatro assistindo à apresentação de dança de Pina Bausch (Cafe Muller) e não imaginam que suas vidas irão se cruzar de uma forma inesperada. Como a própria dança mostra o estado adormecido de pessoas, algo semelhante ocorre na vida de Marco que chora a todo momento, mas sente arrepio ao ouvir a música de Caetano Veloso, como se estivesse em coma para com sentimentos profundos que o desperte para o amor. Mas esse chamado surge quando ele conhece a toureira profissional Lydia (Rosario Flores) que traz em sua bagagem pessoal um fim de relacionamento complicado mas aberta ao novo caso amoroso. Contudo Lydia após sofrer um acidente grave em uma tourada entra em estado de coma e é hospitalizada no mesmo hospital que trabalha Benigno, acasos da vida.

Benigno um enfermeiro extremamente dedicado cuida há quatro anos de uma jovem dançarina Alicia (Leonor Watling), seus cuidados intensos para com a paciente logo demonstra seu amor platônico por ela assim como uma certa obsessão. Nos corredores do hospital esses dois homens se encontram novamente e a partir desse encontro uma amizade surge entre eles. Benigno ajuda Marco a falar com Lydia mesmo em estado de coma, mas além disso o conduz para o despertar, para como amar.

Após ir à uma sessão de cinema mudo em um dos seus poucos dias de folga Benigno ao cuidar de Alicia se comporta de uma forma que gera consequências para ambos (não entrarei em questões éticas ou morais do ocorrido). O ato faz de Benigno um prisioneiro e Alicia renasce, o despertar para a vida novamente, como se o enfermeiro tivesse a despertado e ela feito o parto de sua própria vida.

Marco ao saber da prisão de Benigno vai ajudá-lo, sem apartamento em Madri este aluga o lugar que o enfermeiro havia herdado de sua falecida mãe e preparado para Alicia. Quando entra no apartamento Marco observa da janela as aulas de dança, assim como Benigno fazia para ver a jovem bailarina Alicia dançar.

O diretor nesse filme novamente traz na fotografia tons quentes (vermelho, laranja) cores da paixão, do sangue, para mostrar que o amor é dor, morte, sofrimento. Assim como no quarto de Alicia havia luminária com gotas de fluídos, no ato polêmico do filme Pedro usa da mesma concepção, simplesmente genial. 

Mais detalhes é como estragar o desfecho dessa belíssima história de amor. Como todo melodrama utiliza da música para acentuar o drama, neste filme a trilha sonoro é uma homenagem ao Brasil, com Elis Regina e apresentação em uma das cenas de Caetano Veloso cantando a canção de Tomaz Méndes "Cucurrucucu Paloma".

Como disse Ana Figueiredo o filme começa com cenas da apresentação de Pina Bausch mostrando a condição de pessoas adormecidas e termina com uma dança em celebração da vida e do amor.

CineBlissEK



Curiosidades:
  • O diretor Pedro Almodóvar será o homenageado esse ano na Mostra de Cinema de São Paulo;
  • Vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original de 2003;
  • Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro de 2003;
  • Participação de Caetano Veloso em "Fale com ela", com a música "Cucurrucucu Paloma":


Ficha Técnica:

Fale com ela (Hable con ella)
2002, Espanha
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Produção: Agustín Almodóvar
Fotografia: Javier Aguirresarobe
Elenco: Darío Grandinetti, Javier Cámara, Rosario Flores, Leonor Watling

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Confira algumas dicas de filmes para o Festival do Rio 2014




Começa hoje no Rio de Janeiro a 16ª edição do Festival do Rio 2014 que vai até 8 de outubro, são mais de 350 filmes de mais de 60 países que serão exibidos em 35 salas de cinema. O documentário sobre a vida de Sebastião Salgado "O sal da terra" de Juliano Ribeiro e Wim Wenders abriu o festival ontem e o encerramento será com o longa do diretor Stephen Daldry com coprodução brasileira "Trash - A esperança vem do lixo".

Para mais informações, acesse: www.festivaldorio.com.br

Confira algumas dicas de filmes que serão exibidos no festival:

  O sal da terra (Salt of the Earth)
  Direção: Juliano Ribeiro Salgado e Wim Wenders, 2014, França/Itália/Brasil



  Trash - A esperança vem do lixo (Trash)
  Direção: Stephen Daldry, 2014, Reino Unido/Brasil



  Por uma mulher (Pour une femme)
  Direção: Diane Kurys, 2013, França



  O homem mais procurado (A most wanted man)
  Direção: Anton Corbijn, 2014, Reino Unido/Estados Unidos/Alemanha



  Mapa para as estrelas (Maps to the stars) 
  Direção: David Cronenberg, 2014, Canadá/Alemanha



  Sétimo (Séptimo)
  Direção: Patxi Amezcua, 2013, Argentina/Espanha



  Pessoas - Pássaros (Bird People)
  Direção: Pascale Ferran, 2014, França



  Uma garota à porta (Dohee Ya)
  Direção: July Jung, 2014, Coréia do Sul



  O amor é estranho (Love is strange)
  Direção: Ira Sanchs, 2014, Estados Unidos




sexta-feira, 19 de setembro de 2014

"Magia ao luar" aposta no ocultismo da lógica do amor




Todos temos nossas crenças e procuramos defender arduamente aquilo que acreditamos ser a verdade, contudo algumas vezes a vida com suas surpresas nos coloca em situações aos quais temos que rever essas crenças e nos transformar com o aprendizado. Pois esse tema, é basicamente a história que o diretor Woody Allen busca retratar em seu novo filme "Magia ao Luar".

O mágico Stanley (Colin Firth) que trabalha com o pseudônimo de Wei Ling Soo se considera o melhor em sua profissão, com sua formação voltada totalmente para o racional se diz com o talento para desmascarar qualquer falso espiritualista. Esse é justamente o chamado que Stanley recebe de seu amigo Howard (Simon McBurney), quando este o visita à procura de ajuda para se certificar se uma jovem americana de origem humilde, Sophie (Emma Stone) realmente tem poderes mediúnicos. Howard convida Stanley para passar um final de semana com a milionária família Catledge na Riviera Francesa em que a jovem está hospedada e avaliar se é ou não uma fraude os poderes espirituais de Sophie.

Stanley com sua credulidade, ceticismo e uma certa arrogância se depara com uma jovem de poderes espirituais convincentes, ao qual, desperta nele um questionamento sobre a vida, fé, a existência de Deus e as artimanhas emocionais. Woody Allen, retrata as transformações dos personagens com as cores e a comida, Stanley que no começo aparece usando ternos escuros, depois se vê com cores mais claras, se socializando mais, aproveitando os lados bons da vida. Já Sophie, passa quase o filme todo comendo, em que ela mesma diz ser um fato, por nunca ter se apaixonado.

Como muitos dos filmes do diretor, novamente, ele volta para a questão do relacionamento entre um homem mais velho e uma mulher mais nova, nesse caso Stanley com todo seu sarcasmo inglês se aproxima cada vez mais de Sophie para tentar desmascará-la, no entanto, ele não esperava que na lógica do amor não há explicações racionais para possíveis entendimentos, é um fenômeno ao qual não se pode explicar. O que era apenas uma missão de desvendar a trapaceira se torna numa descoberta do amor e suas mágicas inexplicáveis. Esses dois temas, a mágica e o relacionamento amoroso inexplicável foram abordados em dois filmes recentes do diretor, o primeiro em "Scoop" de 2006 e o segundo em "Tudo pode dar certo" de 2009.

Duas cenas me chamaram atenção, a primeira delas quando o casal vai se proteger da chuva no observatório e abre o teto para ver a lua, Stanley menciona que aquela visão para ele é assustador, já Sophie diz ser romântico, talvez a maneira como o amor se expressa para cada um. A utilização da noite e da lua para retratar os sentimentos dos dois que ainda não é consciente, demonstra a sofisticação do diretor em colocar símbolos do inconsciente para mostrar o quão misterioso o amor é para todos.

A outra cena se passa durante o baile quando Sophie já ciente de seus sentimentos por Stanley o procura para expressar suas emoções, mas ele com toda racionalidade a questiona sobre esses sentimentos. A forma como a narração acontece demonstra a maestria do diretor em produzir diálogos perfeitos, timing inigualável, sofisticação e humor cortante.

Não se pode dizer que seja um dos melhores filmes do Woody Allen, mas certamente não é um dos piores, principalmente para um diretor que produz um filme por ano há 4 décadas, com certeza não é para muitos. Vale a pena ir assistir pelas risadas, pela leveza do filme e claro para ver ótimas interpretações inglesas do ator Colin Firth e da atriz Eillen Atkins.
CineBlissEK




Ficha Técnica:

Magia ao Luar (Magic in the moonlight)
2014, Estados Unidos
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Produção: Edward Walson, Letty Aronson, Stephen Tenenbaum
Fotografia: Darius Khondji 
Elenco: Colin Firth, Emma Stone,  Eillen Atkins


domingo, 14 de setembro de 2014

A violência por si só como mero entretenimento é o tema para "Violência Gratuita"


Uma típica família de classe alta americana vai passar o final de semana em sua casa de campo ao som de música clássica, tudo na maior tranquilidade. Mas assim que surge os nomes dos atores na tela ao som de um rock pesado o público sente um certo estranhamento de que algo está errado, esse é o inicio do remake, na versão americana de "Violência Gratuita" (2007) do diretor Michael Haneke.

Logo que a família de Anna (Naomi Watts) chega na casa questionam o motivo de seus amigos agirem de uma forma estranha e não demora muito para saberem o por quê. Enquanto George (Tim Roth) e seu filho colocam o barco na água, Anna é interrompida na cozinha por um jovem que acabou de conhecer pedindo ovos emprestados, a cena começa com extrema educação e se torna angustiante quando os jovens demonstram o verdadeiro motivo de estarem na casa. Paul e Peter (Michael Pitt e Brady Corbet) iniciam um jogo com os moradores da casa, de quente ou frio, para depois seguirem com outras brincadeiras, enquanto que para eles as situações são engraçadas para a família equivale a atos cruéis de não saberem se ficarão vivos.

Conforme o filme se desenrola percebe que não há um motivo real para os atos de violência, mas apenas uma forma dos jovens brincarem com as famílias, como o próprio Peter diz à Anna quando ela pergunta por quê eles não a matam logo e ele diz "você não deve esquecer da importância do entretenimento".

Conduta interessante de se notar é que os dois rapazes a todo momento demonstram educação, mesmo quando fazem algum ato violento, logo eles procuram estabelecer a ordem com educação. Tanto que eles não invadem as casas, mas sim são convidados pelos moradores a entrarem.

Quando Anna participa de um dos jogos à procura do cachorro da família, o pública estranha o olhar de Paul para a câmera, como se o diretor Michael Haneke informasse para o telespectador que tudo não se passa de um entretenimento, nada é real, por mais que se pareça. Essa perspectiva também aparece na cena ao qual Paul procura pelo controle remoto para voltar alguns minutos e mudar o desfecho da história.

O diretor Michael Haneke busca criticar a violência do entretenimento ao mostrar que nem sempre há um motivo para crueldade, mas como doe no público cada cena violenta. Do início ao fim do filme a tensão psicológica toma conta do telespectador por ser uma violência tão real, típico do diretor que em quase todos os seus filmes trata do tema da violência como "A fita branca" (2009), "A professora de piano" (2001) ou "Amor"(2012). Essa violência crua e sem truque também é utilizada pelo diretor dinamarquês  Lars Von Trier, mas a diferença é que o último mostra a crueldade até o fim.

A primeira versão do filme foi lançado em 1997 em alemão com atores europeus pouco conhecidos, dez anos depois o diretor fez a refilmagem com outros atores de Hollywood mas com as mesmas cenas, tudo parecido ao original.
CineBlissEK



Curiosidades
  • É uma refilmagem do filme de mesmo nome, escrito e dirigido por Michael Haneke em 1997;
  • A produção usou os mesmos objetos de cena do filme original. A casa construída para o filme de 2007 tem as mesmas proporções da primeira;
  • As cores e os tons usados pelo diretor de arte Hinju Kim fazem diversas referências ao filme de Stanley Kubrick, Laranja Mecânica;

Ficha Técnica

Violência Gratuita (Funny Games U.S.)
2007, USA
Direção: Michael Haneke
Roteiro: Michael Haneke
Produtores: Andro Steinborn, Chris Coen, Christian Baute, Hamish McAlpine
Fotografia: Darius Khondji
Elenco: Tim Roth, Naomi Watts, Michael Pitt, Brady Corbet