segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Conhecer a ti mesmo para capturar o serial killer


Acredito não haver ninguém que nunca tenha visto a imagem do personagem Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) utilizando a focinheira no filme O silêncio dos inocentes, do diretor Jonathan Demme de 1991. A trama baseada no livro de Thomas Harris descreve a jornada da estudante do FBI Clarice Starling (Jodie Foster) na caça ao serial killer Buffalo Bill (Ted Levine), para essa tarefa ela conta com a ajuda do nada sedutor ou confiável, Dr. Hannibal Lecter, psiquiatra preso acusado de matar vários de seus pacientes. 
 
O filme começa com Clarice praticando exercícios físicos numa névoa, uma metáfora para indicar sua entrada em um universo obscuro ao qual precisará de sua intuição para lhe guiar. Por a história iniciar justamente nela e não no serial killer ou em Lecter gera um maior suspense conforme esses personagens são introduzidos nas cenas.

A jovem detetive inicia seu chamado a aventura quando é incumbida pelo agente especial da Unidade de Ciência Comportamental do FBI, Jack Crawford (Scott Glenn) a colher o depoimento de um dos mais bem protegidos assassinos dos Estados Unidos, Hannibal Lecter que é acusado de comer vivo seus pacientes. Quando ela desce os degraus de escada do manicômio para chegar até a cela subterrânea do canibal, esta cena representa na linguagem simbólica uma descida para o inconsciente, ou seja, Clarice não apenas irá discutir questões práticas para encontrar o assassino de mulheres, mas também identificar conflitos internos não resolvidos para conhecer a si mesma.

Através dos encontros com Lecter que mais se parecem com uma sessão de terapia, Clarice ganha a confiança do psiquiatra relatando fatos de sua infância e com isso consegue sua ajuda para criar o perfil e desvendar a identidade do serial killer Buffalo Bill. O canibal que no início do filme tem ares do arquétipo da Sombra, com projeção do lado escuro do ser humano, adquiri no decorrer da trama outra função, como mentor, fornecendo informações para a captura do assassino.

A construção dos dois personagens principais traz um estranho e inamistoso relacionamento entre Clarice e Lecter o que vislumbra a semelhança de ambos sentirem-se impotentes, Lecter por estar encarcerado em uma prisão subterrânea e Clarice por estar cercada de homens que a querem dominar. A dupla utiliza do poder de persuasão para escapar dessas armadilhas. 
 
A questão da mulher num ambiente profissional dominado pelo masculino, já é vista no começo do filme quando Clarice entra no elevador com homens apenas e ela como a única mulher, e continua em todo decorrer do filme, seja na cena em que Miggs se masturba quando ela passa por ele na cela ou quando o agente Crawford pede para Starling sair da sala, pois prefere falar a sós com os homens. Esse fator é interessante porque no outro lado da trama há Buffalo Bill - transexual - querendo se transformar de homem para mulher, para essa mudança de sexo ele retira a pele de suas vítimas. Para identificar os crimes como de sua autoria, Buffalo Bill introduz mariposas nas gargantas das mulheres mortas, inseto este que simbolicamente representa transformação.

Nos extras do DVD o diretor Jonathan Demme declara um arrependimento não ter se aprofundado na questão do abuso sexual sofrido por Hannibal Lecter quando criança. O silêncio dos inocentes é aclamado até hoje pela crítica e público por ser mais que um filme de suspense, mas por focar também para os mistérios do inconsciente e não simplesmente na violência propriamente dita.
CineBlissEK



Curiosidades:
  • O papel de Hannibal Lecter foi oferecido ao ator Gene Hackman assim como o de Clarice Starling para Michelle Pfeiffer;
  • Ganhou 5 Oscars: Melhor Filme, Melhor Diretor (Jonathan Demme), Melhor Ator (Anthony Hopkins), Melhor Atriz (Jodie Foster) e Melhor Roteiro Adaptado;
  • Baseado no romance de Thomas Harris

Ficha Técnica: 

O silêncio dos inocentes (The silence of the lambs)
1991, Estados Unidos
Direção: Jonathan Demme
Roteiro: Jonathan Demme,  Ted Tally
Produção: Edward Saxon, Kenneth Utt, Ron Bozman
Fotografia: Tak Fujimoto
Elenco: Anthony Hopkins, Jodie Foster, Scott Glenn, Ted Levine, Anthony Heald

Bibliografia: 

EBERT, Robert. A magia do cinema
VOGLER, Christopher. A jornada do escritor

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Os inusitados despertares para o amor


Em quase todo filme os cinco primeiros minutos de exibição mostra-se várias características do personagem principal em seu mundo comum, em A vida secreta das palavras a diretora Isabel Coixet utiliza desse artifício de uma forma metafórica para retratar a jovem Hanna (Sarah Polley) em uma fábrica regida pela padronização da linha de montagem plastificando tubos de plásticos, e durante a refeição alimentando-se sempre da mesma comida (arroz, frango e maçã) em uma vasilha de plástico.

Tanto o elemento da comida quanto do plástico são metáforas para entender o processo de transformação de Hanna que vê-se sem apetite para a vida, se isolando de todos e apenas como uma máquina trabalhando numa rotina sem abertura para as surpresas da jornada.

Contudo por mais que o ser humano encontre formas para plastificar suas vidas, há sempre um momento do chamado para se aventurar em mundo completamente desconhecido, muitas vezes esse caminhar acaba sendo inconsciente, mas as consequências se torna visível. Para Hanna esse acontecimento novo surge na obrigação em tirar férias após quatro anos de trabalho ininterrupto, ela viaja, mas sem pestanejar decide se candidatar para ser enfermeira de um homem queimado em uma plataforma de petróleo em alto mar.  

O ambiente rotineiro que antes era de uma fábrica fechada com várias pessoas se transforma para um espaço aberto, com alguns homens e as ondas do mar como remédio para limpar o passado de cada tripulante desta plataforma. A água que está associada a fluidez e limpeza se torna o cenário perfeito para pessoas imperfeitas.

O paciente Joseph (Tim Robbins) encontra-se na cama com uma parte do corpo com queimaduras e sem enxergar devido ao incêndio na plataforma. Assim que Hanna se apresenta, este lhe chama de Cora e fala que ela deve ser loira. Várias são as tentativas dele em aproximar-se de Hanna, mas esta resiste a todo momento. Interessante pensar que ambos tenham deficiências seja auditiva da jovem ou visual dele, que não são de nascença, mas sim causadas por fatores da vida.

Como cuidadora de Joseph, a heroína despertar-se para novos sabores em sua alimentação, indicando que há uma transformação, uma abertura para a construção de sentimentos que envolve carinho, confiança, atenção e amor. Tanto Joseph quando Hanna fazem revelações sobre seus passados demonstrando a cumplicidade dos dois. Passado este de Hanna que emociona o paciente assim como o público e explica certas atitudes de autoproteção por parte da jovem, não vou comentar sobre a revelação do segredo pois arruinaria o filme.

Em uma cena ao qual Joseph relata uma história de sua infância conta o segredo de que não sabe nadar, essa revelação muda todo o desfecho do casal no final do filme e se torna para mim como uma das mais bonitas declarações de amor que eu já vi no cinema. Segue a transcrição abaixo e também o link da cena:

Joseph: Venha comigo Hanna?
Hanna: Eu acho que isso não vai ser possível...
Joseph: Porquê não?
Hanna: Porque eu acho que, se formos para algum lugar juntos, tenho medo de que um dia, talvez não hoje, talvez nem mesmo amanhã, mas algum dia, de repente, eu possa começar a chorar tanto que nada vai me fazer parar. As lágrimas encherão o quarto, não conseguirei respirar, vou levá-lo junto e ambos vamos nos afogar...
Joseph: Eu aprendo a nadar Hanna, eu prometo!
Cena final

Impossível não se emocionar com a declaração de amor, mas muito mais que isso em ver a coragem dele em deixar-se ser tocado pelo sentimento do seu coração e lutar por isso. Algo totalmente em desuso nos dias de hoje, como o filme mesmo mostra com a metáfora do plástico, de seres humanos encapados com receios de sentir, provar, viver.

A mensagem de amor não fica apenas no casal, mas também para o planeta através do personagem do oceanógrafo que está na plataforma para contar as ondas, mas se interessa por mariscos, ele diz acreditar que um dia a plataforma poderia ser transformada para a limpeza da água diminuindo os estragos causados pela extração de petróleo e diz para Hanna: "Eu continuo a pensar que algo vai ser feito..." Um comentário de esperança para todos nós, moradores do planeta Terra que ainda tem fé na salvação da espécie através do cuidado e proteção da nossa Mãe-natureza.

A direção e roteiro de Isabel Coixet são bem construídos nesse filme que retrata através de metáforas seres humanos que buscam mecanismos para se proteger e não serem tocados pelo amor. Também aplausos para as interpretações de Tim Robbins e Sarah Polley. Recomendo vários lenços na hora de assistir a trama, pois é impossível não se emocionar.
CineBlissEK




Curiosidades: 
  • A vida secreta das palavras é o segundo filme entre a diretora Isabel Coixet e a atriz Sarah Polley, o anterior foi "Minha vida sem mim" de 2003;

Ficha técnica:

A vida secreta das palavras (La vida secreta de las palabras)
2005, Espanha
Direção: Isabel Coixet
Roteiro: Isabel Coixet
Produção: Esther Gárcia, Pedro Almodóvar
Fotografia: Jean-Claude Larrieu
Elenco: Tim Robbins, Sarah Polley, Javier Cámara, Julie Christie

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Os contos de fadas que marcaram a minha infância



Como muitas crianças nascidas na década de 80 eu fui hipnotizada pelos clássicos desenhos da companhia Walt Disney, cada princesa, príncipe, boneco, sereia fizeram parte da minha infância como se realmente existissem na vida real, a forma como essas histórias se perpetuaram em meu imaginário fora marcante.

As princesas que foram despertas por seus príncipes, o boneco que queria ser de verdade, o peixe à procura de seu filho, a jovem que busca o caminho de volta para casa, contos de fadas que fazem parte do imaginário dos seres humanos e que foram lindamente trazidas as telas de cinema para o desfrute do público.

Mesmo agora adulta quando revejo alguma cena me emociono e sinto a minha criança interior vibrando com as tramas. Em homenagem a essa criança, decidi listar as dez melhores animações da Walt Disney que marcaram a minha trajetória como uma sonhadora dos contos de fadas.


Alice no país das maravilhas (Alice in Wonderland)
Direção: Clyde Geronimi, Hamilton Luske, Wilfred Jackson, 1951



Procurando Nemo (Finding Nemo)
Direção: Andrew Stanton, Lee Unkrich, 2003




A bela adormecida (Sleeping Beauty)
Direção: Clyde Geronimi, 1959




Cinderela (Cinderella)
Direção: Clyde Geronimi, Hamilton Luske, Wilfred Jackson, 1950



A Bela e a Fera (Beauty and the Beast)
Direção: Gary Trousdale, Kirk Wise, 1991



Branca de Neve e os sete anões (Snow White and the Seven Dwarfs)
Direção: David Hand, Larry Moey, Perce Pearce, Walt Disney, Wilfred Jackson,William Cottrell, 1937



Fantasia (Fantasia)
Direção: Bill Roberts, Ford Beebe, James Algar, Samuel Armstrong, 1940



A pequena sereia (The Little Mermaid)
Direção: John Musker, Ron Clements, 1989



O rei leão (The Lion King)
Direção: Robert Minkoff, Roger Allers, 1994

 

Pinóquio (Pinocchio)
Direção: Ben Sharpsteen, Hamilton Luske, 1940