quinta-feira, 29 de setembro de 2016

"Aquarius" evidencia a jornada de uma mulher resistente, com pinceladas sobre a sociedade brasileira


Imerso em polêmicas desde sua aparição no Festival de Cannes esse ano quando disputou à Palma de Ouro, o filme "Aquarius" (2016), do diretor Kléber Mendonça Filho (O som ao redor), estreou no dia 1 de setembro, nos circuitos nacionais de cinema. O longa, que vem conquistando o público brasileiro com sessões lotadas, não foi selecionado para representar o Brasil, na corrida do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, causando mais burburinhos sobre a trama e o atual momento político do país.

Representante do eixo pernambucano de cinema, "Aquarius", traz a bela Sonia Braga como Clara, no papel principal, uma jornalista crítica de música, aposentada, mãe de três filhos e moradora do Ed. Aquarius (prédio com vista para Praia de Boa Viagem), que desfruta de uma boa qualidade de vida. Sua tranquilidade, é desafiada com o aparecimento da construtora Bonfim, cujo intuito é comprar todos os apartamentos do edifício, para reconstruir outro empreendimento. Clara, contrariando os outros moradores, decide não vender seu espaço e continuar vivendo normalmente em sua residência, mesmo sendo a única pessoa a ocupar o local. 

Dividido em três capítulos, a narrativa foca na jornada de Clara, ao retratar um momento de seu passado ao lado do marido e familiares, para depois realçar no momento atual, no qual encontra-se viúva, avó e determinada à não vender seu apartamento. Com canções nacionais e internacionais, pontuando a historicidade da trama, tem-se a composição musical da trajetória dessa mulher, visivelmente moderna e de caráter resistente. Sonia Braga, está precisa em sua atuação, denotando uma expressão natural, bem como, simbolizando através de Clara, uma geração de mulheres que lutaram pelos seus direitos, e, atualmente, conseguem identificar algumas conquistas no meio social. Particularmente, o Brasil ansiava por essa imagem de mulher e heroína.

Como em sua obra anterior "O som ao redor", o diretor no novo longa, dá ênfase nas memórias do passado, com destaque para fotografias antigas, objetos do apartamento (armário;vinis) e, claro, nas melodias. Outro elemento semelhante utilizado por Kléber Mendonça Filho, são as imagens em preto e branco no início do filme, do qual no primeiro são de pessoas no meio rural e, em "Aquarius", da Praia de Boa Viagem. Por outro lado, o cenário que conduz a narrativa do último, concentra-se praticamente no apartamento de Clara, dando vazão para algumas cenas externas, em particular à praia. Enquanto que,  "O som ao redor", o núcleo é a rua de uma bairro de classe média alta de Pernambuco. 

Kleber Mendonça Filho, também responsável pelo roteiro do longa, aponta na história diversas discussões de cunho social do Brasil, pincelando um retrato da atual sociedade e, promovendo no espectador uma certa identificação ou desconforto, assim como, uma abertura para à reflexão e a provocação. À vista disso, "Aquarius" triunfa como um filme memorável na história do cinema nacional e merece ser apreciado por todos. 
CineBlissEK



Ficha técnica: 

Aquarius (Aquarius)
2016, Brasil
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Produção: Emilie Lesclaux, Michel Merkt, Saïd Ben Saïd
Fotografia: Fabrício Tadeu, Pedro Sotero
Elenco: Sonia Braga, Humberto Carrão, Carla Ribas, Irandhir Santos, Paula De Renon, Zoraide Coleto, Maeve Jinkings, Barbara Cohen 


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

"A comunidade" trilha caminhos de liberdade e amor, ao mesmo tempo, explora as vulnerabilidades das relações humanas


Thomas Vinterberg, diretor dinamarquês de "Festa em família" (1998), "A caça" (2012) e,  precursor do Movimento Dogma 95, presenteia o público com o seu mais novo filme "A comunidade" (2016), que concorreu ao Urso de Ouro em Berlim esse ano. A história, que se passa na década de 1970, flerta com as relações humanas, desde dos momentos saudáveis de puro contentamento, para o das fragilidades e desequilíbrios. Uma pincelada dos laços fraternos que são construídos e, fragmentados ao longo da vida.

Em "A comunidade", o casal Erik (Ulrich Thomsen) e Anna (Trine Dyrholm) ao herdarem a enorme casa de infância do primeiro, decidem convidar alguns colegas para morarem com eles, com intuito de dividirem as despesas e, concomitantemente, criarem laços fraternos de uma família. Anna, mais entusiasmada com a ideia, logo escolhe um amigo de longa data de ambos, para ser a primeira pessoa à participar dessa proposta libertadora. Junto de Freja (Martha Sofie Wallstrøm Hansen), filha do casal, os quatro, dão andamento no processo de seleção para habitar esse espaço coletivo. No total de sete adultos, uma adolescente e uma criança, essas pessoas acolhem com afeto o plano da comunidade.

À partir desse elo criando pelos integrantes, nota-se o desenvolvimento do suporte um ao outro, o respeito aos diferentes pontos de vista, a disposição para ouvir as necessidades de cada um, e, a aceitação da decisão da maioria para um convívio em harmonia. Num ambiente com esse tipo de proposta, observa-se um espaço para a fomentação da troca, supostamente, não dando licença para um dos temores do ser humano, a solidão.

Todavia, a sintonia do convívio dos moradores da casa, é surpreendida com ares mais pesados, frente à revelação do caso amoroso de Erik, com a jovem estudante Emma (Helene Reingaard Neumann). Com base nessa situação, Anna, dedica-se a demonstrar uma normalidade perante todos e a si mesma, sem permitir espaço para sentimentos que corroem sua alma. Como em "Festa em família", a comunhão na mesa de jantar, torna-se o ambiente perfeito para lavar-se a roupa suja, ali, Anna, desemboca a falar suas inseguranças, fantasias e desejos, gerando uma sensação de desconforto e tensão.

A atriz Trine Dyrholm, presenteia o espectador com uma atuação profunda e sensível - que lhe rendeu o Urso de Prata de Melhor Atriz -, pontuando de maneira significativa o labirinto de transformações, pelos quais Anna é submetida. A completa doação afetuosa de Anna, para o ideal da comunidade, fragmenta-se com a chegada de Emma,  demonstrando as fragilidades das relações humanas. A intensidade da luz, que em várias cenas recaí sobre a personagem, simboliza uma possível cegueira, perante os acontecimentos.

Com uma trilha sonora marcante, composta até por uma canção de Elton Jon, "A comunidade" ilumina o coração do espectador, de como seria uma jornada repleta de amor e liberdade, ao lado de pessoas queridas. No entanto, assim como na vida real, Thomas Vinterberg, introduz o outro lado da moeda, exteriorizando a vulnerabilidade, o medo e o apego do indivíduo. Certamente, um teste de provocação e comoção, o que torna o filme imperdível.
CineBlissEK



Ficha técnica: 

A comunidade (Kollektivet)
2016, Dinamarca/ Países Baixo (Holanda)/ Suécia
Direção: Thomas Vinterberg
Roteiro: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm
Produção: Morten Kaufmann, Sisse Graum Jørgensen
Fotografia: Jesper Tøffner
Elenco: Trine Dyrholm, Ulrich Thomsen, Fares Fares, Martha Sofie Wallstrøm Hansen, Helene Reingaard Neumann, Julie Agnette Vang, Magnus Millang

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

"Café Society", novo filme do diretor Woody Allen, é um mergulho no glamour dos anos 30 em Hollywood e Nova Iorque


O octogenário cineasta americano, Woody Allen (O homem racional; Meia-noite em Paris), estreou no final de agosto (25), seu mais recente filme "Café Society" (2016), nos circuitos nacionais de cinema. O longa, que abriu o Festival de Cannes esse ano, apresenta através de um romance leve, atraente e divertido, as expectativas depositadas em relações amorosas e as escolhas feitas por cada um dos envolvidos. Dividido entre as cidades de Nova Iorque e Los Angeles, o diretor, manteve-se fiel aos elementos marcantes de sua carreira, sem surpreender o público, e sim, em retratar uma narrativa açucarada, pinceladas nas idas e vindas do amor. 

Para essa empreitada romântica retratada na década de 1930, o diretor dispões da fotografia estonteante de Vittorio Storaro - numa tonalidade amarelada -, em prol de apresentar a jornada do jovem ingênuo, Bobby (Jesse Eisenberg), quando este decide se mudar de Nova Iorque, para tentar a vida na ensolarada Los Angeles. Nesse novo ambiente, Bobby busca pela ajuda do seu tio Phil (Steve Carell), um empresário de estrelas de Hollywood, que após dar um chá de cadeira no rapaz, permite que ele trabalhe no escritório, como mensageiro. Concomitantemente, incumbe sua secretária Vonnie (Kristen Stewart), a tarefa de acompanhar Bobby pela nova cidade. 

Bobby e Vonnie, logo começam a desfrutar de bastante tempo juntos, passeando por Los Angeles, visitando diversos lugares e debatendo sobre a alta sociedade de Hollywood. Com discursos parecidos e afinidade em abundância, Bobby declara sua paixão por Vonnie, mesmo sabendo de sua relação com outro homem. A jovem, lisonjeada com a confissão, afirma seu comprometimento com o namorado misterioso, no qual, Bobby descobre futuramente, ser o seu tio Phil. Armado o triângulo amoroso, Vonnie é pressionada a decidir com quem ficar.

Através dessa decisão, a trama volta para Nova Iorque, onde aprofunda-se na família tipicamente judaica de Bobby, em particular seu irmão Ben (Corey Stoll), um gangster que possui um certo senso de humor, do qual arranca boas risadas do espectador. 

Woody Allen, mais uma vez oferece ao seus fãs, um deleite de diálogos sarcásticos e inteligentes, focando em questões já trabalhadas pelo cineasta, como a cultura judaica, a morte, a paixão por Nova Iorque, e, as relações amorosas. Essa última, continua sendo a força motriz do diretor, alimento de alegrias, encantamentos, desejos e também de decepções e tristezas. Na trilha sonora, vale salientar, há um excelente repertório de jazz, embalando o coração de Bobby e de todo público.

Jesse Eisenberg, que atua pela segunda vez em um filme de Woody Allen - o primeiro foi em "Para Roma com amor"- consegue convencer o inconfundível estereótipo de protagonista do cineasta, com as neuroses, crises e dosagens precisas de humor. Já o diretor, em "Café Society" prefere o caminho já trilhado, sem sair de sua zona de conforto. Para os fãs de carteirinha, fica aquele gostinho de saudosismo de longas anteriores.
CineBlissEK 




Ficha técnica: 

Café Society (Café Society)
2016, Estados Unidos
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Produção: Edward Walson, Letty Aronson, Helen Robin, Stephen Tenenbaum
Fotografia: Vittorio Storaro
Elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Steve Carell, Blake Lively, Corey Stoll, Parker Rosey, Paul Schneider