quarta-feira, 27 de março de 2019

O terror de Jordan Peele, "Nós", já desponta como um dos melhores filmes de 2019


O diretor e roteirista de "Corra!" (2017), Jordan Peele, ganhador do Oscar de Melhor Roteiro em 2017 por esse filme, lançou recentemente nos cinemas seu mais novo trabalho, "Nós" (2019). O longa-metragem que já vem arrecadando milhões de dólares de bilheteria, é novamente nutrido pelo gênero do terror como no título anterior já citado acima e apresenta diversos aspectos simbólicos. Se no primeiro a problemática está relacionada a questão da raça, no segundo a provocação se dá no âmbito submerso de um universo desconhecido da sociedade norte-americana: o que habita nos inúmeros túneis dos Estados Unidos. 

A história se concentra no casal Adelaide Wilson (Lupita Nyong's) e Gabe Wilson (Winston Duke) e seus filhos, quando viajam para a casa de praia em Santa Cruz, na Califórnia.  Mesmo assombrada por um trauma do passado envolvendo o labirinto de uma casa de espelhos de um de parque de diversão na mesma praia, Adelaide, à contragosto decide acompanhar a família para desfrutarem de um dia frente ao mar junto ao casal de amigos, Josh (Tim Heidecker) e Kitty (Elisabeth Moss). Contudo, com a chegada da noite, situações estranhas começam a acontecer na casa. O que era um ambiente de tranquilidade, ganha outras proporções quando a tensão toma conta de todos ao surgirem quatro pessoas desconhecidas, sem serem convidadas e semelhantes a cada um deles. Quando questionados sobre quem são, eles dizem: "Somos americanos". 

Mesmo que o roteiro - também assinado por Jordan Peele - seja um tanto quanto explicativo na parte final, há de se enaltecer a qualidade técnica de conseguir segurar a tensão do espectador até o fim e, na criatividade e ousadia em expor uma trajetória de horror social ligada aos oprimidos e sem poder de fala. Numa possível metáfora para o esfacelamento do 'sonho americano', orquestrada por uma trilha sonora cujo efeito causa pavor e apreensão. 

Nessa perspectiva, também vale a pena destacar a potente performance de Lupita Nyong's que entrega um trabalho de linguagem corporal, olhar enigmático e amedrontador de um modo primoroso. Uma provável tradução do âmago da tensão existente da dualidade de mundos retratadas no filme entre os afortunados que vivem na presença da luz e, os excluídos residentes nos túneis tomados pela escuridão.

O contexto de visualizar a imagem de si mesmo surte o efeito em evidenciar o outro lado dos personagens, ou seja, a versão obscura de cada um, cujo intuito é emergir para superfície e ocupar o lugar de seu semelhante. Vestidos com uniformes vermelhos, esta corrente do 'mal' coletivo, desperta o maior inimigo de todos, a própria sombra.  Essa sombra encarada como arquétipo na psicologia analítica, carrega em si certos aspectos desagradáveis e imorais de nós mesmos que gostaríamos de fingir que não existem ou simplesmente esconder, pois contradiz com aquela pessoa com a qual gostaríamos de nos ver. Esconder ou fingir a existência 'desse lado negro da força' é justamente a matéria-prima da obra de Peele.  

Outro mérito do diretor pode ser observado em planos de puro requinte, como por exemplo, no começo do filme quando os quatro membros da família Wilson chegam à praia e a câmera os acompanha em um ângulo de cima para baixo focando na sombra de cada um. Ou em uma das sequencias finais, no cenário subterrâneo de uma sala de aula em que Adelaide está no plano de fundo e sua imagem uniformizada de vermelho escreve na lousa e discursa, em primeiro plano. Jordan Peele, com este segundo longa-metragem no currículo desponta para um futuro promissor em Hollywood. 
CineBliss*****





Ficha técnica:

Nós (Us)
Estados Unidos, 2019
Direção: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Produção: Jason Blum, Sean McKitrick, Jordan Peele
Elenco: Lupita Nyong's, Winston Duke, Elisabeth Moss, Tim Heidecker, Anna Diop, Evan Alex

quinta-feira, 21 de março de 2019

"Um banho de vida" é o antídoto de otimismo perfeito para injetar em tempos difíceis


As notícias que assolam o Brasil e o mundo não são das mais positivas, muitas vezes resta as pessoas se esconderem no escurinho do cinema e torcerem para a história proporcionar alguma dosagem de esperança e afeto. No caso do filme francês que estreia hoje nos cinemas "Um banho de vida" (2018), do diretor Gilles Lellouche, que integrou a seleção oficial 'fora de competição' do Festival de Cannes em 2018, essa dosagem vem acompanhada de pitadas de redenção, otimismo, união e, muito bom humor.

Na comédia misturada com drama, o depressivo Bertrand (Mathieu Amalric) está com seus mais de 40 anos de idade, há quase dois anos sem trabalhar, dependente de vários remédios e imerso em uma crise existencial. Em um arranjo de destino, ele começa a praticar nado sincronizado masculino, em uma piscina do bairro, sob o comando de Delphine (Virginie Efira), uma ex-atleta de sucesso que sofre com alcoolismo. Ao lado dos praticantes de nado Marcos (Benoît Poelvoorde), Laurent (Guillaume Canet), Simon (Jean-Hugues Anglade), Basile (Alban Ivanov) e Thierry (Philippe Katerine), Bertrand começa a vislumbrar uma luz no fim do túnel para o seu distúrbio. 

Por sua vez, cada um desses homens também encontram-se imersos em problemas sejam eles financeiros, amorosos, familiares ou de saúde. Desse forma, eles decidem se inscreverem para participarem do Campeonato Mundial de Nado Sincronizado, na Noruega. 

Dominados pelas sensações de frustrações e fracassos, esses personagens encontram em uma prática esportiva considerada para mulheres, um novo propósito de vida. Não só isso, através da dedicação e força de vontade eles começam a despertar o lado feminino de cada um, como se estivessem reordenando seus aspectos masculinos frente às transformações das mulheres na sociedade ocidental. 

Ao estarem despidos de suas vestimentas - apenas com a sunga e a toca -, em um ambiente de vulnerabilidade como o banheiro após os treinos, esses homens discutem sobre suas vidas sem julgamentos e plantam sementes para uma nova compreensão de suas jornadas e uma nova perspectiva de se relacionar com o sexo oposto. Como por exemplo, Simon em sua busca de aproximar-se da filha, Laurent em aceitar a mãe doente e Bertrand em fazer sexo com sua esposa.  

O roteiro primorosamente bem construído, apresenta a quantidade precisa tanto na dramaticidade ao aprofundar os dilemas dos personagens quanto na carga de jocosidade expressa em diversas sequencias. A cena em que alguns membros do grupo se deslocam para uma loja de departamento para adquirir os uniformes, é de puro êxtase e gargalhada. 

A entrega de cada ator em mesclar rigor técnico com carisma a toda prova, proporciona um banho de entrosamento e bom humor, trazendo a superfície alguns temas um tanto quanto em desuso atualmente como a ligação afetiva, a cumplicidade e a superação. Como acontece em uma das sequencias finais, em que todos os homens estão dentro da piscina fazendo a apresentação, e, a câmera registra os corpos unidos embaixo da água, demonstrando um retrato honesto das relações humanas unidas para um bem comum, embalada ao som de "Easy lover", de Philip Bailey e Phil Collins.

Sem sombra de dúvida, "Um banho de vida" é muito mais que um banho é uma enxurrada de positividade, leveza e amor, o que o torna imperdível para nutrir o coração do espectador em tempos sombrios e incertos. 
CineBliss*****


Ficha técnica: 

Um banho de vida (Le  Graind Bain)
Bélgica, 2018
Direção: Gilles Lellouche 
Roteiro: Ahmed Hamidi, Gilles Lellouche, Julien Lambroschini
Produção: Alain Attal, Hugo Sélignac, Patrick Quinet
Fotografia: Laurent Tangy
Montagem:  Simon Jacquet
Elenco: Mathieu Amalric, Benoît Poelvoorde, Guillaume Canet, Jean-Hugues Anglade, Alban Ivanov, Virginie Efira, Philippe Katerine

quinta-feira, 14 de março de 2019

"Um amor inesperado" contempla o apetite de um casal recém-separados em buscar novas aventuras


O galã argentino Ricardo Darín, retorna as telas de cinema a partir de hoje com a estreia de seu mais recente filme "Um amor inesperado" (2018), do diretor Juan Vera. Na comédia romântica, o ator dá vida a Marcos, um professor casado há mais de 20 anos com Ana (Mercedes Móran). Após a saída do filho de casa para morar em outro país, os dois se deparam com a experiência do ninho vazio, da monotonia do casamento e da falta de desejo. Para solucionarem a situação decidem se separar amigavelmente e, dessa forma, cada um seguir seu caminho. Tanto Marcos quanto Ana embarcam em vivenciar inusitadas aventuras como baladas, aulas de dança, utilização do aplicativo Tinder, sexo casual e entre outros. 

Com protagonistas com mais de 60 anos de idade que demonstram estarem em plena forma física e com apetite para buscar novos desafios, a narrativa proporciona um olhar divertido e destemido sobre recomeços nessa fase da vida. Em particular na questão afetiva, já que os dois passaram décadas com o status de casados e, agora, vivenciam estar solteiros e anseiam por explorar seus desejos adormecidos. Algo um tanto quanto ousado para o gênero cinematográfico, já que em sua maioria as tramas retratadas com pessoas dessa idade constituem de personagens enfermos ou quase morrendo e, não despertos para ver a jornada com olhos curiosos e vivacidade para experimentar outras façanhas.

Por outro lado, o roteiro que se inicia engendrado em diálogos profundos sobre a intimidade da vida a dois e a sexualidade, enfraquece quando separa o casal e apresenta sequencias um tanto quanto superficiais como Darín se aventurando em um bar para conhecer uma estranha do aplicativo Tinder, ou Móran, após vivenciar um ato sexual casual, sair caminhando pela rua de vestido vermelho como se fosse uma campanha publicitária. 

Mesmo assim é inegável a química e o carisma de Ricardo Darín e Mercedes Móran, ambos em plenitude de suas capacidades interpretativas, o que contempla o espectador com performances sinceras e profundas de como encarar o corpo, o sexo, a morte, a solidão e o amor na fase de progressivo envelhecimento. Todos esses temas são nutridos de uma bela pitada de humor.
CineBliss ***
#Filme visto no Festival do Rio 2018




Ficha técnica: 

Um amor inesperado (El amor menos pensado)
Argentina, 2018
Direção: Juan Vera 
Roteiro: Daniel Cúparo, Juan Vera
Produção:  Chino Darín, Christian Faillace, Federico Posternak, Juan Pablo Galli, Juan Vera, Ricardo Darín
Fotografia: Rodrigo Pulpeiro
Montagem: Pablo Barbieri Carrera
Elenco: Ricardo Darín, Mercedes Morán