quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Comemoração ao meu aniversário com Pina


"Dance, dance otherwise we are lost" (Pina Bausch)

Pensei qual filme poderia representar a celebração de mais um ano de vida para mim, milhares de histórias cinematográficas vieram em minha cabeça, selecionei algumas contudo o que mais me tocou foi o visto recentemente "Pina" do Wim Wenders ao qual o diretor alemão faz um documentário/musical para Pina Bausch, uma das maiores coreógrafas que o mundo já conheceu.

O documentário lançado em  2011 no Festival de Berlim traz o conjunto Tanztheater Wuppertal com demonstrações de tirar o fôlego da arte da dança com imagens e coreografias impossíveis de não se emocionar. Alguns dançarinos relatam como era trabalhar com Pina e suas formas de buscar o melhor de cada um deles, outros preferem apenas ficar em silêncio e se expressarem com os movimentos. Cada um desses artistas mostram através da dança elementos como amor, dor, sofrimento, felicidade, perda, leveza, entre outros que foram característicos nos trabalhos de Pina.

Como muitos dos dançarinos descrevem, Pina estava sempre em busca do que os moviam, da profundidade de seus interiores, do que cada um carregava em suas almas e através desse sentimento representar com movimentos. 

No início do documentário à apresentação das quatro estações da natureza (primavera, verão, outono e inverno) com belíssimas coreografias, nada mais simbólico pois é justamente como nossas vidas são regidas quando aceitamos que para tudo há momento de recolhimento como no inverno ou de colher como na primavera, vemos a vida como ciclos, de vida-morte-vida.

Há dois momentos interessantes para qualquer brasileiro, o primeiro é a dança de um bailarino ao som de Caetano Veloso com "O Leaõzinho" e da dançarina brasileira Regina Advento que faz a homenagem a Pina falando em português e com movimentos de leveza.

O documentário além de ser imagem em movimento da dança também é uma celebração da vida, da experiência de se estar vivo, seja na dor ou seja no prazer.
CineBlissEK




Selecionei algumas cenas que para mim são lindas:






Curiosidades:

  • O documentário foi baseado em três trabalhos de Pina Bausch: Café Muller, Le Sacre du printemps e Vollmond
  • Pina Bausch morreu em 2009 e trabalhou por 35 anos na cidade de Wuppertal
  • Indicado ao Oscar de documentário em 2012

Ficha Técnica:

Pina (Pina)
2011,  Alemanha
Direção: Wim Wenders
Roteiro: Wim Wenders
Produção: Erwin M. Schmidt, Gian-Piero Ringel, Wim Wenders
Fotografia:  Hélèna Louvart

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Billy Elliot no "caminho da mão esquerda"



O estudioso norte-americano de mitologia Joseph Campbell formulou que na vida há dois caminhos principais: o "caminho da mão direita" que é prudente e prático, mas nas palavras de Campbell "você pode seguir esse caminho, subir pela escada do sucesso e descobrir que essa escada está apoiada na parede errada". Já o outro caminho descrito pelo pesquisador é o "caminho da mão esquerda", caracterizado como o mais arriscado "... ele é o caminho em que a pessoa, na frase famosa de Campbell, busca sua própria felicidade, o seu entusiasmo, o seu êxtase. Embora a cultura talvez não compreenda essa escolha e não haja nenhuma garantia a respeito da parede à qual este caminho irá conduzir, a escolha do caminho da mão esquerda vale a pena porque a própria jornada é sua recompensa". (O despertar do herói interior)

Em Billy Elliot de 2000 o primeiro longa metragem do diretor Stephen Daldry é nítido esses dois caminhos descritos por Campbell. Billy (Jamie Bell) de 11 anos de idade é incentivado por seu pai a praticar boxe e talvez se tornar um minerador como todos os homens da família, um caminho prático e já percorrido pelos membros familiares. Porém o garoto recebe seu chamado através da dança quando a Sra. Wilkinson (Julie Walters) instrutora de balé começa a dar aulas no mesmo espaço em que ele pratica boxe.

Aceitar o chamado de pendurar as luvas de boxe para calçar as sapatilhas significa para Billy ir contra toda família dominada pelo masculino e também sua comunidade que vê o ato da dança praticada por homem com preconceito. Nesse espaço masculinizado com predominância da força física e violência há em Billy a sensibilidade de querer buscar o caminho da mão esquerda, mesmo sem saber qual as consequências dessa opção. Em seu primeiro contato com a dança, enquanto pratica boxe ele ouve a professora dizer "mão esquerda na barra", o que faz ele bater no saco de areia de uma forma coreografada, como se abrisse sua alma para o despertar de sua vocação.

A dura realidade da cidade de Billy, norte da Inglaterra, que se encontra em greve dificulta ainda mais a realização do seu sonho, pois tanto seu pai quanto seu irmão são os líderes da paralisação dos mineiros. Em uma belíssima cena mostra Billy dançando com uma leveza e o contraponto da greve com sua dureza.

Quando Billy junto com a professora vão se matricular para o teste que pode permitir a entrada do garoto numa escola de balé, eles atravessam uma ponte ao som da ópera "Lago do Cisne" do Tchaikovsky, um atravessar do linear, como caracterizado por Campbell quando o herói aceita seu chamado, saí do seu mundo comum para o desconhecido, tendo a ponte simbolizando esse movimento.

A jornada de Billy através da dança além de ser um talento é como trazer a sensibilidade, a leveza, o feminino para sua vida, elementos estes que não são presentes nas figuras masculinas de sua família e no trabalho que estes exercem.

No filme a cor azul é predominante, talvez como uma representação da cor do mar com sua grandeza e infinitas possibilidades de ir e vir, tanto que uma cena Billy sobe a colina de asfalto dançando com o mar e um barco como pano de fundo. Ele machucado na perna por não poder seguir seu chamado dança na dureza do asfalto com um fundo representando a liberdade. Há também a questão das grades, elemento utilizado em vários momentos do filme, seja nas aulas de dança ou no ônibus que carrega os trabalhadores da mina, como se fosse o sistema aprisionando a jornada de Billy.

O riso, o apoio a Billy, as lágrimas são fatores que cada pessoa carrega ao assistir Billy Elliot, pois é impossível não se emocionar em algumas cenas, em especial a que o pai indo contra suas convicções decide voltar ao trabalho para poder dar a oportunidade de Billy ir a Londres fazer o teste.

Nessa jornada cinematográfica é evidente os obstáculos, as barreiras, que cada herói precisa enfrentar para seguir o caminho da mão esquerda sem saber qual será o resultado, mas mesmo assim acreditar e ir em frente, no caso de Billy, se resulta num final emocionante e de sucesso. Para esse final o diretor gravou as cenas no próprio teatro londrino durante as apresentações do Lago do Cisne de Matthew Bourne com o ator/bailarino Adam Cooper.
CineBlissEK



Curiosidades:
  • Exibido no Festival de Cannes de 2000 com o título Dancer 
  • Ganhador de 3 prêmios BAFTA: Melhor Filme Britânico; Melhor Ator (Jamie Bell); Melhor Atriz Coadjuvante (Julie Walters)
  • Indicado a 3 Oscars: Melhor Diretor; Melhor Atriz Coadjuvante (Julie Walters); Melhor Roteiro Original 

Ficha Técnica:

Billy Elliot (Billy Elliot)
2000, Reino Unido
Direção: Stephen Daldry
Roteiro: Lee Hall
Produção: Greg Brenman, Jon Finn
Fotografia: Brian Tufano
Elenco: Gary Lewis, Jamie Bell, Jean Heywood, Jamie Draven, Julie Walters

Bibliografia:

PEARSON, Carol S. O despertar do herói interior.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Confira algumas dicas para 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que começa hoje



Começa hoje a 38ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que acontece até o dia 29 de outubro. Serão ao todo 331 títulos espalhados por 35 salas da capital. O filme de abertura "Relatos Selvagens" do diretor Damián Szifron com produção do cineasta Pedro Almodóvar será exibido hoje no auditório do Ibirapuera para convidados.

O homenageado esse ano é o diretor espanhol Pedro Almodóvar que assina o pôster da 38ª Mostra Internacional mas não estará presente por ter passado recentemente por uma cirurgia nas costas e está impedido de fazer longas viagens de avião. Ao todo 15 dos 20 filmes que dirigiu serão apresentados nas duas semanas de festival.

A Mostra também traz uma homenagem aos 100 anos do personagem Carlitos de Charles Chaplin com uma sessão gratuita ao ar livre no Parque do Ibirapuera, no dia 1 de novembro com o último filme mudo "O circo" de 1928. A versão restaurada terá a trilha apresentada pela Orquestra Experimental de Repertório da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.
  
Para mais informações acesse: 38.mostra.org

Confira algumas dicas de filmes que serão exibidos durante o festival:

Relatos selvagens (Relatos salvajes)
Direção: Damián Szifron, 2014, Argentina/Espanha



10.000 noites em lugar nenhum (10.000 noches en ninguna parte)
Direção: Ramón Salazar, 2014, Espanha




A história da eternidade 
Direção: Camilo Cavalcanti, 2014, Brasil



Entre Mundos (Zwischen Welten)
Direção: Feo Aladag, 2014, Alemanha



Mais perto da lua (Closer to the moon)
Direção: Nae Caranfil, 2013, Romênia, EUA, Itália, Polônia



Pare ou eu sigo em frente (Arrête ou je continue)
Direção: Sophie Fillières, 2014, França



O círculo (Der Kreis)
Direção: Stefan Haupt, 2014, Suíça



O jantar (Het diner)
Direção: Menno Meyjes, 2013, Holanda



segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Considerações sobre o Festival do Rio 2014

O Festival do Rio 2014 foi a primeira vez que participei de um festival de cinema com oportunidade de assistir vários filmes, uma maratona cinematográfica, foram filmes de diferentes nacionalidades vistos durante uma semana. Procurei ir às sessões de filmes sem ler as sinopses de nenhum deles, deixei ser guiada pela intuição e ser surpreendida pelas obras. Foi uma sensação maravilhosa estar em contato com esse universo que me desperta uma grande paixão.

Dentre os filmes vistos alguns me fascinaram ao ponto de ficar refletindo sobre eles durante horas, dessa forma fiz a seleção de alguns filmes que marcaram para mim o Festival do Rio.

Na cadencia do amor (Lilting)
Direção: Hong Khaou, 2013, Reino Unido
Elenco: Ben Whishaw, Cheng Pei Pei, Peter Bowles, Andrew Leung

A beleza do amor está no fato de refletir em todas as pessoas de diferentes formas, seja em um relacionamento amoroso, na amizade ou com familiares. No filme "Na cadencia do amor" o diretor Hong Khaou retrata a forma de amar  entre dois tipos de relações: mãe/filho, e um casal homossexual.

Após a morte inesperada do jovem Kai, seu namorado inglês Richard busca uma  aproximação com sua sogra a cambojana Junn que mora em uma casa de repouso em Londres. Junn em seu processo de imigração não aprendeu a língua inglesa e seu filho era para ela a única pessoa com a qual conseguia se comunicar, com sua morte a comunicação entre ela e Richard se torna quase impossível. Para superar esse obstáculo, Richard contrata uma tradutora para ajudá-lo em se expressar com Junn. Nesse elo de aproximação os dois falam da saudade que sentem do Kai e como o amavam.

*Ganhador do prêmio de melhor fotografia no Sundance Film Festival 2014



O homem mais procurado (A most wanted man)
Direção: Anton Corbijn, 2014, Reino Unido/ Estados Unidos/Alemanha
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Rachel McAdams, Grigoriy Dobrygin, Willian Dafoe, Robin Wright

O filme é uma adaptação do romance de John Le Carré ao qual retrata a busca do espião Gunther por Issa, um imigrante checheno-russo que chega em Hamburg (Alemanha) sem nenhum documento para resgatar uma certa quantia de dinheiro herdado de seu pai, para isso ele conta com a ajuda da jovem advogada Annabel.

Para os alemães e americanos Issa não passa de um terrorista que precisa ser preso o quanto antes, mas Gunther prefere estudá-lo melhor e dessa forma atingir outro alvo que envolve um esquema de remessa de dinheiro entre um filantropo muçulmano e um grupo terrorista.

Um típico filme de espionagem que traz várias reviravoltas, a sensação de não saber quem está falando a verdade e principalmente em quem confiar. Um dos últimos filmes do ator falecido este ano Philip Seymour Hoffman.



Pessoas-pássaro (Bird people) 
Direção: Pascale Ferran, 2014, França
Elenco: Anais Demoustier, Josh Charles, Roschdy Zem

Após sair de uma reunião em Paris o norte-americano Gary vê um acidente de carro que o afeta de uma forma sem precedentes. Ele em um hotel perto do aeroporto começa a se perguntar se todo estresse do trabalho, do casamento realmente valem a pena. O jovem decide mudar sua vida completamente abandonando tudo, essa mudança causa desconforto para as outras pessoas envolvidas.

Na mesma situação se encontra a jovem Audrey, camareira no mesmo hotel que está hospedado Gary. Ela também se vê esgotada fisicamente do trabalho e procura uma fuga da sua realidade, que ao contrário de Gary, acaba sendo de uma forma sobrenatural. Ambos buscam mecanismos de escapatória da rotina do estresse e nada mais simbólico utilizado no filme, do que um pássaro representando a liberdade.

*Exibido na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes 2014




O presidente (The president)
Direção: Moschen Makmalbaf, 2014, Geórgia/França/Reino Unido/Alemanha
Elenco: Dachi Orvelashvili, Misha Gomiashvili

Em um país de origem desconhecida o presidente e seu neto buscam várias formas de escapar dos rebeldes que assumiram o poder depois de um golpe de Estado. Disfarçados de músicos de rua os dois atravessam o país se confrontando com a dura realidade de seu povo. Para amenizar as cenas de crueldade da guerra o diretor utiliza da arte como música, dança na fuga dos dois. E do humor como alívio para a violência constante das pessoas.

A fotografia se destaca pelo tom cinza que perpassa quase o filme todo, apenas contrapondo com cenas do passado quando há mais cores. Uma forma de retratar a dificuldade de um país em guerra. 

É nítido nas figuras do presidente e seu neto a simbologia do velho x novo, de quando certos ideais precisam ser mortos para que o novo possa surgir. Assim como uma crítica ao poder, ao acúmulo de riquezas, a forma de governar ditatorial.Tanto que em uma das cenas do filme um grupo de rebeldes pergunta o que fazer com o presidente, um deles diz "vamos fazer ele dançar para a democracia".

*Filme de abertura da mostra Horizontes,Veneza 2014




Titli (Titli)
Direção: Kanu Behl, 2014, Índia
Elenco: Ranvir Shorey, Shashank Arora, Shivani Raghuvanshi

Em uma família pobre indiana dominada pelo universo masculino vive Titli, um rapaz que não aguenta mais a forma como seus irmãos vivem e se expressam sempre de maneira violenta. Em um de seus planos para fugir da realidade acaba sendo forçado por seus irmãos a se casar com Neelu, uma jovem que carrega um segredo.

Titli e Neelu elaboram um plano que ajudará ambos a saírem da brutalidade que o cercam e quebrar as raízes familiares de Titli de suas vidas. Contudo nem sempre a fuga significa uma forma de se estar livre, mas sim o enfrentamento do ciclo familiar.

*Exibido na mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes 2014.



A hard day's night: os reis do iê iê iê (versão restaurada)
Direção: Richard Lester, 1964, Reino Unido
Elenco: John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Ringo Starr

Em uma cópia restaurada do sucesso de público e crítica na época de seu lançamento o filme do diretor Richard Lester retrata de forma fictícia a rotina dos jovens de Liverpool no auge da beatlemania. Com suas agendas lotadas de shows e entrevistas, fugas de fãs, os ingleses John, Paul, George e Ringo interpretam a si mesmos e passam a ideia de como é ser um jovem no show business.
A figura do avô de Paul no filme perpassa o aspecto da liberdade que eles não têm, por estarem a todo momento cercado de pessoas e compromissos.

Com sucessos de "Can't buy me love", "I should have known better", "If I fell" entre outros, o filme traz sequencias musicais que para muitos são consideradas como os primeiros videoclipes da história.

O que mais me chamou atenção foi ver a sessão lotada em plena quarta-feira a tarde para a exibição do filme, demonstrando a influência que "The Beatles" tiveram e ainda tem nas pessoas e suas futuras gerações.



Os mais jovens (Young Ones)
Direção: Jake Paltrow, 2013, Estados Unidos
Elenco: Michael Shannon, Nicholas Hoult, Elle Fanning, Kodi Smit-McPhee

O tema da água já era preocupante algumas décadas atrás, mas agora demonstra ser um agravante em todas as sociedades, o filme "Os mais jovens" retrata justamente esse fator da falta de água em uma terra estéril num futuro não tão distante. A dificuldade da família de Ernest de viver em uma realidade sem um dos maiores recursos naturais, mostra como o ser humano pode ser  brutal para conquistar ou defender sua terra, água ou qualquer outro meio de sustento.

Ernest que defende sua terra com a ajuda de seus filhos Jerome e Mary se torna alvo do namorado de sua filha que tem outros planos para as terras da família.