segunda-feira, 18 de abril de 2016

"Soul Kitchen" conquista pela simpatia e carisma dos personagens


Sabe aquele momento na vida onde nada dá certo, tudo parece esfacelar-se em questões de segundos sem perspectiva de melhoras, para o trapalhão e desastrado cozinheiro e dono do restaurante "Soul Kitchen" mesmo nome do filme, é justamente essa etapa da jornada ao qual ele encontra-se. Lançado em 2009 pelo diretor alemão Fatih Akin (Contra a parede; Do outro lado), a narrativa apresenta de um modo irônico e divertido, as dificuldades de um herói fora do convencional, que busca de todas as maneiras possíveis manter seu restaurante peculiar em meio a um "inferno astral".

Hamburgo, mais especificamente num área industrial, encontra-se o restaurante "Soul Kitchen" cujo dono é o jovem Zinos Kazantsakis (Adam Bousdoukos), suas artimanhas em administrar e cozinhar no estabelecimento divide-se com sua namorada Nadine (Phéline Roggan), que está prestes a embarcar para China numa viagem profissional sem data de volta. Essa situação é apenas o começo de diversas enrascadas ao qual a personagem depara-se nessa conturbada trajetória. Seu irmão Illias (Moritz Bleibtreu) ao sair da prisão pede-lhe um emprego de fachada, Zinos fratura a coluna ao tentar mudar a máquina de lavar louça do lugar e precisa contratar outro chefe para assumir sua posição, também enfrenta problemas com a vigilância sanitária e tributos do governo, e para aumentar seu caos, um amigo de infância resolve fazer jogo sujo para comprar sua propriedade.

Todos esses elementos de pura confusão são encaixados na jornada de Zinos, criando uma atmosfera de tragédia, porém com foco totalmente voltado para a comédia, o humor e divertimento. Algumas cenas chegam a ser exageradas, como a do resgate da escritura do restaurante ou do afrodisíaco na sobremesa servido para os clientes. No entanto, essas demasias não deixam de atrapalhar o objetivo da obra que é entreter seu público com alegria. 

O restaurante "Soul Kitchen", além de ser um personagem em si do filme é o local onde a maioria das cenas ocorrem, reúne pessoas de diferentes tribos para alimentar-se de "comida para alma", expressão utilizada na narrativa, e de ótimas músicas que presenteiam o público com uma trilha sonora de excelência. Os diálogos por sua vez, tornam-se confusos em alguns momentos, todavia sem deixar de evidenciar a simpatia dos personagens que conquista o espectador de imediato, na torcida para um desfecho lúcido e sereno da história. Vale a pena deliciar-se e divertir-se com a vida aos avessos de Zinos, afinal rir nunca é demais.   




Ficha técnica:

Soul Kitchen (Soul Kitchen)
2009, Alemanha/França/Itália
Direção: Fatih Akin
Roteiro:  Adam Bousdoukos, Fatih Akin
Produção: Klaus Maeck
Fotografia: Rainer Klausmann
Elenco: Adam Bousdoukos, Phéline Roggan, Moritz Bleibtreu

quinta-feira, 14 de abril de 2016

"Mais forte que bombas" revira as dores deixadas pelo luto


O luto na sociedade Ocidental é um tema com pouco espaço para discussão, compreensão e aceitação, para o diretor norueguês Joachim Trier (Oslo, 31 de agosto) a questão da morte é o mote para seu novo trabalho "Mais forte que bombas" (2015), que concorreu ao Palma de Ouro em Cannes ano passado. O filme, lançando em circuito nacional na última quinta-feira (7), apresenta uma família esfacelada devido ao falecimento da mãe, a fotógrafa Isabelle Reed (Isabelle Huppert). O pai Gene (Gabriel Byrne) e seus dois filhos, Jonah (Jesse Eisenberg) e Conrad (Devin Druid), vivenciam a complexidade desse fato através da falta de comunicação entre eles. 

Como homenagem a composição do trabalho fotográfico de Isabelle feito em áreas de conflito ao redor do mundo, uma agência decidi reunir todo seu material e criar uma exposição. Esse fato, faz com o filho mais velho Jonah, casado e com filho, volte para a casa do pai, com a tarefa de ajudar a organizar as imagens. Gene, vê nessa situação uma chance de aproximação com os filhos e uma possível conversa sobre a verdadeira causa da morte de sua esposa. Todavia, Conrad e Jonah não estão abertos para essa comunicação, e cada um, tenta esconder seus reais sentimentos.

Num cenário onde não se vê uma comunhão entre os três, como por exemplo uma refeição juntos, o diretor proporciona uma reflexão sobre essa ausência de comunicação e afeto de pessoas tão próximas. Gene, não consegue dialogar com Conrad, cuja inquietações juvenis o faz passar muito tempo na frente do computador com jogos violentos. Ao mesmo tempo, esse pai também tenta uma conexão com Jonah, sem sucesso. Como falar sobre o luto se as pessoas envolvidas procuram absorverem-se com assuntos diversos para não resgatar a dor. Como desbloquear essa tristeza se não há espaço para interação. Esse ciclo vicioso cria um afastamento ainda maior na família, onde cada um relembra a figura da mãe de uma maneira diferente. 

Através de uma narrativa não linear, o filme também exploração a personagem de Isabelle tanto como profissional (com imagens chocantes de guerras) quanto como uma mãe afetuosa e uma esposa zelosa. Os episódios com a família retrata uma mulher com impasses para encontrar-se em sua própria casa, de pertencer aquele núcleo, mas que ao mesmo tempo carrega feridas visíveis e ocultas de sua profissão viciante.

A elegante fotografia com closes em praticamente todas as cenas, perpassa através dos olhos a dor de cada personagem e a incomunicabilidade de desabafar o sofrimento. A magnífica montagem através do ritmo lento, oferece mais ênfase nesse processo de "vida-morte-vida" elaborando um certo ar poético. Como no belíssimo começo do filme, onde Jonah segura a mãozinha de seu filho recém-nascido, uma possível metáfora para o ciclo da existência humana, com a morte gerando vida.

Vale ressaltar o excelente trabalho dos intérpretes que transmitem através de cada cena as emoções com sofisticação, delicadeza e encantamento. Enfim, uma obra cinematográfica de extrema sensibilidade e cuidado ao retratar questões profundas e complexas do ser humano de um modo fascinante e comovente. 
CineBlissEK




Ficha Técnica: 

Mais forte que bombas (Louder than bombs)
2015, Dinamarca/ França/ Noruega
Direção: Joachim Trier
Roteiro: Eskil Vogt, Joachim Trier
Produção: Albert Berger, Alexandre Mallet-Guy, Marc Turtletaub, Ron Yerxa, Suzanne Savoy, Thomas Robsahm
Fotografia: Jakob Ihre
Elenco: Isabelle Huppert, Jesse Eisenberg, Gabriel Byrne, Devin Druid, David Strathairn, Amy Ryan