quinta-feira, 31 de agosto de 2017

"Corra!" provoca reflexões sobre diferenças raciais embasado no gênero terror


Visitar pela primeira vez os pais da namorada ou vice-versa, não é lá uma das coisas mais tranquilas para se fazer, para alguns até bate uma certa insegurança e receio. Adiciona-se nesse cenário o conflito das diferenças raciais nos Estados Unidos, numa era pós Obama e atual governo Trump. Basicamente, essa é a premissa de "Corra!" (2017), do diretor e roteirista Jordan Peele, que utiliza do gênero terror para discutir o caráter humano diante do âmago das questões raciais. 

A narrativa provocadora constrói-se no fotógrafo negro, Chris (Daniel Kaluuya), quando viaja junto da namorada Rose Armitage (Allison Williams), para conhecer os pais dela. A recepção na casa dos familiares acontece de modo um tanto quanto empolgante demais, sem vestígio para comportamento racista. O plano aberto na chegada do casal na casa, cumprimentado os pais, aparenta uma normalidade, a não ser pelos dois empregados negros, com algumas atitudes estranhas e uma certa alienação nos olhares. No desenrolar da noite, toda a tranquilidade de outrora, começa a ser rodeado de mistério e suspense. Chris sem querer, vê-se sentado numa poltrona conversando com a mãe de Rose, uma psicoterapêutica que através da hipnose "cura" certos vícios das pessoas.

O roteiro construído de forma criativo e apavorante, elucida diversas questões ainda latentes sobre o racismo nos Estados Unidos. Do início ao fim, o espectador fica preso na poltrona para acompanhar o desenrolar da narrativa, como que hipnotizado. A transformação dos personagens também é algo relevante, o modo como pessoas aparentemente normais revelam o caráter humano, alicerçados em convicções de superioridade e dominação.

Todo ar de mistério e pânico é alavancado com a assustadora trilha sonora que evoca nos momentos mais tensos da narrativa, causando uma tensão psicológica. As imagens do mergulho no inconsciente de Chris, remetem à uma tela de televisão, algo marcante na vida do personagem e sufocante para o espectador. As ferramentas utilizadas por Jordan Peele para expressar os conflitos de raça é um tanto quanto perturbador, provocador e, ao mesmo tempo, necessário nos dias atuais.
CineBliss





Ficha técnica: 

Corra! (Get out)
Estados Unidos, 2017
Direção: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Produção: Edward H. Hamm Jr., Jason Blum, Jordan Peele, Sean McKittrick
Fotografia: Toby Oliver
Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Catherine Keener, Betty Gabriel, Lirel Howery

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Com recortes pulsantes de emoções "De canção em canção" expõe as feridas das relações


Triângulos amorosos no cinema é algo recorrente, vez ou outra surgem histórias com esses tipos de conflitos. Todavia, o que o consagrado cineasta americano Terrence Malick (A árvore da vida; Cinzas do paraíso) proporciona em seu novo filme "De canção em canção" (2017), é algo muito além disso, é a crua e dolorida situação de pessoas que machucam umas as outras, por simplesmente serem indivíduos com fraquezas, cercadas de vazio. 

Num ritmo meio atordoante e fragmentado, tem-se o casal BV (Ryan Gosling) e Faye (Rooney Mara) envoltos no cenário musical de Austin, no Texas. Ao lado deles, encontra-se o produtor Cook (Michael Fassbender), com seu jeito sedutor, energético e cínico, que atrai Faye para seus braços. O mesmo acontece com a garçonete Rhonda (Natalie Portman). Esse invólucro de relações e sentimentos pulsantes, transbordam de um modo febril em cada um dos envolvidos.
 
As narrações em off presente em todo desenrolar da trama, aparentam ser suspiros no ouvido do espectador. Essas falas repletas de emoções segmentadas, proporcionam uma maior identificação do público para com os protagonistas, tornando-os íntimos dos conflitos internos destes personagens. Vale descartar as participações de Iggy Pop- como ele mesmo-, Cate Blanchett, Patti Smith e Val Kilmer.

A câmera em várias cenas procura focar no toque, seja na interação entre corpos ou em coisas. Ao mesmo tempo, proporciona ângulos singulares e requintados nas cenas dos festivais de música, ou nas imagens da natureza. A fotografia com tonalidade clara e natural diversifica com a utilização de luzes de neon oferecendo um deleite visual. 

O filme não atinge todo o estágio de excelência como os anteriores de Terrence Malick citados acima, porém não deixa de ser um belo vislumbre cinematográfico das relações afetivas pautadas pelo âmago do vazio.
CineBlissEK




Ficha técnica: 

De canção em canção (Song to song)
2017, Estados Unidos
Direção: Terrence Malick 
Roteiro: Terrence Malick 
Produção: Ken Kao, Sarah Green
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Elenco: Michal Fassbender, Ryan Gosling, Rooney Mara, Natalie Portman, Cate Blanchett, Val Kilmer

terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Okja" sensibiliza através da sátira o consumo desenfreado de carnes


O Festival de Cannes esse ano, esteve imerso em discussões envolvendo o lançamento de filmes diretamente via streaming (Netflix) sem percorrer o caminho habitual de distribuição. Isso ocorreu, devido ao longa-metragem que concorreu à Palma de Ouro, "Okja" (2017), do diretor Bong Joon-ho (Expresso do amanhã; O hospedeiro). O longa-metragem original da Netflix, teve sua estreia no final do mês de junho, para todos os assinantes do canal, sem dar o ar da graça em qualquer sala de cinema. Esse novo formato de distribuição de filmes, vem gerando inúmeros debates no meio cinematográfico. 

"Okja", é o nome do porco criado em laboratório pela empresa Mirando, cujo nos primeiros meses de vida, é enviado para um produtor rural para desenvolver-se no meio natural. Assim como Okja, têm-se mais dezenas de porcos com destinos em diferentes partes do mundo. O motivo deve-se ao plano mirabolante da CEO, Lucy Mirando (Tilda Swinton), de sintetizar ciência com a natureza na criação de animais destinados ao abate. Para popularizar a ideia, Lucy elabora um concurso para eleger o maior porco no decorrer de dez anos. No fim desse período, o ganhador será apresentado por Johnny Wilcox (Jake Gyllenhaal), um famoso aventureiro da televisão.

Longe de todo burburinho, Okja vive nesses dez anos, tranquilamente na natureza ao lado de sua amiga humana, Mija (Ahn Seo-Hyun). Ao chegar o momento da partida do porco gigante para o concurso da companhia, a menina dominada pelo amor ao animal, luta contra todos para conseguir salvá-lo. Sem saber ao certo para onde ir, ou o que fazer, Mija, atravessa diversas provações para poupar o destino fatal de Okja. Ela encontra aliados ao lado do grupo de defesa dos animais, compostos por Jay (Paul Dano), Red (Lily Collins), K (Steven Yeun), Blond (Daniel Henshall) e Silver (Deron Bostisk)

Bong Joon-ho e Jon Ronson responsáveis pelo roteiro, constroem a narrativa sob dois viés, de um lado a amizade entre humanos e animais de um modo afetuoso, e do outro, burlesca ao retratar o universo corporativo e a sociedade em si. Também exploram didaticamente as diferenças do modo de vida da civilização versus a natureza. Como por exemplo, na forma de obter e preparar o alimento.

Vale destacar os personagens um tanto quanto bizarros de Lucy Mirando e Johnny Wilcox. A primeira, como a executiva psicopata evidenciando uma performance propositalmente artificial de Tilda Swinton, que está primorosa. Já o segundo, como representante do universo do entretenimento, apresenta o lado grotesco de todo o aparato publicitário do mercado capitalista.

Sem sombra de dúvida, o filme é um alarme sobre a produção desenfreada de carne animal para o consumo humano. Isso é algo gritante na cena dentro do frigorífico, com imagens de vários processos da produção. Essa sequencia, deixa de lado a ficção para dar espaço à denúncia documental. Ao lado disso, a versão animal do próprio homem com sua sede de lucratividade. "Okja", arranca do coração humano a sensibilidade para refletir a relação com os animais, de um modo satírico e comovente. 
CineBlissEK



Ficha técnica: 

Okja (Okja)
2017, Estados Unidos/ Coreia do Sul
Direção: Bong Joon-ho
Roteiro: Bong Joon-ho; Jon Ronson
Produção: Brad Pitt, Dooho Choi, Lewis Taewan Kim, Ted Sarandos
Elenco: Tilda Swinton, Jake Gyllenhaal, Ahn Seo-Hyun, Paul Dano, Lily Collins, Steven Yeun,
Daniel Henshall, Deron Bostisk