quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

"Calmaria" aborda o ato de se fazer justiça de um modo superficial


Estreia hoje nos cinemas o filme "Calmaria"(2018), do diretor Steven Knight, estrelado por dois astros de Hollywood Matthew McConaughey e Anne Hathaway, nos respectivos papéis de Baker Dill e Karen. O suspense localizado em uma ilha paradisíaca do Caribe, Plymouth, acompanha a rotina sistemática de Baker, um capitão de um barco de pesca, solitário, assombrado por um passado obscuro e obcecado em capturar um atum gigante. 

O cotidiano um tanto quanto pacato de Baker é desestabilizado com a chegada de Karen ao vilarejo. Esta mulher sedutora e ao mesmo tempo misteriosa, é casada com Frank (Jason Clarke), um homem rico e com temperamento agressivo que constantemente comete violências físicas na esposa e são testemunhadas pelo filho adolescente, Patrick (Rafael Sayegh). Para colocar um fim nessa onda de brutalidade, ela decide pagar Baker para matar o esposo em alto mar. No entanto, o capitão opta por permanecer com suas funções cotidianos, ao invés de fazer justiça com as próprias mãos, mesmo precisando do dinheiro. 

Conforme acontece o desenrolar da narrativa, observa-se uma de outras várias possibilidades do porque da cidade de Plymouth ser destacada em várias sequencias - estação de rádio, deck e barco -,  como se o local tivesse a função de acolher tanto Baker quanto Patrick. O primeiro em busca de se redimir de seu passado se conseguir pescar o atum gigante e, o segundo, encontra ali um lugar para dar voz ao seu ato de se fazer justiça.

O filme mistura situações reais com imaginárias para traduzir o caminho espinhoso entre sanidade e loucura ou entre apanhar o peixe ou matar Frank, pelo qual o personagem de Baker é impulsionado. Esse quebra-cabeça de questionamento da realidade tem no início até o meio da história uma dosagem precisa de enigmas frente as imagens desconcertantes do desconhecido oceano, no entanto, sucumbe do meio para o final quando entrega soluções simples e fáceis para o filme. 

A questão da violência doméstica explicita na personagem de Karen expressa o quão nociva e traumatizante esse tipo de situação pode ser aos envolvidos, assim como, as experiências emocionais perturbadoras de um soldado ao retornar de um conflito, como nos breves relatos de Baker sobre a Guerra do Iraque. Esses dois temas expostos na narrativa - o primeiro com mais ênfase - são intrigantes e provocativos, porém, o que se vê nas telas são personagens um tanto quanto superficiais e com suas complexidades pouco aprofundadas, o que deixa um pouco a desejar mesmo com a reviravolta no final. 
CineBliss **



Ficha técnica: 

Calmaria (Serenity) 
Estados Unidos, 2018
Direção: Steven Knight
Roteiro: Steven Knight
Produção: Alastair Burlingham, Greg Shapiro, Guy Heeley 
Elenco: Matthew McConaughe, Anne Hathaway, Jason Clarke, Djimon Hounsou

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

"Querido menino" disseca a dor paterna frente ao vício em drogas do filho


O cinema de um modo geral já expõe nas telas diversas histórias de adolescentes cujos futuros promissores foram esfacelados por razão do consumo excessivo de drogas, dois exemplos marcantes são: "O diário de um adolescente", de 1995, e "Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída", de 1981. Ambas histórias partiam da jornada dos dependentes químicos frente aos sofrimentos, a extasie, a perambulação e a solidão desse universo cruel e, ao mesmo tempo, sedutor. O filme que estreia hoje nos cinemas "Querido Menino" (2018), do diretor Felix Van Groeningen (Alabama Monroe), retrata esse caminho espinho das drogas na juventude com o diferencial da narrativa ser conduzida sob o olhar cuidadoso e atencioso do pai.

A figura paterna no caso é interpretada pelo ator Steve Carell, que dá vida ao jornalista e escritor David Sheff quando este tem sua rotina completamente abalada ao descobrir que seu primogênito, Nic Sheff (Timothée Chalamet), usa todos os tipos de drogas e é viciado em metanfetamina. Sem saber como lidar com a situação, David busca todos os meios possíveis para ajudar o filho a se recuperar e abandonar essa dependência química.

Narrado de forma não linear cujo passado e presente se intercalam, o espectador se depara com o lar acolhedor onde Nic passara a infância, o convívio dele com a segunda esposa de David, Karen (Maura Tierney) e os dois filhos oriundos dessa união e, principalmente, a relação de amizade e cumplicidade entre ele e o pai. Toda essa estrutura familiar exposta de forma afetuosa, se vê submersa em um mundo desconhecido e obrigada a procurar outros mecanismos para compreender a devastação que um dependente em drogas pode causar a todos os envolvidos, incluindo o próprio. 

A questão do acolhimento é ressaltada em todo decorrer da história, seja pelas sequencias com abraços entre David e Nic, quanto na tonalidade da fotografia direcionada para cores quentes e vivas que perpassam a sensação de proteção, segurança e amor.

Destacam-se as performances de Steve Carell e Timothée Chalamet, o primeiro por empregar um olhar carinhoso e ao mesmo tempo devastador frente a progressiva destruição de seu filho e, o segundo, por reverberar com precisão a fragilidade dos anseios humanos entre a vontade de querer parar de usar drogas e, minutos depois, injetar mais uma dose, ou seja, o caminho tortuoso entre as internações em clínicas de reabilitação e as recaídas. Não é por menos que o ator Timothée Chalamet foi indicado ao Globo de Ouro 2019 na categoria Melhor Ator Coadjuvante.

O filme baseado nas memórias do próprio Nic Sheff, lança luz sobre um tema recorrente em pessoas de diferentes classes sociais e raças, uma vez que mesmo uma família branca, classe média americana e heterossexual, considerada como padrão para a sociedade de uma base familiar "estruturada", também está sujeita a encarar de frente o desarranjo de destino de um ente querido.
CineBliss***




Ficha técnica: 

Querido menino (Beautiful boy) 
Estados Unidos, 2018 
Direção: Felix Van Groeningen
Roteiro: David Sheffield, Felix Van Groeningen, Luke Davies, Nic Sheff
Produção: Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner
Fotografia:  Ruben Impens
Montagem: Nico Leunen
Elenco: Steve Carell, Timothée Chalamet, Maura Tierney, Amy Ryan

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Confira os favoritos do CineBliss e possíveis ganhadores do Oscar 2019


No próximo domingo (24) ocorre em Los Angeles, Califórnia, a tão aguardada cerimônia de premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, com a revelação dos profissionais da indústria do cinema que se destacaram em produções de 2018. A 91.ª edição do Oscar poderá ser vista no Brasil pelo canal a pago TNT, a partir das 20h30, e, pelo canal aberto da Rede Globo após o programa Big Brother Brasil.

Antes mesmo de serem anunciados os ganhadores do Oscar 2019,  a cerimônia  já conta com vários assuntos controversos, entre eles, a participação de várias celebridades para apresentarem a festa - algo que não ocorria há 30 anos -, após a desistência do comediante Kevin Hart como apresentador devido a polêmica provocada por tuítes homofóbicos. Outra questão, foi a decisão de relegar quatro categorias para os intervalos comercias com intuito de diminuir a duração do espetáculo, porém, depois de muitas críticas, os organizadores reverteram a escolha e exibirá todas as categorias. A boa notícia fica por conta da confirmação das apresentações musicais dos cinco indicados a Canção Original e também com a performance do Queen com Adam Lambert.

Como não poderia deixar de faltar, o CineBliss preparou uma lista com os favoritos (*) e possíveis ganhadores (**) do Oscar 2019.

(*)Favorito do blog CineBliss
(**)Possível Ganhador 
(#)Favorito do blog CineBliss e possível ganhador   

Melhor Filme
Bohemian Rhapsody 
Infiltrado na Klan 
**A favorita 
Pantera Negra 
Green Book - O guia
*Roma
Nasce uma estrela
Vice  

Diretor 
Spike Lee (Infiltrado na Klan)
Yorgos Lanthimos (A favorita)
#Alfonso Cuarón (Roma) 
Adam McKay (Vice)
Pawel Pawlikoswski (Guerra Fria)  

Atriz 
Lady Gaga (Nasce uma estrela)
#Glenn Close (A esposa)
Yalitza Aparicio (Roma)
Olivia Colman (A favorita)
Melissa McCarthy (Poderia me perdoar?)

Ator
*Christian Bale (Vice) 
Bradley Cooper (Nasce uma estrela) 
William Dafoe (No portal da eternidade)
**Rami Malek (Bohemian Rhapsody) 
Viggo Mortensen (Green Book - O guia) 

Atriz Coadjuvante 
Amy Adams (Vice)
#Regina King (Se a rua Beale falasse) 
Emma Stone (A favorita)
Rachel Weisz (A favorita)
Marina de Tavira (Roma) 

Ator Coadjuvante 
Adam Driver (Infiltrado na Klan) 
#Mahershala Ali (Green Book - O guia) 
Richard E. Grant (Poderia me perdoar?)
Sam Elliot (Nasce uma estrela)
Sam Rockwell (Vice) 

Roteiro Original
#A favorita
No coração da escuridão
Green Book - O guia
Roma
Vice

Roteiro Adaptado
#Infiltrado na Klan
A balada de Buster Scruggs
Poderia me perdoar?
Se a rua Beale falasse
Nasce uma estrela

Filme de Língua Estrangeira
Cafarnaum 
Guerra Fria
Never look away
#Roma
Assunto de família

Melhor Animação 
Os incríveis 2
Ilha dos cachorros
Mirai
WiFi Ralph - Quebrando a internet
#Homem-Aranha: No Aranhaverso

Documentário 
*Free Solo
Hale County 
Miding the gap
Of fathers and sons
**RBG 

Direção de Arte
Pantera Negra
#A favorita
O primeiro homem
O retorno de Mary Poppins
Roma

Figurino 
A balada de Buster Scruggs
*Pantera Negra
**A favorita
O retorno de Mary Poppins
Duas rainhas 

Maquiagem e Penteado
Duas rainhas
#Vice
Border 

Fotografia
Guerra Fria
A favorita
Never look away
#Roma
Nasce uma estrela

Edição
Infiltrado na Klan
Bohemian Rhapsody
A favorita
Green Book - O guia
#Vice

Efeitos Visuais
*Vingadores: Guerra Infinita
Christopher Robin: Um reencontro inesquecível 
**O primeiro homem
Ready player one
Solo: Uma história Star Wars

Canção Original
All the stars (Pantera Negra)
I'll fight (RBG)
The place where lost things go (O retorno de Mary Poppins)
#Shallow (Nasce uma estrela)
When a cowboy troides his spurs for wings (A balada de Buster Scruggs)

Trilha Sonora Original 
*Pantera Negra
**Se a rua Beale falasse
O retorno de Mary Poppins
Infiltrado na Klan
Ilha dos cachorros

Edição de Som
Pantera Negra
**Bohemian Rhapsody
*O primeiro homem
Um lugar silencioso
Roma

Mixagem de Som 
Pantera Negra
**Bohemian Rhapsody 
*O primeiro homem
Roma
Nasce uma estrela

Curta-Metragem
Detoinment
Fauve
#Marguerite
Mother
Skin

Curta de Animação
Animal Behavior 
#Bao
Late Afternoon
One small step
Weekends

Documentário curta-metragem
**Black Sheep 
End game
Lifeboat
A night at the garder
*Period. end of sentence  


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

"Poderia me perdoar?" expõe a versão dramática da atriz Melissa McCarthy


A atriz americana Melissa McCarthy conhecida por papéis cômicos em filmes como "Missão madrinha de casamento" (2011) e "Uma espiã que sabia de menos" (2015), abraça com esmero sua versão dramática no filme "Poderia me perdoar?"(2018), da diretora Marielle Heller. A intérprete ao dar vida a escritora falida Lee Israel, reverbera um sofisticado trabalho de harmonizar o lado tímido e ao mesmo tempo agressivo de sua uma personagem, enrijecida pelo teor naturalista. Não é por menos que o longa-metragem concorre ao Oscar 2019 em três categorias incluindo Melhor Atriz para já citada, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante para Richard E. Grant

Com estreia hoje nas principais salas de cinemas do país, o filme situado em 1991, é baseado na história real de Lee Israel quando esta encontrava-se absorta em problemas financeiros e sociais. Num gesto meio por acaso e desesperador, ela decide forjar cartas de personalidades mortas para conseguir faturar alguma grana. Logo, a ação considerada criminosa ganha proporções ainda maiores, já que suspeitas começam a cair sobre Lee. Sem querer parar de lucrar, ela conta com a ajuda do amigo Jack Hock (Richard E. Grant) para transformar o esquema e passa a roubar os textos originais de bibliotecas.  

Por meio de uma narrativa focada primordialmente na construção gradativa da amizade entre Lee Israel e Jack Hock, o filme perpassa por situações consideradas pela sociedade como não tão glamourosa da condição humana como a solidão, a homossexualidade, o alcoolismo, a humilhação e a criminalidade. Ambos personagens transitam neste universo marginalizado e buscam apoio um ao outro para romperem com esses comportamentos padronizados. 

Vale a pena observar três aspectos técnicos do filme utilizados com virtuosismo, a fotografia com uma paleta de cores douradas para os ambientes internos e um tons cinzas para o externo, condizendo com a índole da personagem Lee Israel em sua dificuldade de socialização e receio em dar voz para si própria em seus escritos. Assim como a trilha sonora composta de comoventes canções de jazz e, como não poderia deixar de mencionar, o trabalho de cenografia que exibe nostálgicos e lindos modelos de máquinas de escrever.
CineBliss***


Ficha técnica: 
Poderia me perdoar? (Can you ever forgive me?
Estados Unidos, 2018
Direção: Marielle Heller 
Roteiro:  Jeff Whitty, Nicole Holofcener
Produção: Amy Nauiokas, Anne Carey, David Yarnell
Fotografia: Brandon Trost
Montagem: Anne McCabe
Elenco:  Melissa McCarthy, Richard E. Grant

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

"Guerra Fria" contagia com um romance intenso e uma embriaguez estética



Estreia hoje nas principais salas de cinema do país o filme polonês "Guerra Fria" (2018), indicado em três categorias ao Oscar 2019 incluindo Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Fotografia e Melhor Diretor para Pawel Pawlikowski (Ida). Como o próprio título já sugere, o momento histórico da Guerra Fria (1947-1991) se faz presente na narrativa como uma das barreiras enfrentadas pelos personagens apaixonados Wiktor (Tomasz Kot) e Zula (Joanna Kulig).  

Ambos foram inspirados na vida dos pais do cineasta cujos nomes são os mesmos dos protagonistas. Pawel Pawlikowski, dedica o filme aos entes queridos e comenta ter optado não contar a história deles como realmente foi, mas ter deixado traços marcantes da personalidade de cada um nos personagens. "Incompatibilidade de temperamento, incapacidade de ficar juntos e anseio de estar quando estão separados", relata o diretor. 

No longa-metragem, Wiktor é um músico famoso que contrata a jovem cantora Zula para participar de um espetáculo artístico, cujo intuito é resgatar as origens polonesas. Logo, os dois se veem imersos em um amor intenso e autodestrutivo. Como já citado acima a questão política do totalitarismo e as índoles distintas como obstáculos para o casal, há também o exílio, a tentativa de adaptar-se a uma cultura diferente e as tentações da carne.  

Vale destacar as sequencias em que a personagem Zula canta ao microfone toda a dor existente em sua alma de forma poética e profunda. Assim como, o deleite visual da fotografia em preto e branco assinada por Lukasz Zal, que proporciona uma pura imersão do espectador frente à uma história de amor arrebatador traduzida em imagens e sons.

O filme transita por diferentes períodos e em diversos países da Europa como França, Polônia e a antiga Iugoslávia, apresentando uma busca por identidade do povo polonês, as dicotomias entre capitalismo versus socialismo, o papel da arte e, acima de tudo, o amor e o desejo como combustíveis para viver, tanto quanto para decisões irracionais e irreversíveis. 
CineBliss *****
#Filme visto na 42a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 



Ficha Técnica: 

Guerra Fria (Zimna Wojna)
Polônia, 2018
Direção: Pawel Pawlikowski 
Roteiro: Janusz Glowacki, Pawel Pawlikowski, Piotr Borkowski
Produção: Ewa Puszczynska, Malgorzata Bela, Piotr Dzieciol, Tanya Seghatchian
Fotografia: Lukasz Zal
Montagem: Jaroslaw Kaminski
Elenco: Tomasz Kot, Joanna Kulig