quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

"Poderia me perdoar?" expõe a versão dramática da atriz Melissa McCarthy


A atriz americana Melissa McCarthy conhecida por papéis cômicos em filmes como "Missão madrinha de casamento" (2011) e "Uma espiã que sabia de menos" (2015), abraça com esmero sua versão dramática no filme "Poderia me perdoar?"(2018), da diretora Marielle Heller. A intérprete ao dar vida a escritora falida Lee Israel, reverbera um sofisticado trabalho de harmonizar o lado tímido e ao mesmo tempo agressivo de sua uma personagem, enrijecida pelo teor naturalista. Não é por menos que o longa-metragem concorre ao Oscar 2019 em três categorias incluindo Melhor Atriz para já citada, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante para Richard E. Grant

Com estreia hoje nas principais salas de cinemas do país, o filme situado em 1991, é baseado na história real de Lee Israel quando esta encontrava-se absorta em problemas financeiros e sociais. Num gesto meio por acaso e desesperador, ela decide forjar cartas de personalidades mortas para conseguir faturar alguma grana. Logo, a ação considerada criminosa ganha proporções ainda maiores, já que suspeitas começam a cair sobre Lee. Sem querer parar de lucrar, ela conta com a ajuda do amigo Jack Hock (Richard E. Grant) para transformar o esquema e passa a roubar os textos originais de bibliotecas.  

Por meio de uma narrativa focada primordialmente na construção gradativa da amizade entre Lee Israel e Jack Hock, o filme perpassa por situações consideradas pela sociedade como não tão glamourosa da condição humana como a solidão, a homossexualidade, o alcoolismo, a humilhação e a criminalidade. Ambos personagens transitam neste universo marginalizado e buscam apoio um ao outro para romperem com esses comportamentos padronizados. 

Vale a pena observar três aspectos técnicos do filme utilizados com virtuosismo, a fotografia com uma paleta de cores douradas para os ambientes internos e um tons cinzas para o externo, condizendo com a índole da personagem Lee Israel em sua dificuldade de socialização e receio em dar voz para si própria em seus escritos. Assim como a trilha sonora composta de comoventes canções de jazz e, como não poderia deixar de mencionar, o trabalho de cenografia que exibe nostálgicos e lindos modelos de máquinas de escrever.
CineBliss***


Ficha técnica: 
Poderia me perdoar? (Can you ever forgive me?
Estados Unidos, 2018
Direção: Marielle Heller 
Roteiro:  Jeff Whitty, Nicole Holofcener
Produção: Amy Nauiokas, Anne Carey, David Yarnell
Fotografia: Brandon Trost
Montagem: Anne McCabe
Elenco:  Melissa McCarthy, Richard E. Grant

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

"Guerra Fria" contagia com um romance intenso e uma embriaguez estética



Estreia hoje nas principais salas de cinema do país o filme polonês "Guerra Fria" (2018), indicado em três categorias ao Oscar 2019 incluindo Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Fotografia e Melhor Diretor para Pawel Pawlikowski (Ida). Como o próprio título já sugere, o momento histórico da Guerra Fria (1947-1991) se faz presente na narrativa como uma das barreiras enfrentadas pelos personagens apaixonados Wiktor (Tomasz Kot) e Zula (Joanna Kulig).  

Ambos foram inspirados na vida dos pais do cineasta cujos nomes são os mesmos dos protagonistas. Pawel Pawlikowski, dedica o filme aos entes queridos e comenta ter optado não contar a história deles como realmente foi, mas ter deixado traços marcantes da personalidade de cada um nos personagens. "Incompatibilidade de temperamento, incapacidade de ficar juntos e anseio de estar quando estão separados", relata o diretor. 

No longa-metragem, Wiktor é um músico famoso que contrata a jovem cantora Zula para participar de um espetáculo artístico, cujo intuito é resgatar as origens polonesas. Logo, os dois se veem imersos em um amor intenso e autodestrutivo. Como já citado acima a questão política do totalitarismo e as índoles distintas como obstáculos para o casal, há também o exílio, a tentativa de adaptar-se a uma cultura diferente e as tentações da carne.  

Vale destacar as sequencias em que a personagem Zula canta ao microfone toda a dor existente em sua alma de forma poética e profunda. Assim como, o deleite visual da fotografia em preto e branco assinada por Lukasz Zal, que proporciona uma pura imersão do espectador frente à uma história de amor arrebatador traduzida em imagens e sons.

O filme transita por diferentes períodos e em diversos países da Europa como França, Polônia e a antiga Iugoslávia, apresentando uma busca por identidade do povo polonês, as dicotomias entre capitalismo versus socialismo, o papel da arte e, acima de tudo, o amor e o desejo como combustíveis para viver, tanto quanto para decisões irracionais e irreversíveis. 
CineBliss ****
#Filme visto na 42a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 



Ficha Técnica: 

Guerra Fria (Zimna Wojna)
Polônia, 2018
Direção: Pawel Pawlikowski 
Roteiro: Janusz Glowacki, Pawel Pawlikowski, Piotr Borkowski
Produção: Ewa Puszczynska, Malgorzata Bela, Piotr Dzieciol, Tanya Seghatchian
Fotografia: Lukasz Zal
Montagem: Jaroslaw Kaminski
Elenco: Tomasz Kot, Joanna Kulig