quinta-feira, 25 de abril de 2019

"O ano de 1985" embriaga as telas com uma história imersiva e humana


O início da década de 1980 é marcado pelos primeiros registros de casos de AIDS em metrópoles norte-americanas como Nova Iorque, São Francisco e Los Angeles. Logo, o número de pessoas infectadas pelo vírus HIV alastra-se por outras partes do mundo, o que demanda dos órgãos de saúde uma ação imediata para conter a doença. Todavia, só a partir de *1986 é que surgem os primeiros medicamentos, no caso o AZT ou azidotimidina, primeira droga antiviral aprovada pelo Food and Drug Administration (FDA) para ajudar no combate a mortalidade geral dos infectados. Nesse estágio de descobrir as causas, de estudos, de medicamentos e prevenção, milhares de portadores do vírus HIV tiveram suas vidas interrompidas.

Partindo desse pressuposto, o longa-metragem que estreia hoje nos cinemas "O ano de 1985" (2018), inspirado no premiado curta-metragem "1985", de 2016, ambos dirigidos Yen Tan (Pit stop) retrata o doloroso e comovente processo de estar em contato com o vírus HIV nesse período repleto de incertezas, medos e sem nenhuma perspectiva de cura. No foco, está  o jovem Adrian (Cory Michael Smith), quando retorna para o Texas para celebrar o Natal com a família, após ficar três anos longe morando em Nova Iorque. Neste ambiente familiar, Adrian busca se reconectar com os entes queridos e amigos, ao mesmo tempo que tenta lidar com a dor do luto de ter perdido vários amigos para a AIDS e, em revelar seu maior e penoso segredo.

Esse tipo de jornada de aproximação e despedida ao lado da família por causa do vírus HIV já foi alvo de várias narrativas cinematográficas, como no caso do filme francês "É apenas o fim do mundo" (2016), do diretor Xavier Dolan. Nesse drama, o protagonista ao visitar à família depara-se com um ambiente absorto de mágoas, choros e discussões em voz alta. O que era para ser um instante precioso de adeus para o personagem torna-se um momento propício para os familiares vomitarem verborragicamente traumas do passado. 

Em "O ano de 1985", diferentemente a abordagem não busca lavar a roupa suja, já que também há assuntos mal resolvidos, mas em acolher e humanizar o caráter e as dores dos personagens. Isso se vale tanto para Adrian, quanto para a mãe e o pai - interpretado respectivamente pelos atores Virginia Madsen e Michael Chiklis. Os pais oriundos de uma sociedade conservadora, patriarcal e religiosa, buscam conectar-se com o filho, cada um do seu modo, proporcionando cenas de pura emoção e demonstrando performances que mesclam o afeto e o rigor técnico. Tal como na sequencia em que o pai diz à Adrian: "Você sempre pode contar comigo" ou a mãe para o mesmo: "Quando você estiver preparado para falar. Eu vou estar preparada para ouvir".

O modo como essas relações familiares fragmentadas são cuidadosamente trabalhadas ganha destaque no vínculo de cumplicidade entre Adrian e o irmão adolescente, Andrew (Aidan Langford). Vide as cenas em que os dois dialogam sobre gostos musicais. Se o primeiro buscou encontrar sua felicidade em outro lugar e caminha submerso em sofrimento pelos lutos de seus amigos titubeando na linha tênue entre a vida e a morte. O segundo por sua vez, encontra-se com um futuro inteiro à sua frente e inspirado pela coragem do irmão de ter saído de um local ao qual não pertencia. 

Mesmo com o tema do vírus HIV pairando toda a história, a doença em si não é citada e transforma-se em um despertar para outras questões tais como laços familiares, a sensação de não pertencimento, bullying, a homossexualidade, a virilidade masculina, certos preconceitos, a morte, entre outros. Esse conjunto de tópicos é trabalhado pelo roteiro de modo sensível, primoroso e imersivo. Não é à toa, a escolha da fotografia em preto e branco que torna o drama ainda mais verossímil, segundo o diretor.
CineBliss*****
 


Ficha técnica: 

O ano de 1985 (1985)
Estados Unidos, 2018
Direção: Yen Tan 
Roteiro: Hutch, Yen Tan 
Produção: Hutch, Ash Christian, 
Elenco: Cory Michael Smith, Virginia Madsen, Michael Chiklis, Jamie Chung, Aidan Langford
*Referencia tirada no artigo: http://www.boasaude.com.br/artigos-de-saude/3838/-1/historico-da-aids-uma-historia-de-lutas-decepcoes-guerra-de-vaidades-e-coragem.html

quinta-feira, 18 de abril de 2019

"Amor até as cinzas" transita na linha tênue entre amor, lealdade e justiça


O diretor chinês Zhangke Jia, em 2015, embriagou as telas de cinema com o poético triângulo amoroso em "As montanhas se separam", tendo como pano de fundo o fomento do capitalismo na China. Quatro anos depois, ele entrega a mesma profundidade das relações humanas no filme "Amor até as cinzas" (2018), agora com o país oriental já impregnado pela máquina do capital e, consequentemente, refém das desigualdades sociais e dos excluídos do submundo.

O filme que fez parte da seleção oficial do Festival de Cannes 2018, estreia hoje nos cinemas com uma história visceral de amor entre a jovem Qiao (Tao Zhao) e um pequeno mafioso local, Bin (Liao Fan). A narrativa situada em Datong, China, é dividida em três tempos distintos e permeia o universo dos negócios clandestinos ritualizado pela concepção de lealdade e justiça.

Durante uma briga entre gangues rivais, Qiao dispara um tiro para proteger o amado. Por esse ato, ela é encarcerada na prisão por cinco anos. Ao adquirir a liberdade, a protagonista decide procurar por Bin e retomar o relacionamento de onde pararam. No entanto, ela se depara com algo completamente diferente do esperado e precisará de coragem para lidar com esse novo cenário. 

Novamente a atriz chinesa Tao Zhao - casada com o diretor - é submetida a uma jornada de provações intensas e de puro sofrimento, se em "As montanhas se separam", ela tinha como conflito escolher qual pretendente e, depois, relacionar-se com o filho. Em "Amor até as cinzas", o amor é só por uma pessoa, mas as imposições para ser leal a esse amor é em um nível demasiado. Tanto que a aparência física da personagem transforma-se no decorrer do drama, no início observa-se uma vivacidade e uma certa inocência, para posteriormente, dar vazão à um rosto cansado e desiludido. 

Zhangke Jia mais uma vez trabalha com o paralelo entre Ocidente versus Oriente, seja na escolha da trilha sonora mesclada com canções orientais e a clássica "YMCA", do grupo Village People, ou com o destaque dado da performance de dança de salão feita por um casal de dançarinos chineses. Do mesmo modo, nota-se a importância concebida às tecnologias e ao dinheiro. Esse último, é enquadrado com veemência em várias cenas, como por exemplo na sequencia em que o chefe da máfia oferece um punhado de notas para Qiao comprar roupas, ou quando a mesma é alvo de um roubo e fica sem nenhum tostão. 

Em suma, "Amor até as cinzas" constrói um mosaico honesto das relações humanas fundamentadas no afeto, no desejo, na dignidade, na reputação, no perdão, na cumplicidade e na traição, com a passagem do tempo como pano de fundo. Um cenário desolador, mas que pulsa por meio de um balé de emoções e raios poéticos. 
CineBliss*****


Ficha técnica: 

Amor até as cinzas (Jiang hu er nv)
China/Japão/França, 2018
Direção: Zhangke Jia
Roteiro: Zhangke Jia
Produção: Nathanaël Karmitz, Olivier Père, Shozo Ichiyama
Fotografia: Éric Gautier
Montagem: Matthieu Laclau
Elenco: Tao Zhao, Liao Fan, Xiaogang Feng

terça-feira, 16 de abril de 2019

"O mau exemplo de Cameron Post" potencializa a discussão sobre o polêmico tema da cura gay



Se no começo deste ano o espectador não pode conferir nos cinemas a estreia do filme "Boy erased: Uma verdade anulada" (2018), do diretor Joel Edgerton, que tinha como tema a polêmica da 'cura gay'. Por sorte, o mesmo destino não foi dado para o longa-metragem que estreia nesta quinta-feira (18) nas telonas, "O mau exemplo de Cameron Post" (2018) cuja narrativa aborda a mesma questão. Dirigido pela diretora Desiree Akhavan (Uma boa menina) e ganhador do Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance, o filme baseado no livro homônimo de Emily M. Danforth, destaca a jornada da adolescente Cameron (Chloë Grace Moretz), quando é pega beijando outra menina no baile de formatura.

Morando com a tia desde a morte dos pais, Cameron é encaminhada para um centro religioso de 'cura gay'. No local, a jovem ainda incerta sobre sua identidade, depara-se com outros adolescentes vivendo dilemas semelhantes aos seus e obrigados a submeterem-se a uma doutrina rigorosa e métodos um tanto quanto suspeitos para 'supostamente' tornarem-se heterossexuais. Nesse mesmo ambiente, Cameron conhece “Jane Fonda” (Sasha Lane) e Adam (Forrest Goodluck), ambos sujeitos à mesma realidade, mas que lutam para manterem suas identidades e suas opões sexuais. Juntos, os três descobrirão o laço afetivo da amizade e o valor de buscarem a liberdade de serem o que quiserem. 

A construção do roteiro preza por uma abordagem profunda e delicada sobre as descobertas da sexualidade na adolescência, ao mesmo tempo que mostra os dispositivos de cunho religioso utilizados para bloquearem os desejos desde jovens. Desejos estes, que não condizem com o 'aceitável' pela sociedade da época - década de 1990 -, ou seja, sentir atração pelo mesmo sexo é ainda considerado pecado. 

Ao longo de toda narrativa observa-se a violência psicológica ao quais os jovens são forçados a presenciarem na tentativa de desconstruirem suas orientações sexuais, reverberando o doloroso processo de obrigar uma pessoa a ser o que ela não é. Isso é evidente em duas falas emblemáticas da protagonista, em situações diferentes: "Estou cansada de sentir nojo de mim" ou "Como se pode confiar nessas pessoas que fazem você odiar a si mesmo". 

Chloë Grace Moretz, enquadrada com vários close up no filme, está em estado de graça como Cameron, sua performance mescla o apetite sexual, a insegurança, a solidão e a brutalidade emocional de um modo hipnotizante e carismático. A cena com ela na cozinha descascando batatas ao lado dos outros companheiros e, ao ouvir a canção "What's up", de 4 Non Blondes, a personagem sobe na mesa e canta, é de puro encantamento e libertário. Também vale destacar os personagens de Sasha Lane e Forrest Goodluck pois trazem um outro olhar sobre a mesma problemática, a primeira de origem negra e o segundo indígena, enriquecendo ainda mais a provocação da narrativa. 

"O mau exemplo de Cameron Post", é um filme necessário e urgente para despertar inúmeras reflexões sobre a interferência dos pais na sexualidade de seus filhos, quando estes não correspondem às suas aspirações e, principalmente, em debater as imposições da sociedade de querer fazer valer apenas uma única forma de viver a vida, excluindo outras culturas, raças, gêneros e orientações sexuais.  
CineBliss*****
#Filme visto na 42a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 
 


Ficha técnica: 

O mau exemplo de Cameron Post (The miseducation of Cameron Post)
Estados Unidos, 2018
Direção: Desiree Akhavan 
Roteiro: Cecilia Frugiuele, Desiree Akhavan, Emily M. Danforth
Produção: Alex Turtletaub, Cecilia Frugiuele, Jonathan Montepare, Michael B. Clark, Rob Cristiano
Fotografia: Ashley Connor
Montagem: Sara Shaw
Elenco: Chloë Grace Moretz, Jennifer Ehle, John Gallagher Jr., Sasha Lane, Forrest Goodluck

quinta-feira, 11 de abril de 2019

"De pernas pro ar 3" chega aos cinemas hoje com uma história divertida e nutrida por vários temas atuais da sociedade

Marcelo Saback, Denise Weinberg, Julia Rezende, Ingrid Guimarães, Bruno Garcia, Mariza Leão, Samya Pascotto,
Eduardo Mello

O sucesso da atriz Ingrid Guimarães, como Alice, na franquia "De pernas pro ar" chega ao terceiro longa-metragem hoje nos cinemas. Se no primeiro o foco da protagonista baseava-se em romper com padrões na discussão do prazer feminino e na apresentação de vários 'brinquedos' eróticos, como o vibrador. Nove anos depois, a narrativa acompanha os avanços da sociedade, em particular das mulheres, na inserção de temas atuais do feminismo, na introdução de novos utensílios eróticos em comunhão com a tecnologia e, na inclusão de personagens jovens se relacionando com o sexo. 

Dirigido por Julia Rezende (Meu passado me condena, Um namorado para minha mulher), a comédia "De pernas pro ar 3" (2018)  apresenta a empresa Sexy Delícia em pleno turbilhão de vendas em toda parte do mundo, exigindo de Alice total dedicação ao trabalho com inúmeras viagens para vários países e praticamente pouca atenção à família. Nessa conjuntura, resta ao marido João (Bruno Garcia), cuidar do adolescente Paulinho (Eduardo Mello) e da caçula, Clarinha (Duda Batista). Por sua vez, Alice atormentada pela sensação de culpa, decide aposentar-se para ficar mais próxima dos entes queridos e entrega os negócios à sua mãe, Marion (Denise Weinberg). No entanto, o descanso não dura muito devido ao surgimento de Leona (Samya Pascotto), uma jovem empreendedora do mundo tecnológico que busca encontrar seu espaço no mesmo segmento da Sexy Delícia. 

Além do habitual cenário do Rio de Janeiro com as belas paisagens naturais, a continuação desloca os personagens para a deslumbrante e romântica Paris. Além de promover cenas em vários pontos turísticos da capital francesa - despertando o imaginário do espectador -, a cidade alimenta momentos de decisões importantes para a jornada de Alice. 

O roteiro assinado por Marcelo Saback, Rene Belmont e a própria Ingrid Guimarães, busca mesclar o lado cômico e neurótico da protagonista com certos aspectos dramáticos, viabilizando observar certas questões femininas mais afinco. Como a sensação de culpa presente na vida de várias mulheres divididas entre o trabalho e atenção à família, a relação de mãe e filho adolescente, a competitividade entre mulheres de gerações diferentes, a sororidade (união e aliança entre as mulheres), os conflitos do casamento e, como não podia deixar de fazer parte, a busca pela satisfação sexual feminina na era tecnológica. 

Todavia, a narrativa peca em algumas cenas forçadas ou para o lado dramático ou irônico que não agrega para o desenrolar das ações. Isso pode ser visto na sequencia com a pequena participação de Marcela (Maria Paula), que explica para Alice certos conceitos zen e, a segunda, ao tentar aplicar os ensinamentos com a família é interrompida por Leona e o assunto não é retomado depois.

Vale destacar a sequencia de puro deleite sensual com a participação do ator Cauã Reymond - como ele mesmo -, seduzindo a protagonista em uma realidade virtual ao som da canção "Meu sangue ferve por você", de Sidney Magal. A atriz Ingrid Guimarães comentou na coletiva de imprensa de ter sido dela a ideia de convidar o ator: "Eu queria que fosse um ator que tivesse no inconsciente coletivo das mulheres e dos homens também... de ser o simbólo do homem bonito e sexy".  

À vista disso, "De pernas pro ar 3", cativa o espectador com uma história divertida nutrida por questões significativas referentes às transformações de comportamento, das relações humanas e, das mulheres. E, novamente, a atriz Ingrid Guimarães esbanja carisma e vivacidade no papel de Alice.
CineBliss ***






Ficha técnica: 

De pernas pro ar 3 (De pernas pro ar 3)
Brasil, 2018
Direção: Julia Rezende
Roteiro:  Ingrid Guimarães, Marcelo Saback, Rene Belmonte
Produção: Mariza Leão
Fotografia: Dante Belluti
Montagem: Maria Rezende
Elenco: Ingrid Guimarães, Bruno Garcia, Denise Weinberg, Samya Pascotto, Eduardo Mello, Duda Batista

terça-feira, 9 de abril de 2019

"Ayka" escancara uma jornada angustiante de uma mulher ilegal e sozinha em Moscou


O diretor cazaque de origem russa Sergey Dvortsevoy, responsável por "Tulpan" (2008), lança nas telas de cinema nesta quinta-feira(11) seu mais recente trabalho "Ayka" (2018), cuja participação no Festival de Cannes 2018 contemplou Samal Yeslyamova com o Prêmio de Melhor Atriz. A intérprete, nesta jornada de pura angústia em uma cidade coberta de neve e indiferente ao sofrimento humano, incorpora de modo desconcertante as dores, a fadiga e a respiração ofegante de um corpo em risco, que grita e que sofre.

A personagem-título é uma imigrante do Quirguistão que vive ilegalmente em Moscou. Ao dar à luz, Ayka foge do hospital deixando para trás o recém-nascido. Trabalhando em subempregos - abatedouro de frangos e faxineira - a jovem de 25 anos batalha para juntar dinheiro e pagar uns agiotas que a perseguem. Ao mesmo tempo, Ayka lida com as complicações do pós-parto, a negação da maternidade e busca sobreviver frente às precárias condições de vida. 

O filme começa e termina no hospital, onde Ayka se vê nesses dois momentos diante de uma das mais importantes decisões de sua vida envolvendo o seu bebê. Nessa conjuntura, a questão da maternidade entra como elemento primordial nesse drama sendo destacada em várias sequencias. Tanto através do corpo da protagonista - sofre de hemorragia interna e dores no seio -,  quanto nos poucos personagens com os quais se relaciona. Como por exemplo, a faxineira da loja de pet shop com seu filho ou até mesmo na cachorra ferida amamentando seus filhotes.

Cada caminhada de Ayka pelas ruas de Moscou à procura de trabalho ou contorcida de frio e dor, transmite uma realidade cruel desta sociedade capitalista que se vende como um lugar de oportunidades, porém, não cumpre com todos essa propaganda. Como pode ser visto na cena em que Ayka assiste à um palestrante discursando sobre seu sucesso e, ao pedir trabalho para uma mulher, não consegue. 

Ao longo de todo desenrolar da narrativa observa-se a agitação da câmera grudada na protagonista, com diversos close-ups de seu rosto sofrido ou focando em suas costas. O trabalho da equipe responsável pelo som merece elogios, pois deflagra o ambiente caótico das ruas da capital russa com vários ruídos, ao mesmo tempo que, equilibra o espaço privado da protagonista com o silêncio e apenas o rumor da respiração. Esse conjunto entre a tensão do movimento de câmera, a linguagem corporal da intérprete e os efeitos sonoros, é magnetizante e perturbador.
CineBliss****



Ficha técnica: 

Ayka (Ayka)
Rússia/Polônia/Alemanha/Cazaquistão/China, 2018 
Direção: Sergei Dvortsevoy 
Roteiro: Gennadiy Ostrovskiy, Sergei Dvortsevoy
Produção: Anna Wydra, Gulnara Sarsenova, Li Zhu, Martin Hampel, Michel Merkt, Sergei Dvortsevoy, Thanassis Karathanos
Fotografia: Jolanta Dylewska
Montagem: Petar Markovic, Sergey Dvortsevoy
Elenco: Samal Yeslyamova, Zhipargul Abdilaeva, David Alaverdayan, Sergey Mazur, Ashkat Kuchinchirekov

quinta-feira, 4 de abril de 2019

"3 faces" é um retrato humano e comovente sobre as condições das mulheres no Irã


O filme iraniano vencedor de Melhor Roteiro em Cannes 2018, "3 faces", do diretor Jafar Panahi (Táxi Teerã) estreia hoje nas principais salas de cinema do país. Com estilo documental, a narrativa acompanha a viagem da atriz Behnaz Jafari e de Jafar Panahi - ambos como eles mesmos - para uma aldeia ao norte do Irã. Os dois têm como intuito investigar se um vídeo enviado à atriz é verdadeiro ou manipulado, devido a gravidade das imagens feitas por uma jovem moradora do povoado.  

Nesse lugar de difícil acesso, com uma estrada que permite apenas a passagem de um carro por vez, Behnaz Jafari e Jafar Panahi se deparam com pessoas ainda calcadas por visões extremamente conservadoras, onde o patriarcalismo impera em nível máximo impedindo meninas de irem atrás de seus sonhos e oferecendo apenas o casamento como opção de vida. Uma sociedade que parou no tempo em todos os sentidos e não permite a chegada de transformações.  Como por exemplo na cena em que a remetente do vídeo comenta sobre a questão da estrada: "Um dia peguei uma pá para abrir outra via na estrada, mas não me deixaram".

O começo do filme com imagens de câmera de celular expõe de modo perturbador e visceral a sensação de desespero da jovem, cuja ambição de tornar-se uma atriz lhe lhe negada pelo simples fato de ter nascido mulher. Aceitar as coisas como são até pode ser acolhida pelos moradores da aldeia, mas para a menina, lutar pelo seu sonho é uma questão de vida ou morte. Sua rebeldia quiçá simboliza as transformações ou o novo, aspectos que não são aprovados pela comunidade.

Com um roteiro envolvente, provocador e ao mesmo tempo com uma pitada de humor, o filme ilustra a rotina destas pessoas e a interação destes com o vilarejo, como se a redenção não existisse, mas sim, o milagre da proximidade entre os moradores.

Ao evocar a necessidade urgente de Behnaz Jafari e de Jafar Panahi em cumprir com a tarefa de averiguar a veracidade do vídeo, o filme proporciona um recorte arrebatador sobre a opressão e a violência contra as mulheres em pleno século XXI de uma forma humana e comovente, além de uma homenagem encantadora às atrizes.
CineBliss*****
#Filme visto no Festival do Rio 2018





Ficha Técnica: 

3 faces (Se rokh)
Irã, 2018
Direção: Jafar Panahi
Roteiro: Jafar Panahi, Nader Saeivar
Produção: Jafar Panahi
Fotografia: Amin Jafari
Montagem: Mastaneh Mohajer, Panah Panahi
Elenco: Behnaz Jafari, Jafar Panahi, Marziyeh Rezaei, Maedeh Erteghaei

quarta-feira, 27 de março de 2019

O terror de Jordan Peele, "Nós", já desponta como um dos melhores filmes de 2019


O diretor e roteirista de "Corra!" (2017), Jordan Peele, ganhador do Oscar de Melhor Roteiro em 2017 por esse filme, lançou recentemente nos cinemas seu mais novo trabalho, "Nós" (2019). O longa-metragem que já vem arrecadando milhões de dólares de bilheteria, é novamente nutrido pelo gênero do terror como no título anterior já citado acima e apresenta diversos aspectos simbólicos. Se no primeiro a problemática está relacionada a questão da raça, no segundo a provocação se dá no âmbito submerso de um universo desconhecido da sociedade norte-americana: o que habita nos inúmeros túneis dos Estados Unidos. 

A história se concentra no casal Adelaide Wilson (Lupita Nyong's) e Gabe Wilson (Winston Duke) e seus filhos, quando viajam para a casa de praia em Santa Cruz, na Califórnia.  Mesmo assombrada por um trauma do passado envolvendo o labirinto de uma casa de espelhos de um de parque de diversão na mesma praia, Adelaide, à contragosto decide acompanhar a família para desfrutarem de um dia frente ao mar junto ao casal de amigos, Josh (Tim Heidecker) e Kitty (Elisabeth Moss). Contudo, com a chegada da noite, situações estranhas começam a acontecer na casa. O que era um ambiente de tranquilidade, ganha outras proporções quando a tensão toma conta de todos ao surgirem quatro pessoas desconhecidas, sem serem convidadas e semelhantes a cada um deles. Quando questionados sobre quem são, eles dizem: "Somos americanos". 

Mesmo que o roteiro - também assinado por Jordan Peele - seja um tanto quanto explicativo na parte final, há de se enaltecer a qualidade técnica de conseguir segurar a tensão do espectador até o fim e, na criatividade e ousadia em expor uma trajetória de horror social ligada aos oprimidos e sem poder de fala. Numa possível metáfora para o esfacelamento do 'sonho americano', orquestrada por uma trilha sonora cujo efeito causa pavor e apreensão. 

Nessa perspectiva, também vale a pena destacar a potente performance de Lupita Nyong's que entrega um trabalho de linguagem corporal, olhar enigmático e amedrontador de um modo primoroso. Uma provável tradução do âmago da tensão existente da dualidade de mundos retratadas no filme entre os afortunados que vivem na presença da luz e, os excluídos residentes nos túneis tomados pela escuridão.

O contexto de visualizar a imagem de si mesmo surte o efeito em evidenciar o outro lado dos personagens, ou seja, a versão obscura de cada um, cujo intuito é emergir para superfície e ocupar o lugar de seu semelhante. Vestidos com uniformes vermelhos, esta corrente do 'mal' coletivo, desperta o maior inimigo de todos, a própria sombra.  Essa sombra encarada como arquétipo na psicologia analítica, carrega em si certos aspectos desagradáveis e imorais de nós mesmos que gostaríamos de fingir que não existem ou simplesmente esconder, pois contradiz com aquela pessoa com a qual gostaríamos de nos ver. Esconder ou fingir a existência 'desse lado negro da força' é justamente a matéria-prima da obra de Peele.  

Outro mérito do diretor pode ser observado em planos de puro requinte, como por exemplo, no começo do filme quando os quatro membros da família Wilson chegam à praia e a câmera os acompanha em um ângulo de cima para baixo focando na sombra de cada um. Ou em uma das sequencias finais, no cenário subterrâneo de uma sala de aula em que Adelaide está no plano de fundo e sua imagem uniformizada de vermelho escreve na lousa e discursa, em primeiro plano. Jordan Peele, com este segundo longa-metragem no currículo desponta para um futuro promissor em Hollywood. 
CineBliss*****





Ficha técnica:

Nós (Us)
Estados Unidos, 2019
Direção: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Produção: Jason Blum, Sean McKitrick, Jordan Peele
Elenco: Lupita Nyong's, Winston Duke, Elisabeth Moss, Tim Heidecker, Anna Diop, Evan Alex