quinta-feira, 21 de março de 2019

"Um banho de vida" é o antídoto de otimismo perfeito para injetar em tempos difíceis


As notícias que assolam o Brasil e o mundo não são das mais positivas, muitas vezes resta as pessoas se esconderem no escurinho do cinema e torcerem para a história proporcionar alguma dosagem de esperança e afeto. No caso do filme francês que estreia hoje nos cinemas "Um banho de vida" (2018), do diretor Gilles Lellouche, que integrou a seleção oficial 'fora de competição' do Festival de Cannes em 2018, essa dosagem vem acompanhada de pitadas de redenção, otimismo, união e, muito bom humor.

Na comédia misturada com drama, o depressivo Bertrand (Mathieu Amalric) está com seus mais de 40 anos de idade, há quase dois anos sem trabalhar, dependente de vários remédios e imerso em uma crise existencial. Em um arranjo de destino, ele começa a praticar nado sincronizado masculino, em uma piscina do bairro, sob o comando de Delphine (Virginie Efira), uma ex-atleta de sucesso que sofre com alcoolismo. Ao lado dos praticantes de nado Marcos (Benoît Poelvoorde), Laurent (Guillaume Canet), Simon (Jean-Hugues Anglade), Basile (Alban Ivanov) e Thierry (Philippe Katerine), Bertrand começa a vislumbrar uma luz no fim do túnel para o seu distúrbio. 

Por sua vez, cada um desses homens também encontram-se imersos em problemas sejam eles financeiros, amorosos, familiares ou de saúde. Desse forma, eles decidem se inscreverem para participarem do Campeonato Mundial de Nado Sincronizado, na Noruega. 

Dominados pelas sensações de frustrações e fracassos, esses personagens encontram em uma prática esportiva considerada para mulheres, um novo propósito de vida. Não só isso, através da dedicação e força de vontade eles começam a despertar o lado feminino de cada um, como se estivessem reordenando seus aspectos masculinos frente às transformações das mulheres na sociedade ocidental. 

Ao estarem despidos de suas vestimentas - apenas com a sunga e a toca -, em um ambiente de vulnerabilidade como o banheiro após os treinos, esses homens discutem sobre suas vidas sem julgamentos e plantam sementes para uma nova compreensão de suas jornadas e uma nova perspectiva de se relacionar com o sexo oposto. Como por exemplo, Simon em sua busca de aproximar-se da filha, Laurent em aceitar a mãe doente e Bertrand em fazer sexo com sua esposa.  

O roteiro primorosamente bem construído, apresenta a quantidade precisa tanto na dramaticidade ao aprofundar os dilemas dos personagens quanto na carga de jocosidade expressa em diversas sequencias. A cena em que alguns membros do grupo se deslocam para uma loja de departamento para adquirir os uniformes, é de puro êxtase e gargalhada. 

A entrega de cada ator em mesclar rigor técnico com carisma a toda prova, proporciona um banho de entrosamento e bom humor, trazendo a superfície alguns temas um tanto quanto em desuso atualmente como a ligação afetiva, a cumplicidade e a superação. Como acontece em uma das sequencias finais, em que todos os homens estão dentro da piscina fazendo a apresentação, e, a câmera registra os corpos unidos embaixo da água, demonstrando um retrato honesto das relações humanas unidas para um bem comum, embalada ao som de "Easy lover", de Philip Bailey e Phil Collins.

Sem sombra de dúvida, "Um banho de vida" é muito mais que um banho é uma enxurrada de positividade, leveza e amor, o que o torna imperdível para nutrir o coração do espectador em tempos sombrios e incertos. 
CineBliss****


Ficha técnica: 

Um banho de vida (Le  Graind Bain)
Bélgica, 2018
Direção: Gilles Lellouche 
Roteiro: Ahmed Hamidi, Gilles Lellouche, Julien Lambroschini
Produção: Alain Attal, Hugo Sélignac, Patrick Quinet
Fotografia: Laurent Tangy
Montagem:  Simon Jacquet
Elenco: Mathieu Amalric, Benoît Poelvoorde, Guillaume Canet, Jean-Hugues Anglade, Alban Ivanov, Virginie Efira, Philippe Katerine

quinta-feira, 14 de março de 2019

"Um amor inesperado" contempla o apetite de um casal recém-separados em buscar novas aventuras


O galã argentino Ricardo Darín, retorna as telas de cinema a partir de hoje com a estreia de seu mais recente filme "Um amor inesperado" (2018), do diretor Juan Vera. Na comédia romântica, o ator dá vida a Marcos, um professor casado há mais de 20 anos com Ana (Mercedes Móran). Após a saída do filho de casa para morar em outro país, os dois se deparam com a experiência do ninho vazio, da monotonia do casamento e da falta de desejo. Para solucionarem a situação decidem se separar amigavelmente e, dessa forma, cada um seguir seu caminho. Tanto Marcos quanto Ana embarcam em vivenciar inusitadas aventuras como baladas, aulas de dança, utilização do aplicativo Tinder, sexo casual e entre outros. 

Com protagonistas com mais de 60 anos de idade que demonstram estarem em plena forma física e com apetite para buscar novos desafios, a narrativa proporciona um olhar divertido e destemido sobre recomeços nessa fase da vida. Em particular na questão afetiva, já que os dois passaram décadas com o status de casados e, agora, vivenciam estar solteiros e anseiam por explorar seus desejos adormecidos. Algo um tanto quanto ousado para o gênero cinematográfico, já que em sua maioria as tramas retratadas com pessoas dessa idade constituem de personagens enfermos ou quase morrendo e, não despertos para ver a jornada com olhos curiosos e vivacidade para experimentar outras façanhas.

Por outro lado, o roteiro que se inicia engendrado em diálogos profundos sobre a intimidade da vida a dois e a sexualidade, enfraquece quando separa o casal e apresenta sequencias um tanto quanto superficiais como Darín se aventurando em um bar para conhecer uma estranha do aplicativo Tinder, ou Móran, após vivenciar um ato sexual casual, sair caminhando pela rua de vestido vermelho como se fosse uma campanha publicitária. 

Mesmo assim é inegável a química e o carisma de Ricardo Darín e Mercedes Móran, ambos em plenitude de suas capacidades interpretativas, o que contempla o espectador com performances sinceras e profundas de como encarar o corpo, o sexo, a morte, a solidão e o amor na fase de progressivo envelhecimento. Todos esses temas são nutridos de uma bela pitada de humor.
CineBliss **
#Filme visto no Festival do Rio 2018




Ficha técnica: 

Um amor inesperado (El amor menos pensado)
Argentina, 2018
Direção: Juan Vera 
Roteiro: Daniel Cúparo, Juan Vera
Produção:  Chino Darín, Christian Faillace, Federico Posternak, Juan Pablo Galli, Juan Vera, Ricardo Darín
Fotografia: Rodrigo Pulpeiro
Montagem: Pablo Barbieri Carrera
Elenco: Ricardo Darín, Mercedes Morán

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

"Calmaria" aborda o ato de se fazer justiça de um modo superficial


Estreia hoje nos cinemas o filme "Calmaria"(2018), do diretor Steven Knight, estrelado por dois astros de Hollywood Matthew McConaughey e Anne Hathaway, nos respectivos papéis de Baker Dill e Karen. O suspense localizado em uma ilha paradisíaca do Caribe, Plymouth, acompanha a rotina sistemática de Baker, um capitão de um barco de pesca, solitário, assombrado por um passado obscuro e obcecado em capturar um atum gigante. 

O cotidiano um tanto quanto pacato de Baker é desestabilizado com a chegada de Karen ao vilarejo. Esta mulher sedutora e ao mesmo tempo misteriosa, é casada com Frank (Jason Clarke), um homem rico e com temperamento agressivo que constantemente comete violências físicas na esposa e são testemunhadas pelo filho adolescente, Patrick (Rafael Sayegh). Para colocar um fim nessa onda de brutalidade, ela decide pagar Baker para matar o esposo em alto mar. No entanto, o capitão opta por permanecer com suas funções cotidianos, ao invés de fazer justiça com as próprias mãos, mesmo precisando do dinheiro. 

Conforme acontece o desenrolar da narrativa, observa-se uma de outras várias possibilidades do porque da cidade de Plymouth ser destacada em várias sequencias - estação de rádio, deck e barco -,  como se o local tivesse a função de acolher tanto Baker quanto Patrick. O primeiro em busca de se redimir de seu passado se conseguir pescar o atum gigante e, o segundo, encontra ali um lugar para dar voz ao seu ato de se fazer justiça.

O filme mistura situações reais com imaginárias para traduzir o caminho espinhoso entre sanidade e loucura ou entre apanhar o peixe ou matar Frank, pelo qual o personagem de Baker é impulsionado. Esse quebra-cabeça de questionamento da realidade tem no início até o meio da história uma dosagem precisa de enigmas frente as imagens desconcertantes do desconhecido oceano, no entanto, sucumbe do meio para o final quando entrega soluções simples e fáceis para o filme. 

A questão da violência doméstica explicita na personagem de Karen expressa o quão nociva e traumatizante esse tipo de situação pode ser aos envolvidos, assim como, as experiências emocionais perturbadoras de um soldado ao retornar de um conflito, como nos breves relatos de Baker sobre a Guerra do Iraque. Esses dois temas expostos na narrativa - o primeiro com mais ênfase - são intrigantes e provocativos, porém, o que se vê nas telas são personagens um tanto quanto superficiais e com suas complexidades pouco aprofundadas, o que deixa um pouco a desejar mesmo com a reviravolta no final. 
CineBliss **



Ficha técnica: 

Calmaria (Serenity) 
Estados Unidos, 2018
Direção: Steven Knight
Roteiro: Steven Knight
Produção: Alastair Burlingham, Greg Shapiro, Guy Heeley 
Elenco: Matthew McConaughe, Anne Hathaway, Jason Clarke, Djimon Hounsou

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

"Querido menino" disseca a dor paterna frente ao vício em drogas do filho


O cinema de um modo geral já expõe nas telas diversas histórias de adolescentes cujos futuros promissores foram esfacelados por razão do consumo excessivo de drogas, dois exemplos marcantes são: "O diário de um adolescente", de 1995, e "Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída", de 1981. Ambas histórias partiam da jornada dos dependentes químicos frente aos sofrimentos, a extasie, a perambulação e a solidão desse universo cruel e, ao mesmo tempo, sedutor. O filme que estreia hoje nos cinemas "Querido Menino" (2018), do diretor Felix Van Groeningen (Alabama Monroe), retrata esse caminho espinho das drogas na juventude com o diferencial da narrativa ser conduzida sob o olhar cuidadoso e atencioso do pai.

A figura paterna no caso é interpretada pelo ator Steve Carell, que dá vida ao jornalista e escritor David Sheff quando este tem sua rotina completamente abalada ao descobrir que seu primogênito, Nic Sheff (Timothée Chalamet), usa todos os tipos de drogas e é viciado em metanfetamina. Sem saber como lidar com a situação, David busca todos os meios possíveis para ajudar o filho a se recuperar e abandonar essa dependência química.

Narrado de forma não linear cujo passado e presente se intercalam, o espectador se depara com o lar acolhedor onde Nic passara a infância, o convívio dele com a segunda esposa de David, Karen (Maura Tierney) e os dois filhos oriundos dessa união e, principalmente, a relação de amizade e cumplicidade entre ele e o pai. Toda essa estrutura familiar exposta de forma afetuosa, se vê submersa em um mundo desconhecido e obrigada a procurar outros mecanismos para compreender a devastação que um dependente em drogas pode causar a todos os envolvidos, incluindo o próprio. 

A questão do acolhimento é ressaltada em todo decorrer da história, seja pelas sequencias com abraços entre David e Nic, quanto na tonalidade da fotografia direcionada para cores quentes e vivas que perpassam a sensação de proteção, segurança e amor.

Destacam-se as performances de Steve Carell e Timothée Chalamet, o primeiro por empregar um olhar carinhoso e ao mesmo tempo devastador frente a progressiva destruição de seu filho e, o segundo, por reverberar com precisão a fragilidade dos anseios humanos entre a vontade de querer parar de usar drogas e, minutos depois, injetar mais uma dose, ou seja, o caminho tortuoso entre as internações em clínicas de reabilitação e as recaídas. Não é por menos que o ator Timothée Chalamet foi indicado ao Globo de Ouro 2019 na categoria Melhor Ator Coadjuvante.

O filme baseado nas memórias do próprio Nic Sheff, lança luz sobre um tema recorrente em pessoas de diferentes classes sociais e raças, uma vez que mesmo uma família branca, classe média americana e heterossexual, considerada como padrão para a sociedade de uma base familiar "estruturada", também está sujeita a encarar de frente o desarranjo de destino de um ente querido.
CineBliss***




Ficha técnica: 

Querido menino (Beautiful boy) 
Estados Unidos, 2018 
Direção: Felix Van Groeningen
Roteiro: David Sheffield, Felix Van Groeningen, Luke Davies, Nic Sheff
Produção: Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner
Fotografia:  Ruben Impens
Montagem: Nico Leunen
Elenco: Steve Carell, Timothée Chalamet, Maura Tierney, Amy Ryan

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Confira os favoritos do CineBliss e possíveis ganhadores do Oscar 2019


No próximo domingo (24) ocorre em Los Angeles, Califórnia, a tão aguardada cerimônia de premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, com a revelação dos profissionais da indústria do cinema que se destacaram em produções de 2018. A 91.ª edição do Oscar poderá ser vista no Brasil pelo canal a pago TNT, a partir das 20h30, e, pelo canal aberto da Rede Globo após o programa Big Brother Brasil.

Antes mesmo de serem anunciados os ganhadores do Oscar 2019,  a cerimônia  já conta com vários assuntos controversos, entre eles, a participação de várias celebridades para apresentarem a festa - algo que não ocorria há 30 anos -, após a desistência do comediante Kevin Hart como apresentador devido a polêmica provocada por tuítes homofóbicos. Outra questão, foi a decisão de relegar quatro categorias para os intervalos comercias com intuito de diminuir a duração do espetáculo, porém, depois de muitas críticas, os organizadores reverteram a escolha e exibirá todas as categorias. A boa notícia fica por conta da confirmação das apresentações musicais dos cinco indicados a Canção Original e também com a performance do Queen com Adam Lambert.

Como não poderia deixar de faltar, o CineBliss preparou uma lista com os favoritos (*) e possíveis ganhadores (**) do Oscar 2019.

(*)Favorito do blog CineBliss
(**)Possível Ganhador 
(#)Favorito do blog CineBliss e possível ganhador   

Melhor Filme
Bohemian Rhapsody 
Infiltrado na Klan 
**A favorita 
Pantera Negra 
Green Book - O guia
*Roma
Nasce uma estrela
Vice  

Diretor 
Spike Lee (Infiltrado na Klan)
Yorgos Lanthimos (A favorita)
#Alfonso Cuarón (Roma) 
Adam McKay (Vice)
Pawel Pawlikoswski (Guerra Fria)  

Atriz 
Lady Gaga (Nasce uma estrela)
#Glenn Close (A esposa)
Yalitza Aparicio (Roma)
Olivia Colman (A favorita)
Melissa McCarthy (Poderia me perdoar?)

Ator
*Christian Bale (Vice) 
Bradley Cooper (Nasce uma estrela) 
William Dafoe (No portal da eternidade)
**Rami Malek (Bohemian Rhapsody) 
Viggo Mortensen (Green Book - O guia) 

Atriz Coadjuvante 
Amy Adams (Vice)
#Regina King (Se a rua Beale falasse) 
Emma Stone (A favorita)
Rachel Weisz (A favorita)
Marina de Tavira (Roma) 

Ator Coadjuvante 
Adam Driver (Infiltrado na Klan) 
#Mahershala Ali (Green Book - O guia) 
Richard E. Grant (Poderia me perdoar?)
Sam Elliot (Nasce uma estrela)
Sam Rockwell (Vice) 

Roteiro Original
#A favorita
No coração da escuridão
Green Book - O guia
Roma
Vice

Roteiro Adaptado
#Infiltrado na Klan
A balada de Buster Scruggs
Poderia me perdoar?
Se a rua Beale falasse
Nasce uma estrela

Filme de Língua Estrangeira
Cafarnaum 
Guerra Fria
Never look away
#Roma
Assunto de família

Melhor Animação 
Os incríveis 2
Ilha dos cachorros
Mirai
WiFi Ralph - Quebrando a internet
#Homem-Aranha: No Aranhaverso

Documentário 
*Free Solo
Hale County 
Miding the gap
Of fathers and sons
**RBG 

Direção de Arte
Pantera Negra
#A favorita
O primeiro homem
O retorno de Mary Poppins
Roma

Figurino 
A balada de Buster Scruggs
*Pantera Negra
**A favorita
O retorno de Mary Poppins
Duas rainhas 

Maquiagem e Penteado
Duas rainhas
#Vice
Border 

Fotografia
Guerra Fria
A favorita
Never look away
#Roma
Nasce uma estrela

Edição
Infiltrado na Klan
Bohemian Rhapsody
A favorita
Green Book - O guia
#Vice

Efeitos Visuais
*Vingadores: Guerra Infinita
Christopher Robin: Um reencontro inesquecível 
**O primeiro homem
Ready player one
Solo: Uma história Star Wars

Canção Original
All the stars (Pantera Negra)
I'll fight (RBG)
The place where lost things go (O retorno de Mary Poppins)
#Shallow (Nasce uma estrela)
When a cowboy troides his spurs for wings (A balada de Buster Scruggs)

Trilha Sonora Original 
*Pantera Negra
**Se a rua Beale falasse
O retorno de Mary Poppins
Infiltrado na Klan
Ilha dos cachorros

Edição de Som
Pantera Negra
**Bohemian Rhapsody
*O primeiro homem
Um lugar silencioso
Roma

Mixagem de Som 
Pantera Negra
**Bohemian Rhapsody 
*O primeiro homem
Roma
Nasce uma estrela

Curta-Metragem
Detoinment
Fauve
#Marguerite
Mother
Skin

Curta de Animação
Animal Behavior 
#Bao
Late Afternoon
One small step
Weekends

Documentário curta-metragem
**Black Sheep 
End game
Lifeboat
A night at the garder
*Period. end of sentence  


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

"Poderia me perdoar?" expõe a versão dramática da atriz Melissa McCarthy


A atriz americana Melissa McCarthy conhecida por papéis cômicos em filmes como "Missão madrinha de casamento" (2011) e "Uma espiã que sabia de menos" (2015), abraça com esmero sua versão dramática no filme "Poderia me perdoar?"(2018), da diretora Marielle Heller. A intérprete ao dar vida a escritora falida Lee Israel, reverbera um sofisticado trabalho de harmonizar o lado tímido e ao mesmo tempo agressivo de sua uma personagem, enrijecida pelo teor naturalista. Não é por menos que o longa-metragem concorre ao Oscar 2019 em três categorias incluindo Melhor Atriz para já citada, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante para Richard E. Grant

Com estreia hoje nas principais salas de cinemas do país, o filme situado em 1991, é baseado na história real de Lee Israel quando esta encontrava-se absorta em problemas financeiros e sociais. Num gesto meio por acaso e desesperador, ela decide forjar cartas de personalidades mortas para conseguir faturar alguma grana. Logo, a ação considerada criminosa ganha proporções ainda maiores, já que suspeitas começam a cair sobre Lee. Sem querer parar de lucrar, ela conta com a ajuda do amigo Jack Hock (Richard E. Grant) para transformar o esquema e passa a roubar os textos originais de bibliotecas.  

Por meio de uma narrativa focada primordialmente na construção gradativa da amizade entre Lee Israel e Jack Hock, o filme perpassa por situações consideradas pela sociedade como não tão glamourosa da condição humana como a solidão, a homossexualidade, o alcoolismo, a humilhação e a criminalidade. Ambos personagens transitam neste universo marginalizado e buscam apoio um ao outro para romperem com esses comportamentos padronizados. 

Vale a pena observar três aspectos técnicos do filme utilizados com virtuosismo, a fotografia com uma paleta de cores douradas para os ambientes internos e um tons cinzas para o externo, condizendo com a índole da personagem Lee Israel em sua dificuldade de socialização e receio em dar voz para si própria em seus escritos. Assim como a trilha sonora composta de comoventes canções de jazz e, como não poderia deixar de mencionar, o trabalho de cenografia que exibe nostálgicos e lindos modelos de máquinas de escrever.
CineBliss***


Ficha técnica: 
Poderia me perdoar? (Can you ever forgive me?
Estados Unidos, 2018
Direção: Marielle Heller 
Roteiro:  Jeff Whitty, Nicole Holofcener
Produção: Amy Nauiokas, Anne Carey, David Yarnell
Fotografia: Brandon Trost
Montagem: Anne McCabe
Elenco:  Melissa McCarthy, Richard E. Grant

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

"Guerra Fria" contagia com um romance intenso e uma embriaguez estética



Estreia hoje nas principais salas de cinema do país o filme polonês "Guerra Fria" (2018), indicado em três categorias ao Oscar 2019 incluindo Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Fotografia e Melhor Diretor para Pawel Pawlikowski (Ida). Como o próprio título já sugere, o momento histórico da Guerra Fria (1947-1991) se faz presente na narrativa como uma das barreiras enfrentadas pelos personagens apaixonados Wiktor (Tomasz Kot) e Zula (Joanna Kulig).  

Ambos foram inspirados na vida dos pais do cineasta cujos nomes são os mesmos dos protagonistas. Pawel Pawlikowski, dedica o filme aos entes queridos e comenta ter optado não contar a história deles como realmente foi, mas ter deixado traços marcantes da personalidade de cada um nos personagens. "Incompatibilidade de temperamento, incapacidade de ficar juntos e anseio de estar quando estão separados", relata o diretor. 

No longa-metragem, Wiktor é um músico famoso que contrata a jovem cantora Zula para participar de um espetáculo artístico, cujo intuito é resgatar as origens polonesas. Logo, os dois se veem imersos em um amor intenso e autodestrutivo. Como já citado acima a questão política do totalitarismo e as índoles distintas como obstáculos para o casal, há também o exílio, a tentativa de adaptar-se a uma cultura diferente e as tentações da carne.  

Vale destacar as sequencias em que a personagem Zula canta ao microfone toda a dor existente em sua alma de forma poética e profunda. Assim como, o deleite visual da fotografia em preto e branco assinada por Lukasz Zal, que proporciona uma pura imersão do espectador frente à uma história de amor arrebatador traduzida em imagens e sons.

O filme transita por diferentes períodos e em diversos países da Europa como França, Polônia e a antiga Iugoslávia, apresentando uma busca por identidade do povo polonês, as dicotomias entre capitalismo versus socialismo, o papel da arte e, acima de tudo, o amor e o desejo como combustíveis para viver, tanto quanto para decisões irracionais e irreversíveis. 
CineBliss ****
#Filme visto na 42a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 



Ficha Técnica: 

Guerra Fria (Zimna Wojna)
Polônia, 2018
Direção: Pawel Pawlikowski 
Roteiro: Janusz Glowacki, Pawel Pawlikowski, Piotr Borkowski
Produção: Ewa Puszczynska, Malgorzata Bela, Piotr Dzieciol, Tanya Seghatchian
Fotografia: Lukasz Zal
Montagem: Jaroslaw Kaminski
Elenco: Tomasz Kot, Joanna Kulig