quarta-feira, 15 de maio de 2019

"A espiã vermelha" compartilha a versão feminina sobre o universo da espionagem


Narrativas cinematográficas envolvendo o universo da espionagem com a névoa de tensão e incerteza pairando no ar sobre os personagens é algo recorrente. No entanto, raras são às vezes que esse modelo é aplicado para o protagonismo feminino, ou seja, a mulher como a agente ativa nesse labirinto conflitante entre passar adiante ou não a informação confidencial. Essa exceção é a matéria-prima para o filme "A espiã vermelha" (2018), que estreia amanhã (16) nas principais salas de cinema do país. 

Dirigido pelo inglês Trevor Nunn, o longa-metragem acompanha a aposentada Joan Stanley (Judi Dench), quando inesperadamente tem sua vida mudada com a visita do serviço secreto britânico MI5. Ao ser interrogada pelos investigadores, a narrativa desloca-se do presente para o passado da protagonista - interpretado por Sophie Cookson -, em sua chegada na Universidade de Cambridge, em 1938.

Nesse período, o espectador imerge na jornada de Joan quando ingressa em um cineclube do partido comunista e, logo se apaixona pelo militante, Leo (Tom Hughes). À partir desse encontro, de seus estudos e trabalho na área de física e suas convicções, a protagonista se solidariza em compartilhar dados com o Comitê de Segurança Russo (KGB), sobre o projeto secreto envolvendo a construção da bomba atômica.   

O filme baseado na história real de Melita Norwood - uma inglesa descoberta como espiã aos 87 anos -, constrói o roteiro com o cruzamento entre o passado e o presente, enaltecendo o protagonismo feminino por meio da independência, da inteligência e intuição de Joan. A personagem dotada de um espírito moderno, destaca-se por ingressar na Universidade na área de ciências, ter amantes e, principalmente, na convicção de lutar por um ideal, aspectos bem incomuns para mulheres no final da década de 1930. 

Esse retrato singular da espionagem desempenhada por uma mulher nesse período, transparece a imensidão da divisão entre homens e mulheres, uma vez que o universo feminino é mostrado com total desconhecimento e pavor por parte de alguns personagens masculinos. Como na sequencia do soldado ao abrir a bolsa de Joan e deparar-se com uma caixa de absorvente. Esses apetrechos femininos tornam-se aliados para se sobressair nessa empreitada e não levantar suspeitas em um mundo machista. 

Com uma fotografia distinta pela tonalidade cinza (representando o presente) e cores quentes (para o passado), o filme proporciona uma história profundamente imersiva, complexa, política e, por que não, também romântica. Um vislumbre bem construído da possibilidade de uma mulher ser visível e contribuir para um mundo melhor em um período dominado pelos homens. 
CineBliss**** 





Ficha Técnica: 

A espiã vermelha (Red Joan)
Reino Unido/ Irlanda do Norte, 2018
Direção: Trevor Nunn
Roteiro: Lindsay Shapero
Produção: Alice Dawson, David Parfitt
Fotografia: Zac Nicholson
Montagem: Kristina Hetherington
Elenco: Judi Dench, Sophie Cookson, Tom Hughes, Steven Campbell Moore, Teresa Srbova, Ben Miles

terça-feira, 7 de maio de 2019

O filme húngaro "Entardecer" enaltece o protagonismo feminino e flerta com os prenúncios da Primeira Guerra Mundial


O diretor e roteirista húngaro László Nemes, vencedor do Oscar 2016 na categoria Melhor Filme Estrangeiro por "O filho de Saul", lançou nos cinemas seu mais recente trabalho, "Entardecer" (2018). O filme que logrou o prêmio FIPRESCI – Federação Internacional dos Críticos de Cinema na última edição do Festival de Veneza, é situado em 1913, em Budapeste, em um período pré-Primeira Guerra Mundial com o início do esfacelamento do Império Austro-húngaro. 

Na cidade de intenso movimento e circulação de pessoas de diferentes línguas, a jovem Irisz Leiter (Juli Jakab) retorna após anos de reclusão no interior do país, em busca de suas origens. O primeiro lugar ao qual se destina é a loja de chapéus Leiter, que por muitos anos pertenceu a sua família. Ali, ela consegue um trabalho e, logo descobre a existência de um suposto irmão que simplesmente desapareceu. 

Nesse contexto, ela decide ir atrás de seu parente mais próximo, porém, conforme ela se aprofunda em sua investigação pelas ruas escuras de Budapeste, mas ela observa a podridão da sociedade permeada em revestimentos de luxo, poder, aparência, violência contra as mulheres, trabalho escravo, entre outros. 

Assim como em "O filho de Saul" cujo protagonista empenha-se com uma força esmagadora em realizar sua missão de enterrar o menino que toma como seu, em "Entardecer", Irisz Leiter assume esse posto e potencializa toda sua energia em encontrar o paradeiro de seu único familiar. Mesmo sozinha, perdida e assediada em várias ocasiões, a personagem principal emprega atos de bravura em uma civilização dominada pelos homens. 

Se Budapeste é vista como um turbilhão às vésperas de sua ruína, a mesma intensidade é aplicada aos movimentos de câmera grudada na protagonista na maioria das vezes com enquadramentos tanto do rosto ou da nuca. Esse fator segundo o diretor: "possibilita uma abordagem altamente íntima em um filme de época incomum" e, realça a sensação de desorientação e tensão vivenciada tanto pela personagem Irisz Leiter quanto pelo espectador. 

Mesmo retratado historicamente em um momento de prenúncio de brutalidade, o filme trabalha com uma fotografia tomada pela tonalidade dourada com bastante luz solar, contrapondo-se vez ou outra com a escuridão da noite durante as perambulações da protagonista. À vista disso, essa ótica simbólica permite transparecer um ar nostálgico de um momento de cosmopolitismo e glamour que está com seus dias contados. "Entardecer", é uma amostragem singular da sociedade europeia ainda inconsciente sobre seu destino, sob o viés do olhar feminino.
CineBliss****




Ficha técnica:

Entardecer (Napszállta)
Hungria/França, 2018
Direção: László Nemes
Roteiro: László Nemes
Produção: Gábor Sipos 
Elenco: Juli Jakab, Vlad Ivanov, Judit Bárdos,

sexta-feira, 3 de maio de 2019

"Tudo o que tivemos" é um retrato comovente dos conturbados laços familiares


Conflitos familiares é um tema recorrente em narrativas cinematográficas sendo vez ou outra revisitado em diversos gêneros. Como na comédia romântica "Tudo em família", de 2005, de Thomas Bezucha, ou no drama "Álbum de família", de 2013, de John Wills. Se no primeiro a lavagem de roupa suja acontece em uma reunião natalina, no segundo, o estopim se dá por conta de uma enfermidade envolvendo a matriarca. A junção desses dois argumentos - celebração de final de ano e doença - são a força motriz para o drama familiar "Tudo o que tivemos" (2018), da diretora e roteirista Elizabeth Chomko.

Estrelado por um elenco em estado de graça, a começar pela ganhadora do Oscar Hilary Swank, seguindo pelo atores Michael Shannon, Robert Forster e Blythe Danner, esse conjunto de intérpretes unem-se para dar vida aos membros da família Everhardt, respectivamente a filha Bridge, o filho Nicky, o pai Burt e a mãe Ruth. O pulsar de cada um desses personagens transbordam as angústias e incertezas da vida em meio à uma tragédia familiar.

Às vésperas das celebrações de final de ano, na cidade de Chicago, Ruth desaparece em meio a uma tempestade de neve devido ao Alzheimer. O evento faz com que Bridget junto de seu filha Emma (Taissa Farmiga), desloque-se da Califórnia para a casa dos pais. No reencontro familiar, ela depara-se de um lado com Nicky ansioso para internar a mãe em uma clínica especializada, do outro lado, o pai, teimoso e apaixonado pela esposa, insistindo em deixá-la em casa. No meio dessa divergência de ideias, encontra-se Bridget indecisa sobre qual o melhor caminho para o destino de sua mãe e do seu próprio, uma vez que também perpassa por um momento de crise em sua vida amorosa.

Nesse caldeirão de nervos à flor da pele, o roteiro busca trabalhar com vários temas de cunhos universais como a velhice, a morte, o casamento, o amor, a religião, o patriarcalismo, a maternidade, a instituição família e a memória. Esse último perpassa por todo decorrer da história, seja pela força de vontade de Burt de relembrar Ruth de seu passado, das fotografias em constante destaque ou na própria perda da memória, efeito colateral da doença.

O cruzamento dessas questões é construído de modo primoroso e profundo. Como pode ser visto na sequencia em que Bridget, pela primeira vez contesta o pai sobre suas escolhas tanto no casamento quanto na religião. Ao mesmo tempo, observa-se também um certo tom de jocosidade nos diálogos, principalmente oriundos do cético e amargo Nicky, como quando fala que a mãe está hidratada após beber água benta. 

"Tudo o que tivemos" consegue sobressair-se aos dois exemplos citados acima, em virtude de contemplar assuntos caros para as pessoas como o medo da solidão ou o medo de envelhecer de um modo humano, frágil e visceral, sem apelar para excessos ou maneirismos como ocorre nos anteriores.
CineBliss****




Ficha técnica: 

Tudo o que tivemos (What they had)
Estados Unidos, 2018
Direção: Elizabeth Chomko
Roteiro: Elizabeth Chomko
Produção: Albert Berger, Bill Holderman, Keith Kjarval, Sefton Fincham, Alex Saks, Ron Yerxa, Hilary Swank
Elenco: Hilary Swank, Michael Shannon, Blythe Danner e Robert Forster, Taissa Farmiga

quinta-feira, 25 de abril de 2019

"O ano de 1985" embriaga as telas com uma história imersiva e humana


O início da década de 1980 é marcado pelos primeiros registros de casos de AIDS em metrópoles norte-americanas como Nova Iorque, São Francisco e Los Angeles. Logo, o número de pessoas infectadas pelo vírus HIV alastra-se por outras partes do mundo, o que demanda dos órgãos de saúde uma ação imediata para conter a doença. Todavia, só a partir de *1986 é que surgem os primeiros medicamentos, no caso o AZT ou azidotimidina, primeira droga antiviral aprovada pelo Food and Drug Administration (FDA) para ajudar no combate a mortalidade geral dos infectados. Nesse estágio de descobrir as causas, de estudos, de medicamentos e prevenção, milhares de portadores do vírus HIV tiveram suas vidas interrompidas.

Partindo desse pressuposto, o longa-metragem que estreia hoje nos cinemas "O ano de 1985" (2018), inspirado no premiado curta-metragem "1985", de 2016, ambos dirigidos Yen Tan (Pit stop) retrata o doloroso e comovente processo de estar em contato com o vírus HIV nesse período repleto de incertezas, medos e sem nenhuma perspectiva de cura. No foco, está  o jovem Adrian (Cory Michael Smith), quando retorna para o Texas para celebrar o Natal com a família, após ficar três anos longe morando em Nova Iorque. Neste ambiente familiar, Adrian busca se reconectar com os entes queridos e amigos, ao mesmo tempo que tenta lidar com a dor do luto de ter perdido vários amigos para a AIDS e, em revelar seu maior e penoso segredo.

Esse tipo de jornada de aproximação e despedida ao lado da família por causa do vírus HIV já foi alvo de várias narrativas cinematográficas, como no caso do filme francês "É apenas o fim do mundo" (2016), do diretor Xavier Dolan. Nesse drama, o protagonista ao visitar à família depara-se com um ambiente absorto de mágoas, choros e discussões em voz alta. O que era para ser um instante precioso de adeus para o personagem torna-se um momento propício para os familiares vomitarem verborragicamente traumas do passado. 

Em "O ano de 1985", diferentemente a abordagem não busca lavar a roupa suja, já que também há assuntos mal resolvidos, mas em acolher e humanizar o caráter e as dores dos personagens. Isso se vale tanto para Adrian, quanto para a mãe e o pai - interpretado respectivamente pelos atores Virginia Madsen e Michael Chiklis. Os pais oriundos de uma sociedade conservadora, patriarcal e religiosa, buscam conectar-se com o filho, cada um do seu modo, proporcionando cenas de pura emoção e demonstrando performances que mesclam o afeto e o rigor técnico. Tal como na sequencia em que o pai diz à Adrian: "Você sempre pode contar comigo" ou a mãe para o mesmo: "Quando você estiver preparado para falar. Eu vou estar preparada para ouvir".

O modo como essas relações familiares fragmentadas são cuidadosamente trabalhadas ganha destaque no vínculo de cumplicidade entre Adrian e o irmão adolescente, Andrew (Aidan Langford). Vide as cenas em que os dois dialogam sobre gostos musicais. Se o primeiro buscou encontrar sua felicidade em outro lugar e caminha submerso em sofrimento pelos lutos de seus amigos titubeando na linha tênue entre a vida e a morte. O segundo por sua vez, encontra-se com um futuro inteiro à sua frente e inspirado pela coragem do irmão de ter saído de um local ao qual não pertencia. 

Mesmo com o tema do vírus HIV pairando toda a história, a doença em si não é citada e transforma-se em um despertar para outras questões tais como laços familiares, a sensação de não pertencimento, bullying, a homossexualidade, a virilidade masculina, certos preconceitos, a morte, entre outros. Esse conjunto de tópicos é trabalhado pelo roteiro de modo sensível, primoroso e imersivo. Não é à toa, a escolha da fotografia em preto e branco que torna o drama ainda mais verossímil, segundo o diretor.
CineBliss*****
 


Ficha técnica: 

O ano de 1985 (1985)
Estados Unidos, 2018
Direção: Yen Tan 
Roteiro: Hutch, Yen Tan 
Produção: Hutch, Ash Christian, 
Elenco: Cory Michael Smith, Virginia Madsen, Michael Chiklis, Jamie Chung, Aidan Langford
*Referencia tirada no artigo: http://www.boasaude.com.br/artigos-de-saude/3838/-1/historico-da-aids-uma-historia-de-lutas-decepcoes-guerra-de-vaidades-e-coragem.html

quinta-feira, 18 de abril de 2019

"Amor até as cinzas" transita na linha tênue entre amor, lealdade e justiça


O diretor chinês Zhangke Jia, em 2015, embriagou as telas de cinema com o poético triângulo amoroso em "As montanhas se separam", tendo como pano de fundo o fomento do capitalismo na China. Quatro anos depois, ele entrega a mesma profundidade das relações humanas no filme "Amor até as cinzas" (2018), agora com o país oriental já impregnado pela máquina do capital e, consequentemente, refém das desigualdades sociais e dos excluídos do submundo.

O filme que fez parte da seleção oficial do Festival de Cannes 2018, estreia hoje nos cinemas com uma história visceral de amor entre a jovem Qiao (Tao Zhao) e um pequeno mafioso local, Bin (Liao Fan). A narrativa situada em Datong, China, é dividida em três tempos distintos e permeia o universo dos negócios clandestinos ritualizado pela concepção de lealdade e justiça.

Durante uma briga entre gangues rivais, Qiao dispara um tiro para proteger o amado. Por esse ato, ela é encarcerada na prisão por cinco anos. Ao adquirir a liberdade, a protagonista decide procurar por Bin e retomar o relacionamento de onde pararam. No entanto, ela se depara com algo completamente diferente do esperado e precisará de coragem para lidar com esse novo cenário. 

Novamente a atriz chinesa Tao Zhao - casada com o diretor - é submetida a uma jornada de provações intensas e de puro sofrimento, se em "As montanhas se separam", ela tinha como conflito escolher qual pretendente e, depois, relacionar-se com o filho. Em "Amor até as cinzas", o amor é só por uma pessoa, mas as imposições para ser leal a esse amor é em um nível demasiado. Tanto que a aparência física da personagem transforma-se no decorrer do drama, no início observa-se uma vivacidade e uma certa inocência, para posteriormente, dar vazão à um rosto cansado e desiludido. 

Zhangke Jia mais uma vez trabalha com o paralelo entre Ocidente versus Oriente, seja na escolha da trilha sonora mesclada com canções orientais e a clássica "YMCA", do grupo Village People, ou com o destaque dado da performance de dança de salão feita por um casal de dançarinos chineses. Do mesmo modo, nota-se a importância concebida às tecnologias e ao dinheiro. Esse último, é enquadrado com veemência em várias cenas, como por exemplo na sequencia em que o chefe da máfia oferece um punhado de notas para Qiao comprar roupas, ou quando a mesma é alvo de um roubo e fica sem nenhum tostão. 

Em suma, "Amor até as cinzas" constrói um mosaico honesto das relações humanas fundamentadas no afeto, no desejo, na dignidade, na reputação, no perdão, na cumplicidade e na traição, com a passagem do tempo como pano de fundo. Um cenário desolador, mas que pulsa por meio de um balé de emoções e raios poéticos. 
CineBliss*****


Ficha técnica: 

Amor até as cinzas (Jiang hu er nv)
China/Japão/França, 2018
Direção: Zhangke Jia
Roteiro: Zhangke Jia
Produção: Nathanaël Karmitz, Olivier Père, Shozo Ichiyama
Fotografia: Éric Gautier
Montagem: Matthieu Laclau
Elenco: Tao Zhao, Liao Fan, Xiaogang Feng

terça-feira, 16 de abril de 2019

"O mau exemplo de Cameron Post" potencializa a discussão sobre o polêmico tema da cura gay



Se no começo deste ano o espectador não pôde conferir nos cinemas a estreia do filme "Boy erased: Uma verdade anulada" (2018), do diretor Joel Edgerton, que tinha como tema a polêmica da 'cura gay'. Por sorte, o mesmo destino não foi dado para o longa-metragem que estreia nesta quinta-feira (18) nas telonas, "O mau exemplo de Cameron Post" (2018) cuja narrativa aborda a mesma questão. Dirigido pela diretora Desiree Akhavan (Uma boa menina) e ganhador do Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance, o filme baseado no livro homônimo de Emily M. Danforth, destaca a jornada da adolescente Cameron (Chloë Grace Moretz), quando é pega beijando outra menina no baile de formatura.

Morando com a tia desde a morte dos pais, Cameron é encaminhada para um centro religioso de 'cura gay'. No local, a jovem ainda incerta sobre sua identidade, depara-se com outros adolescentes vivendo dilemas semelhantes aos seus e obrigados a submeterem-se a uma doutrina rigorosa e métodos um tanto quanto suspeitos para 'supostamente' tornarem-se heterossexuais. Nesse mesmo ambiente, Cameron conhece “Jane Fonda” (Sasha Lane) e Adam (Forrest Goodluck), ambos sujeitos à mesma realidade, mas que lutam para manterem suas identidades e suas opões sexuais. Juntos, os três descobrirão o laço afetivo da amizade e o valor de buscarem a liberdade de serem o que quiserem. 

A construção do roteiro preza por uma abordagem profunda e delicada sobre as descobertas da sexualidade na adolescência, ao mesmo tempo que mostra os dispositivos de cunho religioso utilizados para bloquearem os desejos desde jovens. Desejos estes, que não condizem com o 'aceitável' pela sociedade da época - década de 1990 -, ou seja, sentir atração pelo mesmo sexo é ainda considerado pecado. 

Ao longo de toda narrativa observa-se a violência psicológica ao quais os jovens são forçados a presenciarem na tentativa de desconstruirem suas orientações sexuais, reverberando o doloroso processo de obrigar uma pessoa a ser o que ela não é. Isso é evidente em duas falas emblemáticas da protagonista, em situações diferentes: "Estou cansada de sentir nojo de mim" ou "Como se pode confiar nessas pessoas que fazem você odiar a si mesmo". 

Chloë Grace Moretz, enquadrada com vários close up no filme, está em estado de graça como Cameron, sua performance mescla o apetite sexual, a insegurança, a solidão e a brutalidade emocional de um modo hipnotizante e carismático. A cena com ela na cozinha descascando batatas ao lado dos outros companheiros e, ao ouvir a canção "What's up", de 4 Non Blondes, a personagem sobe na mesa e canta, é de puro encantamento e libertário. Também vale destacar os personagens de Sasha Lane e Forrest Goodluck pois trazem um outro olhar sobre a mesma problemática, a primeira de origem negra e o segundo indígena, enriquecendo ainda mais a provocação da narrativa. 

"O mau exemplo de Cameron Post", é um filme necessário e urgente para despertar inúmeras reflexões sobre a interferência dos pais na sexualidade de seus filhos, quando estes não correspondem às suas aspirações e, principalmente, em debater as imposições da sociedade de querer fazer valer apenas uma única forma de viver a vida, excluindo outras culturas, raças, gêneros e orientações sexuais.  
CineBliss*****
#Filme visto na 42a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 



Ficha técnica: 

O mau exemplo de Cameron Post (The miseducation of Cameron Post)
Estados Unidos, 2018
Direção: Desiree Akhavan 
Roteiro: Cecilia Frugiuele, Desiree Akhavan, Emily M. Danforth
Produção: Alex Turtletaub, Cecilia Frugiuele, Jonathan Montepare, Michael B. Clark, Rob Cristiano
Fotografia: Ashley Connor
Montagem: Sara Shaw
Elenco: Chloë Grace Moretz, Jennifer Ehle, John Gallagher Jr., Sasha Lane, Forrest Goodluck

quinta-feira, 11 de abril de 2019

"De pernas pro ar 3" chega aos cinemas hoje com uma história divertida e nutrida por vários temas atuais da sociedade

Marcelo Saback, Denise Weinberg, Julia Rezende, Ingrid Guimarães, Bruno Garcia, Mariza Leão, Samya Pascotto,
Eduardo Mello

O sucesso da atriz Ingrid Guimarães, como Alice, na franquia "De pernas pro ar" chega ao terceiro longa-metragem hoje nos cinemas. Se no primeiro o foco da protagonista baseava-se em romper com padrões na discussão do prazer feminino e na apresentação de vários 'brinquedos' eróticos, como o vibrador. Nove anos depois, a narrativa acompanha os avanços da sociedade, em particular das mulheres, na inserção de temas atuais do feminismo, na introdução de novos utensílios eróticos em comunhão com a tecnologia e, na inclusão de personagens jovens se relacionando com o sexo. 

Dirigido por Julia Rezende (Meu passado me condena, Um namorado para minha mulher), a comédia "De pernas pro ar 3" (2018)  apresenta a empresa Sexy Delícia em pleno turbilhão de vendas em toda parte do mundo, exigindo de Alice total dedicação ao trabalho com inúmeras viagens para vários países e praticamente pouca atenção à família. Nessa conjuntura, resta ao marido João (Bruno Garcia), cuidar do adolescente Paulinho (Eduardo Mello) e da caçula, Clarinha (Duda Batista). Por sua vez, Alice atormentada pela sensação de culpa, decide aposentar-se para ficar mais próxima dos entes queridos e entrega os negócios à sua mãe, Marion (Denise Weinberg). No entanto, o descanso não dura muito devido ao surgimento de Leona (Samya Pascotto), uma jovem empreendedora do mundo tecnológico que busca encontrar seu espaço no mesmo segmento da Sexy Delícia. 

Além do habitual cenário do Rio de Janeiro com as belas paisagens naturais, a continuação desloca os personagens para a deslumbrante e romântica Paris. Além de promover cenas em vários pontos turísticos da capital francesa - despertando o imaginário do espectador -, a cidade alimenta momentos de decisões importantes para a jornada de Alice. 

O roteiro assinado por Marcelo Saback, Rene Belmont e a própria Ingrid Guimarães, busca mesclar o lado cômico e neurótico da protagonista com certos aspectos dramáticos, viabilizando observar certas questões femininas mais afinco. Como a sensação de culpa presente na vida de várias mulheres divididas entre o trabalho e atenção à família, a relação de mãe e filho adolescente, a competitividade entre mulheres de gerações diferentes, a sororidade (união e aliança entre as mulheres), os conflitos do casamento e, como não podia deixar de fazer parte, a busca pela satisfação sexual feminina na era tecnológica. 

Todavia, a narrativa peca em algumas cenas forçadas ou para o lado dramático ou irônico que não agrega para o desenrolar das ações. Isso pode ser visto na sequencia com a pequena participação de Marcela (Maria Paula), que explica para Alice certos conceitos zen e, a segunda, ao tentar aplicar os ensinamentos com a família é interrompida por Leona e o assunto não é retomado depois.

Vale destacar a sequencia de puro deleite sensual com a participação do ator Cauã Reymond - como ele mesmo -, seduzindo a protagonista em uma realidade virtual ao som da canção "Meu sangue ferve por você", de Sidney Magal. A atriz Ingrid Guimarães comentou na coletiva de imprensa de ter sido dela a ideia de convidar o ator: "Eu queria que fosse um ator que tivesse no inconsciente coletivo das mulheres e dos homens também... de ser o simbólo do homem bonito e sexy".  

À vista disso, "De pernas pro ar 3", cativa o espectador com uma história divertida nutrida por questões significativas referentes às transformações de comportamento, das relações humanas e, das mulheres. E, novamente, a atriz Ingrid Guimarães esbanja carisma e vivacidade no papel de Alice.
CineBliss ***






Ficha técnica: 

De pernas pro ar 3 (De pernas pro ar 3)
Brasil, 2018
Direção: Julia Rezende
Roteiro:  Ingrid Guimarães, Marcelo Saback, Rene Belmonte
Produção: Mariza Leão
Fotografia: Dante Belluti
Montagem: Maria Rezende
Elenco: Ingrid Guimarães, Bruno Garcia, Denise Weinberg, Samya Pascotto, Eduardo Mello, Duda Batista