segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

O longa-metragem cearense "Inferninho" brilha e contagia o público na 22a Mostra de Cinema de Tiradentes

João Dumans, Rafael Martins, Lila Foster, Guto Parente.

A 22a Mostra de Cinema de Tiradentes exibiu na noite de ontem (20) o longa-metragem cearense "Inferninho" (2018), dos realizadores Guto Parente e Pedro Diógenes, na Mostra Corpos Adiante. Aplaudido fervorosamente pelo público presente, a narrativa que se situa em um pequeno espaço de um bar, desenvolve uma reflexão sobre personagens um tanto quanto patéticos e excluídos da sociedade, cuja presença no local denota uma busca por refúgio de um mundo cruel e permite um acolhimento por parte do espectador. 

"Inferninho", nome dado ao estabelecimento, tem como dona a personagem Deusimar, uma mulher trans que logo nos primeiros minutos de duração do filme, se apaixona pelo marujo recém-chegado, Jarbas. O aparecimento desse sujeito, desperta na protagonista uma potência de estar viva e se sentir viva, ao ponto dela optar por querer vender o bar herdado de sua família para o governo e, com isso, ter coragem para vivenciar experiências fora de seu bar. 

Numa mistura entre teatro e cinema, em que tanto o cenário quanto os personagens transparecem um universo falso, o público é contagiado por aspectos humanos de uma história convencional, mas que se impõe no estilo, na performance e na conectividade dos atores. 

Se num primeiro momento, o gênero comédia se faz mais visível por meio de figuras fantasiadas de super-heróis bebendo cerveja, logo, a narrativa se transforma num melodrama com questões existenciais tais como a solidão, a busca pelo amor, o fatalismo e a falta de esperança. 

Para o roteirista e ator Rafael Martins: "não são os super-heróis que irão nos salvar, mas a conectividade, o afeto e a empatia". São justamente esses elementos que enaltecem o longa-metragem e permite ao espectador lidar com diversas experiências do sensível, especialmente na sequência do monólogo do Coelho.

Não deixem de conferir tudo o que acontece na 22a Mostra de Cinema de Tiradentes no Instagram @macknight_travel_movie e também nas publicações do blog. Para maiores informações acesse o site Mostra de Tiradentes
CineBliss
 
 
 
 

domingo, 20 de janeiro de 2019

CineBliss está presente na 22a Mostra de Cinema de Tiradentes



O Blog CineBliss tem o privilégio de iniciar os trabalhos em festivais pelo Brasil, em 2019, na belíssima cidade de Tiradentes, em Minas Gerais, na 22a Mostra de Cinema de Tiradentes. O evento que acontece entre os dias 18 a 26 de janeiro, exibe um total de 108 títulos e discute a expressividade dos corpos na produção artística. 

A grande homenageada este ano da Mostra é a atriz, diretora e dramaturga mineira Grace Passô, cujo média-metragem "Vaga carne", de sua autoria e de Ricardo Alves Jr. foi o título selecionado para abrir o festival na noite de sexta-feira (18). Ontem, o público pôde conferir o trabalho da atriz nos filmes na Mostra Homenagem "Temporada", de André Novais Oliveira, "Elon não acredita na morte", de Ricardo Alves Jr., e na performance teatral inédita "Grão da Imagem", realizada em parceria com o músico Barulhista, que ocorreu na madrugada de sábado para domingo no Sesc Cine-Lounge.

A programação para este domingo (20) conta com a pré-estreia nacional do longa-metragem cearense "Inferninho" (2018), dos realizadores Guto Parente e Pedro Diógenes, do documentário "Clementina" (2018), da carioca Ana Rieper e de "Tragam-me a cabeça de Carmen M." (2019), de Felipe Bragança e Catarina Wallenstein.

Não deixe de conferir tudo o que acontece na 22a Mostra de Cinema de Tiradentes no Instagram @macknight_travel_movie e também nas publicações do blog. Para maiores informações acesse o site Mostra de Tiradentes
CineBliss





terça-feira, 15 de janeiro de 2019

"O peso do passado" explora o âmago da sensação de culpa e apresenta uma irreconhecível Nicole Kidman


Para os fãs da atriz Nicole Kidman acostumados a ver sua beleza saltitar nas telas do cinema, assistir ao seu novo filme "O peso do passado" (2018), com certeza deixará muitos atônitos com a aparência física da australiana. O thriller policial que estreia nesta quinta-feira (17) nas principais salas de cinema do país, é dirigido pela diretora Karyn Kusama (Garota Infernal) e se destina na jornada de redenção da detetive do Departamento de Polícia de Los Angeles, Erin Bell (Nicole Kidman).

Em uma de suas primeiras tarefas como investigadora, Erin se infiltra em uma gangue de assaltantes de banco e seu trabalho acaba em um final trágico. Carregando o peso da culpa por anos, a protagonista encontra uma possível chance de se redimir quando se depara com uma pista para encontrar o líder do grupo, o assassino Silas (Toby Kebbell).

A cidade de Los Angeles, cenário do filme e vista sob os olhos de Erin, aparece decrépita, seca e sem o glamour. Algo bem semelhante a Nicole Kidman, como já mencionado acima de sua aparência irreconhecível, em que expressa em seu olhar o vazio e, seu corpo vagueia com o peso do remorso do passado de sua personagem, o que lembra um zumbi - nem morta, nem viva. O porte físico supostamente frágil de Erin, não condiz com seu comportamento tanto na demonstração de valentia para lidar com as situações de perigo, quanto em sua relação de frieza com a filha adolescente. A interpretação da atriz já lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Drama e tem grandes chances de também ser lembrada na premiação do Oscar, em fevereiro, na mesma categoria.

Todo o desenrolar das ações da narrativa são movidas pela sensação de culpa que assombra a protagonista. Esse fator, acaba direcionando a história para um ritmo lento e algumas vezes um pouco enfadonho, sem desmerecer a reviravolta espetacular do final.
CineBliss **
#Filme visto no Festival do Rio 2018





Ficha técnica: 

O peso do passado (Destroyer)
Estados Unidos, 2018
Direção: Karyn Kusama 
Roteiro: Matt Manfredi, Phil Hay
Produção: David Diliberto, Fred Berger, Matt Manfredi, Phil Hay
Fotografia: Julie Kirkwood
Elenco: Nicole Kidman, Sebastian Stan, Bradley Whitford, Toby Kebbell

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

"A nossa espera" sensibiliza a real e conflituosa experiência da paternidade


Se em 1979 a personagem de Meryl Streep surpreendeu o espectador ao deixar o filho aos cuidados do pai - interpretado por Dustin Hoffman -, no filme "Kramer x Kramer", do diretor Robert Benton. Em 2019, esta mesma ação é o estopim para discutir a paternidade no filme francês, "A nossa espera"(2018), do diretor Guillaume Senez (9 meses). 

No drama, o protagonista Olivier (Romain Duris), vive uma rotina dedicada quase que exclusivamente ao trabalho exaustivo em uma fábrica de encomendas. Não lhe resta tempo para ficar ao lado da esposa Laura (Lucie Debay) e dos filhos Elliot (Basile Grunberger) e Rose (Lena Girard Voss). Simplesmente sem nenhuma explicação, Laura abandona o marido e as crianças e, assim, transfere as responsabilidades de mãe e dona de casa para Olivier. Sem intimidade com essas funções, ele precisa dividir seu tempo para cuidar dos dois, trabalhar, fazer os serviços domésticos e lidar com a dor da ausência da esposa. 

O ritual da ida ao trabalho como garantia de sobrevivência, torna-se para Olivier apenas mais um item de sua lista de obrigações, já que estar presente para os filhos exige algo maior como a atenção, o cuidado e o afeto. No meio dessa radiografia do despertar para paternidade, há também uma crítica ao trabalho alienante e desvalorizado da sociedade capitalista. A cada jornada no emprego, Olivier se surpreende com alguma injustiça da fábrica, tanto em demissões sem justa causa como na ausência de relações mais humanas.

Romain Duris, ator francês conhecido pelo filme "Albergue espanhol" (2002), transmite com primor a inércia paterna e a progressiva solidão que toma conta de seu personagem. Tanto que a fisionomia de Olivier projeta de modo crescente a sensação de desorientação e falta de tempo, assim como, o movimento corporal descreve a situação emocional desse pai ao ser visto em praticamente todas as cenas ofegante, cansado e disperso.  

O roteiro com a intensa carga dramática, consegue sensibilizar a real e conflituosa experiência paterna, sem deixar-se mergulhar em clichês ou em sequências enfadonhas. Mesmo assim, existe espaço para o saltitar de algumas lágrimas, como por exemplo nas cenas de despedida da tia pós aniversário de Rose ou na pintura da fachada da casa.
CineBliss ***
*Filme visto no Festival do Rio 2018







Ficha técnica: 

A nossa espera (Nos Batailles)
Bélgica/França, 2018
Direção: Guillaume Senez 
Roteiro:  Guillaume Senez, Raphaëlle Desplechin
Produção: Bart Van Langendonck, David Thion, Isabelle Truc
Fotografia: Elin Kirschfink
Montagem: Julie Brenta
Elenco: Romain Duris, Lucie Debay, Basile Grunberger, Lena Girard Voss

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

"Culpa" provoca uma experiência inquietante com alto grau de tensão e mistério


O toque sonoro de uma ligação telefônica para algumas pessoas pode sinalizar a ocorrência de alguma notícia alegre ou catastrófica, no caso de pessoas que trabalham em centrais telefônicas de emergências, o som do telefone quase sempre está relacionado ao último caso. Partindo desse pressuposto, o filme dinamarquês que estreia hoje nos cinemas, "Culpa" (2018), do diretor estreante Gustav Mölle, busca conduzir sua história de tensão e mistério.

"Culpa", escolhido para representar a Dinamarca na corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro", parte de uma trajetória de 88 minutos em que o espectador praticamente acompanha cada suspiro do ex-policial, Asger Holm (Jakob Cedergren), na central de atendimento de emergências. Em cada ligação atendida, o protagonista demonstra uma certa insatisfação, no entanto, em uma dessas ocorrências, ele se depara com o sequestro de uma mulher chamada, Iben (Jessica Dinnage).

À partir desse evento, cada toque sonoro de telefone ou simplesmente o silêncio do personagem se transforma em um mergulho no abismo do nervosismo, uma vez que, a única forma de ajudar a vítima é por meio do aparelho telefônico cujo alcance delimita o desvendar do incidente. Diante dessa realidade, o desenrolar dos nós atados das suspeitas revela uma história muito maior e trágica. 

Toda narrativa se faz em apenas uma sala com mais alguns policiais e uma antessala para assuntos privados, ou seja, perpassa a sensação de enclausuramento e de incapacidade de ação vivenciada pelo protagonista. Asger com suas mãos inquietas, transpira e esforça-se em cada ligação para solucionar o caso numa corrida contra o tempo. Simultaneamente, reflete sobre suas próprias atitudes como profissional e pessoa.

O telefone torna-se um personagem da história, pois por meio desse instrumento o filme é conduzido. A mesma importância se dá para o som, porquanto converte-se em um elemento narrativo mais significativo do que a própria imagem, já que assim como o personagem, o público não visualiza o decorrer da investigação e, sim, ouve os diálogos ou ruídos. As imagens nesse caso, são direcionadas para a progressiva situação emocional de Asger: deboche, preocupação, prestativo, irritação, aflição e culpa.

As reviravoltas da narrativa empregada de forma criativa pelo roteiro, demonstra total precisão na dosagem dos momentos de revelação dos fatos, e, promove uma imersão absoluta do espectador. Ao final, "Culpa", provoca duas importantes reflexões: os pré julgamentos feitos sem o conhecimento total de uma situação e  qual seria o mal que cada indivíduo tem vontade de remover. 
CineBliss ****


Ficha técnica: 

Culpa (Den Skyldige)
Dinamarca, 2018
Direção: Gustav Möller 
Roteiro: Emil Nygaard Albertsen, Gustav Möller
Produção:  Lina Flint
Fotografia: Jasper Spanning
Montagem: Carla Luffe Heintzelmann
Elenco: Jakob Cedergren, Jessica Dinnage, Jacok Ulrik Lohmann, Omar Shargawi 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Retrospectiva e agradecimentos do CineBliss em 2018


O blog CineBliss está com o coração transbordando de gratidão por mais um ano de muito trabalho e dedicação. Foram 365 dias de uma luta constante em continuar acreditando na realização do meu potencial por meio da sétima arte. Esse caminho em 2018 sondou com momentos de frustrações e derrotas, todavia, a chuva de amor por estar em contato todos os dias com o cinema, transbordou para o ralo estes descontentamentos e permitiu dar vazão para várias conquistas, amizades e mensagens de carinho.

A jornada de Festivais de Cinema pelos quais o CineBliss teve o privilégio de prestigiar, incluem: 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes (Minas Gerais), Rio2C - Rio Creative Conference (Rio de Janeiro), 18th Tribeca Film Festival (Nova Iorque), 7ª Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba (Paraná), 51ª Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Distrito Federal), 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (São Paulo) e no 20ª Festival do Rio (Rio de Janeiro).

Além dos Festivais, o blog CineBliss pôde estar presente em inúmeros lançamentos de filmes e coletivas de imprensas, tudo graças aos convites de cabines das seguintes distribuidoras: Imovision, Pandora Filmes, Vitrine Filmes, Califórnia Filmes, Imagem Filmes, Supo Mungam Films, Paramount Pictures, ArtHouse, CineArte, Fênix Filmes, A2 Filmes e Mares Filmes. 

À vista disso, o blog CineBliss se despede de 2018 com um afetuoso grito de "MUITO OBRIGADO" à todos(as) que de uma forma ou de outra contribuíram nesta trajetória cinematográfica e, espera carinhosamente por um 2019 nutrido de abundância de trabalho, sucesso e um oceano de amor para todas as pessoas.
Viva o Cinema!
Boas Festas!




quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

"Colette" expressa os primórdios gritos femininos em buca de liberdade e igualdade na sociedade ocidental


A cinebiografia da escritora francesa do século XX, Sidonie Gabrielle Colette, ganha as telas do cinema hoje com a estreia do filme "Colette"(2018), do diretor inglês Wash Westmoreland (Para sempre Alice). Estrelado pela atriz Keira Knightley no papel da personagem-título, o filme retrata a jornada dessa mulher de origem camponesa, à frente de seu tempo, em Paris. Num primeiro momento da narrativa, a protagonista esbanja ares de inocência e, depois torna-se numa potência transgressora em busca da liberdade e igualdade de direitos e, em romper com comportamentos patriarcais. 

O período escolhido do longa-metragem permeia o casamento abusivo com Willy (Dominic West), um autor narcisista e com pouca criatividade, que contrata escritores - incluindo a própria esposa-, para escrever histórias e publicá-las como de sua autoria. O primeiro romance escrito por Colette - "Claudine à l'école" (1900) - e, assinado por Willy, torna-se em um fenômeno de vendas entre as mulheres e permite aos dois ganharem dinheiro e fama entre a sociedade parisiense. No entanto, essa união logo expõe o lado dominador de Willy sobre Colette, chegando a trancá-la dentro de um quarto para produzir mais narrativas. Ao mesmo tempo, a jovem começa a desfrutar de outros prazeres, cujo resultado é visto em seu questionamento sobre o casamento e na reivindicação por direitos das obras.

"Colette", é um ótimo exemplo dos primeiros gritos femininos em busca de liberdade e igualdade numa sociedade constituída por meio da dominação e exploração das mulheres. A personagem em seu universo burguês - entediada, fútil e com desejo - ao dar asas para imaginação, desperta para experimentar as mesmas aventuras dos homens, mas pelo fato de ser mulher, o preço a se pagar é alto. 

Observa-se já nas primeiras cenas do filme,  o comportamento subversivo da personagem que logo pode ser visualizado através de seu corte de cabelo (curto) ou em sua forma de se vestir (calças compridas e gravata), algo atípico para mulheres da época. Colette vai além, ao demonstrar também seu desejo por outras mulheres e em corporificar uma fisionomia andrógina.  

Destaque para a atriz inglesa Keira Knightley, cuja entrega na performance reverbera de modo virtuoso os conflitos e prazeres da escritora Colette, sem parecer algo estereotipado e, sim, natural. A progressiva conscientização de seus direitos referentes às suas obras, ganha uma fúria libertadora na cena em que a personagem reivindica colocar o seu nome como autora do livro junto de seu marido.

O roteiro consegue captar com excelência o ambiente de transformação no qual os personagens estão inseridos com um ritmo penetrante e eficiente. O espectador em poucos minutos de duração do filme, já se sente absorto na jornada da protagonista feminina e em como ela irá contar sua história. Como se Colette expressasse a ingenuidade e a cólera de tantas outras mulheres que foram oprimidas por homens e não puderam ser reconhecidas por seus trabalhos. 
CineBliss ***
*Filme visto no Festival do Rio 2018 




Ficha técnica: 

Colette (Colette)
Estados Unidos/ Reino Unidos/ Irlanda do Norte, 2018
Direção: Wash Westmoreland 
Roteiro: Rebecca Lenkiewicz, Richard Glatzer, Wash Westmoreland
Produção:  Caroline Levy, Christine Vachon, David Minkowski, Dominic Buchanan, Elizabeth Karlsen, Gary Michael Walters, Ildiko Kemeny, Lisa Zambri, Michel Litvak, Pamela Koffler, Stephen Woolley
Fotografia: Giles Nuttgens
Montagem: Lucia Zucchetti
Elenco: Keira Knightley, Dominic West, Denise Gough