terça-feira, 24 de maio de 2016

As formas de acolhimento materno em "Mommy" sensibiliza e provoca uma profunda reflexão sobre o papel do educador


O diretor canadense Xavier Dolan (Amores imaginários) que esse ano concorreu na 69ª edição do Festival de Cannes com "Juste La Fin Du Monde" apresentou ao universo cinematográfico em 2014 o comovente "Mommy", onde retrata um Canadá ficcional, mais precisamente o ano de 2015 quando entra um novo governo com o projeto de permitir a internação em hospitais públicos de jovens com problemas psicológicos, cujas famílias tenham dificuldades financeiras, sem precisar de um julgamento. Com uma família fora do padrão patriarcal, ao qual a figura da mulher, do materno é o núcleo para educar, transmitir valores e compartilhar afeto, o diretor introduz esse drama com um tom de provocação, sensibilização e uma profunda reflexão.

Para o desenvolvimento da narrativa, Xavier Dolan evidencia a viúva Diane Després (Anne Dorval) prestes a retirar o filho adolescente Steve (Antoine-Olivier Pilon) do internato ao qual fora expulso por atos de violência. O jovem com certos distúrbios psicológicos, nutre pela mãe um amor incondicional - uma analogia ao complexo edipiano - ao mesmo tempo que carrega feridas não cicatrizadas do falecimento do pai. Os dois vão morar em uma nova vizinhança na periferia canadense, onde conhecem Kyla (Suzanne Clément), uma professora de licença profissional com dificuldades para falar. A presença dessa terceira personagem no ambiente íntimo, causa uma certa "harmonia" entre mãe e filho.

Kyla inicia um processo de ministrar aulas particulares à Steve enquanto Diane saí em busca de trabalho para conseguir sustentar ambos. Nessa relação entre os três cria-se uma cumplicidade, um laço amoroso e afetivo, ao qual marcará a vida de cada um. Em virtude do comportamento descontrolado e agressivo de Steve, Diane tenta de diversas maneiras amparar e acolher o filho, já ele até experimenta a tentativa de controlar-se, contudo sem sucesso algumas vezes. A pergunta que se coloca é como criar um filho para seu convívio em sociedade? Qual o melhor modo de ajudar esse filho? Qual a maneira mais correta para socorrer esse adolescente?

Com o formato da tela em 1:1, ou seja, pequeno e quadrado, há sensação de estranhamento no começo e um certo confinamento, o filme decorre praticamente até a metade da história dessa forma, para que só depois haja uma mudança dessa dimensão numa sequencia mágica e esplendorosa ao som de "Wonderwall" do Oásis. A partir daí, ocorre uma alternância dos formatos e percebe-se o motivo dessa escolha inteligente.

O filme proporciona um deleite visual de técnicas cinematográficas, com ângulos primorosos, tanto de objetos como dos rostos das personagens com suas expressões profundas de sentimentos. O som, de extrema importância tanto na parte de trilha sonora contemporânea de excelente qualidade, como os barulhos ou os gritos numa tentativa de comunicação. Uma obra catalisadora de desconforto, choque e comoção, que não a toa faturou o Prêmio do Júri em Cannes em 2014. 
CineBlissEK


Ficha Técnica:

Mommy (Mommy)
2014, Canadá
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Produção: Nancy Grant, Xavier Dolan
Fotografia: André Turpin
Elenco: Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon, Suzanne Clément

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