segunda-feira, 20 de junho de 2016

"Campo Grande" dá uma pincelada na dicotomia de espaços na cidade do Rio de Janeiro


A cidade do Rio de Janeiro geralmente aparece nas telas de cinema com belíssimas paisagens da zona sul, contrariando esse retrato, a diretora Sandra Kogut (Mutum; Um passaporte húngaro) busca trazer uma imagem diferenciada da capital fluminense com seu recente filme "Campo Grande" (2015). O cartão postal carioca do famoso bairro de Ipanema com suas praias, cede espaço para a visão de várias obras em construções, assim como outra localização, desconhecida de guias turísticos, a zona oeste, mais precisamente o bairro de Campo Grande, ganha destaque no longa. 

Para mostrar esse contraste de realidades, a diretora introduz a jornada de dois irmãos Rayane (Rayane do Amaral) e Ygor (Ygor Manuel), quando estes aparecem do nada no apartamento de Regina (Carla Ribas), uma mulher de classe média, divorciada, moradora de Ipanema que está prestes a mudar-se de apartamento devido a saída de casa de sua única filha Lila (Julia Bernat). Com esse cenário, a narrativa desenvolve-se na busca de solução para o que fazer com essas duas crianças que dizem estar à espera da mãe. Elas carregam consigo um bilhete com o nome e localização de Regina e a promessa de retorno da mãe.

Num primeiro momento, Regina tenta livrar-se das crianças transferindo a responsabilidade para sua emprega. Sem sucesso, decide levá-los para um abrigo de menores, no qual Ygor consegue fugir e voltar à procurar pela mãe. Logo, o filme centra a narrativa na relação de Regina com sua filha e com Ygor, apresentando uma mulher com dificuldades para cuidar de alguém ou amparar uma pessoa. Esse elemento é tão forte, que Regina aceita seu chamado e resolve ajudar Ygor a encontrar a casa de sua avó em Campo Grande. No interior do carro, os dois embarcam numa trajetória de aproximação e transformação, cujo resultado são cenas de profunda comoção e reflexão.

A mudança de paisagem da cidade carioca tornar-se um componente de extrema importância para a narrativa, pois mostra não só os contrastes sociais como também as modificações que estão sendo feitas nessas áreas com inúmeras obras em implementações, uma certa desconstrução de espaço. Isso é realçado com a predominância de intenso barulho das construções civis nas cenas externas.

Com o emprego de ângulos intrigantes juntamente com um ritmo lento, o longa flerta com uma  meditação sobre o fluxo contínuo de modificações que ocorrem tanto em ambientes como nas vidas das pessoas. Com efeito, vale destacar a interpretação de Carla Ribas que consegue sensibilizar o espectador com sua postura rígida, elevando o drama para um debate da realidade sem cair na mesmice de conto de fadas.
CineBlissEK




Ficha Técnica: 

Campo Grande (Campo Grande)
2015, Brasil/França
Direção: Sandra Kogut
Roteiro: Felipe Sholl, Sandra Kogut
Produção: Flávio R. Tambellini, Laurent Lavolé, Sandra Kogut
Fotografia: Ivo Lopes Araújo
Elenco:  Carla Ribas, Julia Bernat, Ygor Manuel, Rayane do Amaral

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Comédias francesas recheiam o Festival Varilux 2016


O Festival Varilux de Cinema Francês, estreou há uma semana (8), em algumas cidades e capitais do Brasil com uma programação das recentes obras cinematográficas francesas. O evento que ocorre até o dia 22 de junho, conta com a presença ilustre na cidade do Rio de Janeiro, com alguns atores e atrizes para divulgarem seus respectivos filmes, tais como: Roschdy Zem "Chocolate", Finnegan Oldfiled "Os cowboys", Philippe Guay "Flórida", Vincent Lacoste "Lolo, o filho da minha namorada", Lou de Laâge "Agnus Dei" e Virginie Efira "Um amor à altura". Para conferir a programação completa acesse: Festival Varilux de Cinema Francês
 
O CineBlissEK, assistiu duas comédias do Festival Varilux com histórias um pouco bobas, mas simpáticas e divertidas, "Um amor à altura" (2016) com o galã francês Jean Dujardin de "O artista" (2011) e "Lolo, o filho da minha namorada" (2015) com a atriz Julie Delpy conhecida mundialmente por "Antes do amanhecer" (1995) que também assina a direção do filme.

Em "Um amor à altura" dirigido por Laurent Tirard, o queridinho francês é o arquiteto bem sucedido Alexandre (Jean Dujardin) que ao encontrar o celular da bela advogada Diane (Virginie Efira) decidi convidá-la para um encontro para devolver o aparelho, a maneira como ele instiga ela a comparecer, deixa a jovem com expectativas altas para conhecer esse homem. No entanto, quando os dois se veem frente à frente, Diane depara-se com um adulto de 1,36 de altura, ao qual não consegue esconder a decepção devido à baixa estatura de Alexandre.

Apesar disso, Diane resolve vê-lo outras vezes e, a cada encontro é surpreendida Alexandre. Os dois "saltam" para viver o relacionamento de uma maneira genuína, na tentativa de não dar chance para os julgamentos da sociedade e principalmente do ex-marido da advogada, Bruno (Cédric Kahn) que por ser seu sócio, não perde a chance de fazer piadas com o fato. Porém, Diane não tem tanta clareza com relação a esse envolvimento, entrando em conflito com seus próprios preconceitos.

O filme de uma maneira delicada e engraçada desconstrói a imagem de galã de Jean Dujardin colocando-o como um anão para discutir temas complexos, como uma sociedade voltada para a aparência física que tem dificuldades para acolher o diferente. Com uma montagem acertada, roteiro cativante com tiradas inteligentes, o longa traz uma abordagem atípica da comédia romântica ao comparar-se com algumas idiotices recentes americanas.
Estreia prevista para 4 de agosto de 2016.



Já a atriz Julie Deply lança-se no quesito direção e traz a comédia "Lolo, o filho da minha namorada", na trama a gerente de moda Violette (Julie Delpy) conhece de uma forma inesperada o simplório programador de computador Jean-René (Dany Boon) em uma cidade provinciana francesa. Os dois passam a noite juntos, e dão seguimento ao relacionamento quando Jean vai morar em Paris. Na capital, o casal apaixonado são testados a todo momento devido suas diferenças, contudo a maior provação vem por parte do filho de Violett, Lolo (Vincent Lacoste), um rapaz mimado que não aceita nenhum tipo de relacionamento amoroso de sua mãe. 

Para arruinar outra união de Violette, Lolo utiliza de numerosas artimanhas infantis para separar o casal, suas peripécias são mascaradas pelo seu jeito cínico que não deixa em nenhum momento demonstrar estar por trás das situações constrangedoras, além de contar com suporte materno em qualquer suspeita de seu comportamento. A narrativa é construída com base no Complexo de Édipo, juntamente com a ausência do corte do cordão umbilical na relação de mãe e filho. Para equilibrar o ritmo do longa, Violette conta com o apoio da amiga que tem uma ligação com a filha completamente diferente da dela.

Julie Deply que também assina o roteiro junto com Eugénie Grandva, consegue provocar uma discussão sobre a relação materna com os filhos de uma forma divertida e meio pastiche, através de um roteiro que oscila entre alguns exageros, mas sem deixar de ter diálogos com boa dosagem de ironia. Os personagens simpáticos, atrapalhados e complexos, fazem valer a pena conferir o longa e deliciar-se com certas bizarrices francesas.
Estreia prevista para 14 de julho de 2016.