sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

"Três anúncios para um crime" arrebata uma narrativa complexa com personagens febris


"Três anúncios para um crime" (2017), do diretor Martin McDonagh (Sete psicopatas e um Shih Tzu) vem logrando os principais prêmios da temporada 2018 incluindo Globo de Ouro de Melhor Filme Drama, Melhor Atriz para Frances McDormand, Melhor Ator Coadjuvante para Sam Rockwell. No último domingo (18), foi a vez de faturar cinco estatuetas no BAFTA, Oscar Britânico, nas mesmas categorias citadas acima e, também como Melhor Roteiro Original e Melhor Filme Britânico. Já para a cerimônia do Oscar que ocorrerá no dia 04 de março, o longa está disputando sete prêmios nos já apontados segmentos, com acréscimo para Melhor Trilha Sonora e para o ator Woody Harrelson que concorre com o colega de trabalho na mesma categoria.

Todo esse reconhecimento se faz jus à uma narrativa dolorosa e ao mesmo tempo mordaz, construída para enaltecer personagens comuns de uma pequena cidade americana - Ebbing, Missouri -, quando são surpreendidos por um evento provocativo. Mildred Hayes (Frances McDormand), uma mulher separada do marido e com um filho adolescente, decide colocar pequenas frases em três outdoors de uma estrada pouco movimentada. As mensagens direcionadas à policia local, em especial ao delegado Willoughby (Woody Harrelson), é a forma encontrada por ela para chamar atenção ao caso não solucionado do estupro e morte de sua filha. Logo, a comunidade até então com suas vidas monótonas, deparam-se com um desencadeamento de situações um tanto quanto bizarras e violentas.

A jornada de Mildred em enfrentar sozinha a desaprovação das pessoas locais em relação aos três outdoors, exige que ela incorpore uma expressão séria o tempo todo, sem dar brechas para qualquer tipo de aproximação de outras pessoas. O que era apenas um chamativo para os policiais agirem, gera no interior de Mildred o sentimento de ódio e de violência. Todavia, a complexidade da personagem permite com que ela exponha seu lado bondoso e carinhoso, como visto na cena de interrogatório com o delegado, ou ajudando um inseto. Sua busca não é apenas em encontrar e colocar na cadeia o assassino de sua filha, mas também, em redimir-se do sofrimento do luto. A atriz Frances McDormand, presenteia o espectador com uma performance de pura entrega e magnificência à enigmática Mildred, gerando uma experiência inquietante. 

Na mesma conjuntura, outro personagem repleto de camadas é o oficial Jason Dixon (Sam Rockwell), que carrega em si discursos conservadores inflamados, expostos na narrativa através de agressões físicas ou verbais. O comportamento desse policial psicopata passa longe de uma performance estereotipada, pelo contrário, o talento de Sam Rockwell oferece uma versão humana do personagem, o que faz com que roube as cenas em vários momentos do filme.

Para a fluidez desses personagens multifacetados, o roteiro trilha um caminho estruturado por um ritmo dinâmico, acentuado nas provocações e, pautados por diversos diálogos referentes aos direitos civis. Observa-se a busca em discutir questões sobre o aceitável ou não no convívio em sociedade, a complexidade do caráter humano e, acima de tudo, as ações que cada indivíduo é capaz de fazer na efervescência da raiva ou no pulsar da generosidade.

A trilha sonora semelhante aos filmes do gênero de faroeste, empresta um vigor sensorial sobre o ato de vingança, revelando a fúria borbulhante da cidade de Ebbing. Cada unidade de linguagem narrativa utilizada em "Três anúncios para um crime", possibilita refletir sobre o âmago de uma pessoa deixar-se contagiar pelas emoções à flor da pele, sem necessariamente pensar nas consequências. Só que no caso específico do filme, essas explosões de temperamentos vem embriagados de um humor ácido, com um final aberto para inúmeras reflexões.
CineBliss



Ficha técnica: 

Três anúncios para um crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)
Reino Unido/ Irlanda do Norte/ Estados Unidos, 2017
Direção: Martin McDonagh 
Roteiro: Martin McDonagh
Produção: Graham Broadbent, Martin McDonagh, Peter Czernin
Fotografia: Ben Davis
Montador: John Gregory
Elenco: Frances McDormand, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Peter Dinklage

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

"Me chame pelo seu nome" transborda o que é de mais profundo no ato de desejar e amar


O mais recente trabalho do diretor italiano Luca Guadagnino, "Me chame pelo seu nome" (2017), recebeu quatro indicações ao Oscar 2018, incluindo Melhor Filme, Melhor Ator para Timothée Chalamet, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Canção Original. O filme produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, tem como cenário as lindas paisagens italianas, no verão de 1983. Esse lugar paradisíaco e lânguido, emerge como um elemento nutritivo para linda história de amor entre Elio e Oliver, como há muito tempo não se via no cinema. 

Os personagens interpretados respectivamente por Timothée Chalamet e Armie Hammer, são conduzidos elegantemente num jogo de sedução, de flertes não correspondidos, de desejos, para serem arremessados no tabuleiro dos mistérios do amor. A trajetória dos dois de se entregarem a flecha de Eros, envolve a sensação de vulnerabilidade, de riscos, de magia e de contentamento. A disposição com que eles se deixam contagiar-se pelo desejo, pelo amor e uma possível perda, são particularidades do pulsar da vida, que encontram em ambos corações destemidos à aventurar-se por essa trama irracional. 

O personagem de Oliver convidado pelo pai de Elio, Mr. Perlman (Michael Stuhlbarg) para passar as férias em sua casa ajudando-o com trabalhos acadêmicos,  demonstra ser um estudante regrado, energético e sedutor, com uma fome para experimentar a vida. Já Elio, um rapaz bem educado, conhecedor de música, literatura, história, arte, entre outras coisas, tem aflorando em seu corpo um turbilhão de hormônios e um coração ainda "virgem".

Como narrado no próprio filme através de um dos diálogos do pai "A natureza tem maneiras astutas de encontrar seu ponto mais fraco", o encontro de Elio e Oliver ilustra a falta de controle que se tem sobre a vida quando somos surpreendidos por sentimentos tão profundos, que muitas vezes nem sabemos existir. A entrega total em vivenciar esses sentimentos, é um dos atos mais assustadores e mágicos que o indivíduo pode realizar e, é isso de tão lindo visto na jornada de Elio e Oliver. A fluidez do envolvimento dos dois pode ser simbolizado com as diversas sequencias de água corrente, vistas em várias cenas do longa, como os banhos no rio ou a da cachoeira. 

Se no filme "O segredo de Brokeback Mountain" (2005), de Ang Lee - que também retrata um romance homoafetivo - a fotografia era pautada por um leque de cores frias, em "Me chame pelo seu nome", é acentuado por tonalidades quentes, claras e vivas, intensificando a explosão de desejo e paixão. Assim como o corpo, se no primeiro longa era coberto por roupas grossas de inverno, no segundo, é descoberto e exposto para admiração.

A trilha sonora que embala o espectador a mergulhar no envolvimentos dos dois personagens, passa por composições clássicas, pop italiano e americano, e, encanta os corações com "Mystery of love", de Sufjan Stevens, indicado ao Oscar de Melhor Canção Original.

Duas sequencias merecem destaques pois são de uma embriaguez de emoção sem tamanho. A cena em que Elio conversa abertamente com o pai e, este lhe confidencia seus mais profundos sentimentos, demonstrando um acolhimento paterno e uma elucidação didática sobre a vida. O outro momento, já no final com Elio observando as madeiras da lareira queimando, transborda todas as dores de sua alma, gerando no espectador uma certa identificação daqueles que já sofreram por um grande amor.  Um filme para iluminar corações amedrontados e nutrir a alma com puro amor. 
CineBliss 
*Visto no Festival do Rio 2017



Ficha técnica: 

Me chame pelo seu nome (Call me by your name)
Estados Unidos/ Itália/ França/Brasil, 2017
Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: James Ivory
Produção: Emilie Georges, Howard Rosenman, James Ivory, Luca Guadagnino, Marco Morabito, Peter Spears, Rodrigo Teixeira
Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom
Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar