"Greta" é um pulsar de vida frente a invisibilidade de uma sociedade excludente


O ator pernambucano Marco Nanini, rosto conhecido tanto na televisão, teatro e cinema brasileiro, ousa na última mídia com o lançamento nesta quinta-feira (10) do filme "Greta" (2019), em que dá vida ao personagem Pedro, um enfermeiro de 71 anos de idade, homossexual e fã fervoroso da atriz sueca Greta Garbo. Dirigido pelo estreante em longa-metragem Armando Praça, a narrativa fez parte da última edição do Festival de Berlim, na Mostra Panorama.

Nutrida pelo gênero do melodrama, a trama se desenvolve quando Pedro ao tentar ajudar a amiga Daniela (Denise Weiberg) em conseguir uma vaga no leito do hospital em que trabalha, liberta Jean (Demick Lopes), homem acusado de um crime que se encontra algemado na cama. O enfermeiro acolhe o criminoso em sua casa com o intuito de auxiliá-lo na recuperação do ferimento. No entanto, a relação dos dois ganha novos ares, quando eles se entregam para a potência do desejo e da busca pelo amor romântico. Esse vínculo afetivo e sexual, transformará por completo a jornada de Pedro e impactará na forma como ele encara a solidão. 

A narrativa toda desenvolvida sobre o olhar de Pedro, reverbera a complexidade e as múltiplas camadas do protagonista. Se por um lado, ele diz querer estar sozinho várias vezes citando a frase "I want to be alone", dita por uma das personagens de Greta Garbo, do outro lado, suas atitudes contradizem essa expressão, na medida em que busca pela felicidade por meio da relação amorosa.  

Sem sombra de dúvida, o ator Marco Nanini entrega uma das interpretações mais desafiadoras de sua carreira e expõe o drama da velhice por meio de um personagem invisibilizado pela sociedade e que que anseia em satisfazer seus desejos e, mais que isso, em viver um amor romântico. Como ele mesmo comentou na coletiva de imprensa: "Veio a proposta do Armando. Eu li aquelas cenas todas e falei por que não? Um homem de 71 anos, eu já tinha uma vontade, um desejo de mostrar o meu envelhecimento físico para os espectadores por que eles me acompanham a muito tempo. Eles me viram jovem, nada mas certo e justo do que me mostre velho. Mas eu tenho que me mostrar velho num filme muito bem embasado, em que eu tenha um universo de personagem muito grande pra me segurar e foi o caso do Armando."  

"Agora felicidade maior foi ter feito esse filme sabendo que não houve pressão, não houve censura em cima dele. O que vai acontecer de agora pra frente é que nós vamos fazer filmes censurados. Isso castra um pouco a criação, entristece um pouco os artistas que trabalham, mas parece que essa é a pena que nós vamos ter que cumprir com esse governo", comenta o ator quando questionado sobre o processo de criação de seu personagem. 

Para o diretor Armando Praça, o filme pensando em 2008 quando este começou o texto já tinha um viés político, mas diante da atual conjuntura política e social do país, esse contexto se coloca um pouco em primeiro plano: "Pro filme isso tem perdas e ganhos, mas por outro lado eu acho absolutamente necessário que tendo feito esse filme com uma camada política desde o primeiro momento, a gente assume essa responsabilidade de trazer a tona a existência de personagens marginalizados que estão sendo invisibilizados e, não só isso, estão sendo violentados e mortos. Assumir essa responsabilidade de dizer que essas pessoas existem e elas merecem, devem e têm o direito de existir da maneira como elas são."

"Greta" é livremente inspirado na peça teatral "Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá", de 1972, do autor Fernando Melo, entretanto no filme a história desloca-se da comédia debochada e caricaturesca, para dar voz ao desejo mais íntimo do personagem de querer amar e ser amado através de uma abordagem intimista, profunda e sensível.
CineBliss****




Ficha técnica: 
Greta (Greta)
Brasil, 2019
Direção: Armando Praça
Roteiro: Armando Praça
Produção: Armando Praça, João Vieira Jr. 
Elenco: Marco Nanini,Denise Weiberg, Demick Lopes

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