segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Billy Elliot no "caminho da mão esquerda"



O estudioso norte-americano de mitologia Joseph Campbell formulou que na vida há dois caminhos principais: o "caminho da mão direita" que é prudente e prático, mas nas palavras de Campbell "você pode seguir esse caminho, subir pela escada do sucesso e descobrir que essa escada está apoiada na parede errada". Já o outro caminho descrito pelo pesquisador é o "caminho da mão esquerda", caracterizado como o mais arriscado "... ele é o caminho em que a pessoa, na frase famosa de Campbell, busca sua própria felicidade, o seu entusiasmo, o seu êxtase. Embora a cultura talvez não compreenda essa escolha e não haja nenhuma garantia a respeito da parede à qual este caminho irá conduzir, a escolha do caminho da mão esquerda vale a pena porque a própria jornada é sua recompensa". (O despertar do herói interior)

Em Billy Elliot de 2000 o primeiro longa metragem do diretor Stephen Daldry é nítido esses dois caminhos descritos por Campbell. Billy (Jamie Bell) de 11 anos de idade é incentivado por seu pai a praticar boxe e talvez se tornar um minerador como todos os homens da família, um caminho prático e já percorrido pelos membros familiares. Porém o garoto recebe seu chamado através da dança quando a Sra. Wilkinson (Julie Walters) instrutora de balé começa a dar aulas no mesmo espaço em que ele pratica boxe.

Aceitar o chamado de pendurar as luvas de boxe para calçar as sapatilhas significa para Billy ir contra toda família dominada pelo masculino e também sua comunidade que vê o ato da dança praticada por homem com preconceito. Nesse espaço masculinizado com predominância da força física e violência há em Billy a sensibilidade de querer buscar o caminho da mão esquerda, mesmo sem saber qual as consequências dessa opção. Em seu primeiro contato com a dança, enquanto pratica boxe ele ouve a professora dizer "mão esquerda na barra", o que faz ele bater no saco de areia de uma forma coreografada, como se abrisse sua alma para o despertar de sua vocação.

A dura realidade da cidade de Billy, norte da Inglaterra, que se encontra em greve dificulta ainda mais a realização do seu sonho, pois tanto seu pai quanto seu irmão são os líderes da paralisação dos mineiros. Em uma belíssima cena mostra Billy dançando com uma leveza e o contraponto da greve com sua dureza.

Quando Billy junto com a professora vão se matricular para o teste que pode permitir a entrada do garoto numa escola de balé, eles atravessam uma ponte ao som da ópera "Lago do Cisne" do Tchaikovsky, um atravessar do linear, como caracterizado por Campbell quando o herói aceita seu chamado, saí do seu mundo comum para o desconhecido, tendo a ponte simbolizando esse movimento.

A jornada de Billy através da dança além de ser um talento é como trazer a sensibilidade, a leveza, o feminino para sua vida, elementos estes que não são presentes nas figuras masculinas de sua família e no trabalho que estes exercem.

No filme a cor azul é predominante, talvez como uma representação da cor do mar com sua grandeza e infinitas possibilidades de ir e vir, tanto que uma cena Billy sobe a colina de asfalto dançando com o mar e um barco como pano de fundo. Ele machucado na perna por não poder seguir seu chamado dança na dureza do asfalto com um fundo representando a liberdade. Há também a questão das grades, elemento utilizado em vários momentos do filme, seja nas aulas de dança ou no ônibus que carrega os trabalhadores da mina, como se fosse o sistema aprisionando a jornada de Billy.

O riso, o apoio a Billy, as lágrimas são fatores que cada pessoa carrega ao assistir Billy Elliot, pois é impossível não se emocionar em algumas cenas, em especial a que o pai indo contra suas convicções decide voltar ao trabalho para poder dar a oportunidade de Billy ir a Londres fazer o teste.

Nessa jornada cinematográfica é evidente os obstáculos, as barreiras, que cada herói precisa enfrentar para seguir o caminho da mão esquerda sem saber qual será o resultado, mas mesmo assim acreditar e ir em frente, no caso de Billy, se resulta num final emocionante e de sucesso. Para esse final o diretor gravou as cenas no próprio teatro londrino durante as apresentações do Lago do Cisne de Matthew Bourne com o ator/bailarino Adam Cooper.
CineBlissEK



Curiosidades:
  • Exibido no Festival de Cannes de 2000 com o título Dancer 
  • Ganhador de 3 prêmios BAFTA: Melhor Filme Britânico; Melhor Ator (Jamie Bell); Melhor Atriz Coadjuvante (Julie Walters)
  • Indicado a 3 Oscars: Melhor Diretor; Melhor Atriz Coadjuvante (Julie Walters); Melhor Roteiro Original 

Ficha Técnica:

Billy Elliot (Billy Elliot)
2000, Reino Unido
Direção: Stephen Daldry
Roteiro: Lee Hall
Produção: Greg Brenman, Jon Finn
Fotografia: Brian Tufano
Elenco: Gary Lewis, Jamie Bell, Jean Heywood, Jamie Draven, Julie Walters

Bibliografia:

PEARSON, Carol S. O despertar do herói interior.

Nenhum comentário:

Postar um comentário