quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Os inusitados despertares para o amor


Em quase todo filme os cinco primeiros minutos de exibição mostra-se várias características do personagem principal em seu mundo comum, em A vida secreta das palavras a diretora Isabel Coixet utiliza desse artifício de uma forma metafórica para retratar a jovem Hanna (Sarah Polley) em uma fábrica regida pela padronização da linha de montagem plastificando tubos de plásticos, e durante a refeição alimentando-se sempre da mesma comida (arroz, frango e maçã) em uma vasilha de plástico.

Tanto o elemento da comida quanto do plástico são metáforas para entender o processo de transformação de Hanna que vê-se sem apetite para a vida, se isolando de todos e apenas como uma máquina trabalhando numa rotina sem abertura para as surpresas da jornada.

Contudo por mais que o ser humano encontre formas para plastificar suas vidas, há sempre um momento do chamado para se aventurar em mundo completamente desconhecido, muitas vezes esse caminhar acaba sendo inconsciente, mas as consequências se torna visível. Para Hanna esse acontecimento novo surge na obrigação em tirar férias após quatro anos de trabalho ininterrupto, ela viaja, mas sem pestanejar decide se candidatar para ser enfermeira de um homem queimado em uma plataforma de petróleo em alto mar.  

O ambiente rotineiro que antes era de uma fábrica fechada com várias pessoas se transforma para um espaço aberto, com alguns homens e as ondas do mar como remédio para limpar o passado de cada tripulante desta plataforma. A água que está associada a fluidez e limpeza se torna o cenário perfeito para pessoas imperfeitas.

O paciente Joseph (Tim Robbins) encontra-se na cama com uma parte do corpo com queimaduras e sem enxergar devido ao incêndio na plataforma. Assim que Hanna se apresenta, este lhe chama de Cora e fala que ela deve ser loira. Várias são as tentativas dele em aproximar-se de Hanna, mas esta resiste a todo momento. Interessante pensar que ambos tenham deficiências seja auditiva da jovem ou visual dele, que não são de nascença, mas sim causadas por fatores da vida.

Como cuidadora de Joseph, a heroína despertar-se para novos sabores em sua alimentação, indicando que há uma transformação, uma abertura para a construção de sentimentos que envolve carinho, confiança, atenção e amor. Tanto Joseph quando Hanna fazem revelações sobre seus passados demonstrando a cumplicidade dos dois. Passado este de Hanna que emociona o paciente assim como o público e explica certas atitudes de autoproteção por parte da jovem, não vou comentar sobre a revelação do segredo pois arruinaria o filme.

Em uma cena ao qual Joseph relata uma história de sua infância conta o segredo de que não sabe nadar, essa revelação muda todo o desfecho do casal no final do filme e se torna para mim como uma das mais bonitas declarações de amor que eu já vi no cinema. Segue a transcrição abaixo e também o link da cena:

Joseph: Venha comigo Hanna?
Hanna: Eu acho que isso não vai ser possível...
Joseph: Porquê não?
Hanna: Porque eu acho que, se formos para algum lugar juntos, tenho medo de que um dia, talvez não hoje, talvez nem mesmo amanhã, mas algum dia, de repente, eu possa começar a chorar tanto que nada vai me fazer parar. As lágrimas encherão o quarto, não conseguirei respirar, vou levá-lo junto e ambos vamos nos afogar...
Joseph: Eu aprendo a nadar Hanna, eu prometo!
Cena final

Impossível não se emocionar com a declaração de amor, mas muito mais que isso em ver a coragem dele em deixar-se ser tocado pelo sentimento do seu coração e lutar por isso. Algo totalmente em desuso nos dias de hoje, como o filme mesmo mostra com a metáfora do plástico, de seres humanos encapados com receios de sentir, provar, viver.

A mensagem de amor não fica apenas no casal, mas também para o planeta através do personagem do oceanógrafo que está na plataforma para contar as ondas, mas se interessa por mariscos, ele diz acreditar que um dia a plataforma poderia ser transformada para a limpeza da água diminuindo os estragos causados pela extração de petróleo e diz para Hanna: "Eu continuo a pensar que algo vai ser feito..." Um comentário de esperança para todos nós, moradores do planeta Terra que ainda tem fé na salvação da espécie através do cuidado e proteção da nossa Mãe-natureza.

A direção e roteiro de Isabel Coixet são bem construídos nesse filme que retrata através de metáforas seres humanos que buscam mecanismos para se proteger e não serem tocados pelo amor. Também aplausos para as interpretações de Tim Robbins e Sarah Polley. Recomendo vários lenços na hora de assistir a trama, pois é impossível não se emocionar.
CineBlissEK




Curiosidades: 
  • A vida secreta das palavras é o segundo filme entre a diretora Isabel Coixet e a atriz Sarah Polley, o anterior foi "Minha vida sem mim" de 2003;

Ficha técnica:

A vida secreta das palavras (La vida secreta de las palabras)
2005, Espanha
Direção: Isabel Coixet
Roteiro: Isabel Coixet
Produção: Esther Gárcia, Pedro Almodóvar
Fotografia: Jean-Claude Larrieu
Elenco: Tim Robbins, Sarah Polley, Javier Cámara, Julie Christie

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