segunda-feira, 6 de julho de 2015

Abra a porta e deixe o novo surgir é a proposta do filme "Enquanto somos jovens"


A maioria da população mundial tem receios sobre o processo de envelhecimento, várias tecnologias são usadas para criar mecanismos destas continuarem jovens sem terem que vivenciar o passar dos anos. Como todos sabemos isso é praticamente impossível, no entanto essa jornada cuja origem é sentida através da crise de meia idade, pode ser aliviada por alguns elementos esquecidos no passado de cada um, como a realização de antigos sonhos, o conforto de envelhecer com a presença do novo através de filhos ou netos e também na possibilidade de buscar esse frescor em companhia de pessoas mais jovens. Essa última forma de encarar esse ciclo é justamente a premissa do novo filme do diretor Noah Baumbach (Frances Ha e A Lula e a Baleia) em  "Enquanto somos jovens". 

O filme já começa com a questão do novo através da cena de um bebê aos cuidados do casal Cornelia (Naomi Watts) e Josh Srebnick (Ben Stiller) quando estes tentam contar a história infantil dos três porquinhos, pela falta de habilidade para segurar a criança e o desconhecimento do conto de fadas percebe-se que esse casal não tem filhos e sentem desconforto ao falar sobre o assunto quando estão frente à frente com os pais do bebê. Com isso mostra-se o conflito do cônjuge pela falta da maternidade e como justificar essa ausência em suas vidas.

Josh produz e dirige documentários assim como sua esposa que é produtora de seu pai, um famoso documentarista. Devido Josh estar envolvido há oito anos em um mesmo projeto que não sabe ao certo definir para angariar recursos financeiros, ele deixa de realizar outras coisas com a desculpa de focar na produção do documentário, essa justificativa faz com que o casal não saia de férias ou converse sobre a possibilidade de ter filhos.

Em uma de suas aulas, Josh conhece Jamie (Adam Driver) e Darby (Amanda Seyfried) jovens alunos admiradores de seu trabalho que se convidam para jantar com ele e sua esposa. A partir desse instante a jornada de Josh e Cornelia partem para um universo desconhecido, ou seja, completamente diferente do habitual para o mundo de pessoas com menos de 30 anos, rotuladas como interessantes, simpáticas, descontraídas e dispostas a compartilhar essa esfera com eles. Esse fato é tão relevante para narrativa ao ponto do diretor destacar com um jogo de luz mais intenso a saída de Jamie e Darby do restaurante com suas bicicletas, o que na linguagem simbólica representa o caminho da iluminação para Josh e Cornelia de suas rotinas sem graça, esse encontro possibilita o despertar para o novo, na direção de diferentes prazeres da vida e uma maneira de vivenciar a juventude outra vez. 

O contraste entre velho x novo a partir de então é visto em todas as cenas, e interessante notar como cada geração busca se entreter. Os jovens gostam de coisas antigas como VHS, televisão analógica, discos de vinil, máquina de escrever e jogo imobiliário. Já o casal de quarentões partem para filmes no Netflix, computador pessoal, música em CD's e jogos eletrônicos, porém todos estão conectados com smartphones e redes sociais. O último apetrecho tornar-se fundamental para aprofundar a relação entre eles, pois Jamie ao relatar seu projeto de documentário de contactar amigos do Facebook pessoalmente e saber como estão suas vidas, convida Josh para co-dirigir o vídeo. 

Logo cada um dos personagens, partem para suas transformações individuais e conjugais ao permitirem serem transportados para esse outro universo ao qual são colocados à prova. Uma das sequencias que representa o direcionamento para mudança é a do ritual de ayahuasca, onde junto com outras pessoas, os quatro demonstram seus medos, inseguranças, sonhos frustrados e objetivos sinceros. Essa cena mostra a cerimônia como uma forma de purificação para cada um e estopim para vivenciarem suas potencialidades.

Para Jamie o potencial está em dirigir o documentário com a produção de Cornelia e de seu pai para alavancar sua carreira ao estrelado, mesmo que isso signifique ir contra certos princípios morais, enquanto Josh aparentemente é terminar o vídeo de oito anos, porém vê-se sua profunda necessidade de melhorar a relação conjugal, ser mais generoso e principalmente ganhar a aprovação do sogro. Para as duas personagens femininas, o diretor poderia ter se dedicado um pouco mais, no entanto suas transformações são notáveis, Darby no sentido de questionar o relacionamento com Jamie e Cornelia em avaliar a real necessidade de ser mãe. E só depois de passar por todas as provações, o casal de quarentões tem a chance de novamente discutir a presença do novo através de um bebê em suas vidas e não tentando imitar um casal de jovens.

A narrativa cujo início trás a mensagem "Abra a porta e deixo-os entrar" baseada na peça Solness, O Construtor (1892), do norueguês Henrik Ibsen  possibilita refletir de uma forma leve e simpática a dificuldade da crise de meia idade (discussão frequente nos trabalhos anteriores do diretor) e também em como o ser humano paralisa as metas pessoais conforme envelhece, uma vez que jovem anseia por diversos objetivos e tenta buscar a realização destes, enquanto na meia idade confronta-se com sonhos frustrados bem como o medo ou conformidade de preferir ficar na zona de conforto.

Se o público espera ver um história água com açúcar com certeza mudará de opinião ao assistir o filme, afinal o diretor utiliza de um roteiro estruturado, boas interpretações e ótima trilha sonora para colocar em pauta discussões importantes da sociedade atual como: a autenticidade dos documentários numa era ao qual todos tem a disposição instrumentos para gravar imagens e divulgar, a utilização de pessoas influentes para alcançar um determinado objetivo, a real necessidade da tecnologia e apuração de notícias em questão de segundos, o fato da maternidade ser incluída ou não na vida de um casal e claro o delicado trabalho de aceitar a ideia de que todos iremos envelhecer como qualquer outra pessoa. 
CineBlissEK



Curiosidades: 
  • Ícone do grupo musical Beastie Boys, Adam Horovitz está no papel de Flatcher amigo do casal;  

Ficha técnica:

Enquanto somos jovens (While we're young)
2014, Estados Unidos
Direção: Noah Baumbach
Roteiro: Noah Baumbach
Produção: Eli Bush, Lila Yacoub, Noah Baumbach, Scott Rudin
Fotografia: Sam Levy
Elenco: Ben Stiller, Naomi Watts, Amanda Seyfried, Adam Driver, Adam Horovitz

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