segunda-feira, 9 de março de 2015

Do estrelado de Hollywood para o anonimato dos teatros da Broadway


Um ator de Hollywood famoso pelo personagem de um super-herói decide alavancar sua carreira em algo novo ao interpretar uma adaptação teatral na Broadway, basicamente essa é a premissa do filme vencedor de quatro Oscar em 2015, incluindo Melhor Filme e Direção do cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu em Birdman ou a inesperada virtude da ignorância. Contudo a trama vai muito mais além disso e trabalha com questões do ser humano, como velhice, ego, fracasso, decadência e sucesso.

A personagem Riggan Thompson (Michael Keaton) no passado interpretou o super herói Birdman e convive com o fantasma desse sucesso até os dias atuais, para voltar a ser famoso novamente, ele decide partir para o outro lado do show business ao dirigir, produzir e interpretar uma obra do autor Raymond Carver "What we talk about when talk about love" (O que falamos quando falamos sobre amor) nos teatros da Broadway.

Mas em primeiro lugar para que essa adaptação ocorra ele precisa lidar com sua voz interior, ou melhor dizendo a voz alimenta o ego dele ao insistir em dizer que o seu lugar não é ali e sim na pele de Birdman. No decorrer da trama fica evidente que a voz é na verdade a personagem do homem pássaro que persegue Riggan em todos os lugares. Em vários momentos Riggan é confrontado por essa figura do Birdman e tenta provar que pode ser um ator sério de teatro. Na linguagem simbólica é como se o ego de Riggan ainda quisesse continuar no papel de Birdman pois isso traz segurança e fama, mas a Alma desse homem anseia por algo mais profundo e pulsa por uma interpretação nos palcos de teatro.

Riggan além de ter que duelar consigo mesmo, também precisa lidar com sua filha Sam (Emma Watson) que acabou de sair de uma clínica de reabilitação de dependentes químicos e o ajuda como sua assistente pessoal. Para incrementar esse contexto, Riggan necessita ministrar o seu elenco que a cada momento lhe traz uma nova dor de cabeça, seja Mike (Edward Norton) querendo mais atenção que o próprio Riggan e o confrontando a todo momento ou a personagem de Naomi Watts com suas crises de insegurança. Um típico cenário de pessoas com suas carências, vaidades, inseguranças e desilusões. Esse time de estrelas de Hollywood dão um show de interpretação e mereceram as indicações ao Oscar de 2015, Edward Norton como Melhor Ator Coadjuvante e Emma Watson como Melhor Atriz Coadjuvante. 

Praticamente o filme todo é dentro das acomodações do teatro, com corredores estreitos, pouca luz e várias portas, dá a sensação de claustrofobia e desespero o que talvez indique ser os sentimentos do próprio Riggan. Isso é tão marcante que quando as personagens saem ao ar livre, dá uma impressão de estarem esfriando a cabeça. Outro fator que traz também a ideia do estado de espírito dos protagonistas é o som da bateria constante e da câmera que perpetua um movimento neurótico simbolizando a ansiedade e o nervosismo para a estreia no palco de teatro da Broadway.

O filme traz intérpretes decadentes sem o estrelismo de Hollywood e faz uma crítica as obras cinematográficas de super-heróis em quadrinhos tão dominantes nas salas de cinema da atualidade, tanto que em uma das cenas do desfecho há uma conversa entre Riggan e a crítica de teatro, e a última explica que o odeia pois ele representa todos os tipos de filmes feitos para a cultura de massa.

Essa questão é posta em discussão através do teatro com toda sua aura, profundidade, seriedade e voltado para uma pequena parcela da população versus o cinema blockbuster feito para uma grande maioria de pessoas, sem muito conteúdo e voltado apenas para imagens de explosão e sem uma real interpretação do ator. Esse tema de arte x cultura de massa foi discutido pelo filósofo alemão Walter Benjamin ao colocar o cinema como uma cultura sem aura diferentemente das obras de arte.

A história traz o elemento fantasioso da personagem de Riggan em deslocar objetos com o pensamento ou flutuar durante a meditação, e no final a grande questão de saber o que acontece com ele, pois de um homem com máscara de plástico do Birdman ele muda para outro tipo de máscara. Há também cenas que de tão ridículas levam o público a rir, e claro um ótimo humor negro. 

Com uma interpretação magnífica o ator Michael Keaton que foi indicado ao Oscar de Melhor Ator, se redime perante seus fãs ao mostrar que ele é muito mais que o super herói Batman feito duas vezes na década de 1990. Até dá a sensação da história ter sido baseada nele próprio. Interessante notar que no filme, a personagem de Birdman foi interpretado por Riggan a última vez em 1992 assim como Michael Keaton em Batman.

O filme mereceu as quatro estatuetas do Oscar que ganhou nas categorias de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia de 2015,  pois traz um frescor de originalidade para as telas e mostra o por que do cinema ser tão fascinante. 
CineBlissEK

Curiosidades: 
  • No filme Birdman há três atores que interpretaram super heróis no cinema: Michael Keaton (Batman -1989 e 1992); Edward Norton (Hulk - 2008); Emma Stone (O fantástica homem aranha - 2012 e 2014);
  • A cena da personagem de Riggan correndo pela Times Square foi gravada após a meia noite para evitar tumultos;

Ficha técnica:

Birdman ou a inesperada virtude da ignorância (Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance)
2014, Estados Unidos
Direção: Alejandro González Iñárritu 
Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Alexander Dinelaris, Armando Bo, Nicolás Giacobone
Produção:  Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, James W. Skotchdopole, John Lesher
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Naomi Watts

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