sexta-feira, 3 de maio de 2019

"Tudo o que tivemos" é um retrato comovente dos conturbados laços familiares


Conflitos familiares é um tema recorrente em narrativas cinematográficas sendo vez ou outra revisitado em diversos gêneros. Como na comédia romântica "Tudo em família", de 2005, de Thomas Bezucha, ou no drama "Álbum de família", de 2013, de John Wills. Se no primeiro a lavagem de roupa suja acontece em uma reunião natalina, no segundo, o estopim se dá por conta de uma enfermidade envolvendo a matriarca. A junção desses dois argumentos - celebração de final de ano e doença - são a força motriz para o drama familiar "Tudo o que tivemos" (2018), da diretora e roteirista Elizabeth Chomko.

Estrelado por um elenco em estado de graça, a começar pela ganhadora do Oscar Hilary Swank, seguindo pelo atores Michael Shannon, Robert Forster e Blythe Danner, esse conjunto de intérpretes unem-se para dar vida aos membros da família Everhardt, respectivamente a filha Bridge, o filho Nicky, o pai Burt e a mãe Ruth. O pulsar de cada um desses personagens transbordam as angústias e incertezas da vida em meio à uma tragédia familiar.

Às vésperas das celebrações de final de ano, na cidade de Chicago, Ruth desaparece em meio a uma tempestade de neve devido ao Alzheimer. O evento faz com que Bridget junto de seu filha Emma (Taissa Farmiga), desloque-se da Califórnia para a casa dos pais. No reencontro familiar, ela depara-se de um lado com Nicky ansioso para internar a mãe em uma clínica especializada, do outro lado, o pai, teimoso e apaixonado pela esposa, insistindo em deixá-la em casa. No meio dessa divergência de ideias, encontra-se Bridget indecisa sobre qual o melhor caminho para o destino de sua mãe e do seu próprio, uma vez que também perpassa por um momento de crise em sua vida amorosa.

Nesse caldeirão de nervos à flor da pele, o roteiro busca trabalhar com vários temas de cunhos universais como a velhice, a morte, o casamento, o amor, a religião, o patriarcalismo, a maternidade, a instituição família e a memória. Esse último perpassa por todo decorrer da história, seja pela força de vontade de Burt de relembrar Ruth de seu passado, das fotografias em constante destaque ou na própria perda da memória, efeito colateral da doença.

O cruzamento dessas questões é construído de modo primoroso e profundo. Como pode ser visto na sequencia em que Bridget, pela primeira vez contesta o pai sobre suas escolhas tanto no casamento quanto na religião. Ao mesmo tempo, observa-se também um certo tom de jocosidade nos diálogos, principalmente oriundos do cético e amargo Nicky, como quando fala que a mãe está hidratada após beber água benta. 

"Tudo o que tivemos" consegue sobressair-se aos dois exemplos citados acima, em virtude de contemplar assuntos caros para as pessoas como o medo da solidão ou o medo de envelhecer de um modo humano, frágil e visceral, sem apelar para excessos ou maneirismos como ocorre nos anteriores.
CineBliss****




Ficha técnica: 

Tudo o que tivemos (What they had)
Estados Unidos, 2018
Direção: Elizabeth Chomko
Roteiro: Elizabeth Chomko
Produção: Albert Berger, Bill Holderman, Keith Kjarval, Sefton Fincham, Alex Saks, Ron Yerxa, Hilary Swank
Elenco: Hilary Swank, Michael Shannon, Blythe Danner e Robert Forster, Taissa Farmiga

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