quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Baseado em uma história verídica, o filme "O nome da morte" é uma radiografia brutal da realidade brasileira


Quando o jornalista Klester Cavalcanti investigava o trabalho escravo na Amazônia, não imaginava que se depararia com a história verídica do pistoleiro Júlio Santana, responsável pela morte de 492 pessoas, conforme relatou durante a coletiva de imprensa do filme "O nome da morte". Após colher os depoimentos do matador profissional, Klester publicou o livro em 2006 e, doze anos depois, a biografia chega hoje às telas do cinema. Dirigido por Henrique Goldman (Jean Charles), a narrativa cinematográfica retrata a jornada desse homem devoto do catolicismo, pai de família atencioso e filho prestativo, porém, atormentando pelas mortes realizadas por encomenda.

O ator Marco Pigossi em seu primeiro trabalho no cinema, dá vida ao personagem de Júlio quando este é convidado pelo tio Cícero (André Mattos) para mudar-se da casa dos pais no sertão e ir morar na cidade com intuito de tornar-se um "policial". Júlio, oriundo de uma família pobre aceita o convite e, assim que se hospeda na casa do familiar defronta-se com uma outra realidade. Logo, ele começa a fazer parte de um grupo de matadores profissionais ao lado do tio. Na trajetória de matanças, Júlio conhece Maria (Fabiula Nascimento) por quem logo se apaixona e constitui família, sem revelar sua real profissão.

A montagem constrói uma narrativa com ritmo febril e tenso, por meio da utilização de várias sequencias de mortes a sangue frio - como a do feirante ou do membro dos direitos humanos - intercalando com a vida afetiva de Júlio. Concomitantemente, a fotografia de Azul Serra, com exuberantes planos gerais da paisagem do Jalapão - parque estadual localizado na região do Tocantins, onde foi gravado o filme - proporciona a sensação de quão ínfimo é o personagem atormentado entre os dois mundos distintos em que habita, a violência da profissão versus o homem familiar e religioso.

A fé cristã do personagem é enfatizado em várias cenas, tanto com ele dentro da igreja quanto rezando Ave-marias e Pai-Nossos após a concretização da morte ordenada de cada pessoa. O curioso também é a constante presença de imagens com água corrente, o que por meio de uma ótima simbólica possibilite deduzir uma busca de Júlio por purificação de seus pecados.

Durante a coletiva de imprensa, o ator Marco Pigossi relatou os desafios de interpretar Júlio, confessando o quão intenso e doloroso foi dar vida ao: "... vazio que esse cara tinha, ele não tinha prazer em matar, ele não é nenhum psicopata". Haja visto que para o intérprete, Júlio, faz parte desse meio social sem nenhuma educação ou perspectiva de vida, sendo mais uma vítima e massa de manobra.

O roteiro entrega de forma precisa uma radiografia de uma realidade brasileira brutal, provocando inúmeras reflexões sobre o valor de uma vida humana, as mazelas sociais incrustadas em cada canto do país, as mortes encomendadas que não acontecem apenas nos sertões, mas também nas grandes cidades, como o caso da vereadora carioca Mariela Franco, citada por Klester Cavalcanti durante a coletiva. Um filme pertinente para o momento atual da sociedade brasileira, com a aproximação das eleições e na prerrogativa de qual futuro se espera do Brasil.
CineBliss








Ficha técnica: 

O nome da morte (O nome da morte) 
Brasil, 2017
Direção: Henrique Goldman
Roteiro: George Moura
Produção: Rodrigo Letier
Fotografia: Azul Serra
Elenco: Marco Pigossi, Fabiula Nascimento, André Mattos, Tony Tornado, Matheus Nachtergaele

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