Filme Brasileiro "Se Eu Fosse Vivo... Vivia" integrou a Mostra Competitiva do Brussels International Film Festival

 

O CineBliss teve o privilégio de acompanhar na última quinta-feira (10), mais uma edição do Brussels International Film Festival, em Bruxelas (Bélgica), que recebeu, na Mostra Competitiva, "Se Eu Fosse Vivo... Vivia", novo longa-metragem do mineiro André Novais Oliveira (Temporada; Ela volta na quinta). Mais uma vez, o cineasta volta seu olhar para aquilo que parece pequeno, cotidiano e ordinário para revelar, justamente aí, a dimensão extraordinária da experiência humana.

Há algo de profundamente afetivo na maneira como André Novais Oliveira filma os encontros. Em "O dia que te conheci" (2023), o acaso aproxima os personagens Zeca e Luísa em meio à um de trabalho e faz nascer, entre conversas e situações prosaicas, uma delicada possibilidade de romance. Já em "Se Eu Fosse Vivo... Vivia", porém, o encontro já pertence ao passado. Gilberto (Norberto Novais Oliveira) e Jacira (Conceição Evaristo) carregam consigo cinco décadas de uma vida compartilhada. O amor, nesse caso, não está mais na descoberta do outro, mas na intimidade construída ao longo do tempo. E é justamente essa intimidade que o filme parece querer preservar diante de nossos olhos.

Na casa dos mais de 70 anos de idade, Gilberto e Jacira vivem uma relação na qual o afeto não precisa ser anunciado. Ele está nos diálogos despretensiosos, nas pequenas provocações, no humor que atravessa a convivência e, sobretudo, na maneira como um personagem parece reconhecer o outro antes mesmo que qualquer palavra seja dita. O diretor, aqui, encontra beleza naquilo que o cinema frequentemente deixa de lado: a repetição dos dias, os gestos banais, as conversas que não precisam necessariamente conduzir a algum lugar.

Mas a rotina é interrompida quando Jacira enfrenta problemas de saúde e precisa ser internada. A ausência, então, transforma o espaço cotidiano. Para Gilberto, a separação temporária não representa apenas a falta física da companheira, mas uma espécie de deslocamento de si próprio. Sem Jacira ao seu lado, aquilo que parecia familiar torna-se estranho. Seu olhar perdido traduz uma vulnerabilidade que o personagem talvez não precisasse enfrentar enquanto os dois permaneciam juntos.

É nesse ponto que "Se Eu Fosse Vivo... Vivia" encontra sua dimensão mais potente: o amor também pode ser aquilo que nos dá uma forma de habitar o mundo. Quando essa presença é subitamente retirada, até a realidade mais conhecida parece adquirir outra configuração.

O filme transita entre romance, comédia e ficção científica sem permitir que esses gêneros cinematográficos se sobreponham à delicadeza do cotidiano. Pelo contrário, é a partir dessa mistura que André Novais Oliveira cria uma espécie de suspensão da realidade. Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, deixa de ser apenas cenário para tornar-se parte fundamental da experiência dos personagens. O espaço urbano, as casas, as ruas e os ambientes cotidianos são filmados sem a necessidade de uma grandiosidade visual. Há uma recusa ao espetáculo que combina perfeitamente com a proposta do cineasta: encontrar o extraordinário justamente onde quase nunca procuramos por ele.

O elemento de ficção científica, nesse sentido, não funciona apenas como uma ruptura com o real. Ao deslocar Gilberto para uma situação misteriosa e inesperada, o filme transforma o fantástico em uma ferramenta para observar aquilo que há de mais concreto na existência: o envelhecimento, a passagem do tempo, a companhia e a possibilidade da perda.

A escolha de Conceição Evaristo para interpretar Jacira acrescenta ainda uma camada especial à experiência. Escritora cuja obra é profundamente marcada pela memória, pela experiência e pelas complexidades da vida cotidiana, Evaristo chega ao cinema trazendo para a personagem uma presença que não depende de grandes gestos. Seu encontro com Norberto Novais Oliveira produz uma química construída menos pela espetacularização do romance do que pela sensação de uma intimidade já sedimentada.

Talvez seja essa a maior delicadeza de "Se Eu Fosse Vivo... Vivia": o filme não precisa explicar o amor entre Gilberto e Jacira porque nos permite percebê-lo nos intervalos. Está no humor, na preocupação, na ausência, no silêncio e na própria dificuldade de imaginar a vida sem a presença do outro.

Ao aproximar o fantástico da experiência cotidiana, André Novais Oliveira nos lembra que a vida também é feita dessas pequenas coisas que, quando observadas de perto, deixam de ser pequenas. E que, diante da passagem inevitável do tempo, compartilhar a existência com alguém pode ser, por si só, uma das formas mais extraordinárias de permanecer vivo.

"Se Eu Fosse Vivo... Vivia" marca ainda a estreia de Conceição Evaristo no cinema. Após sua passagem pelo Brussels International Film Festival, o longa ainda não possui previsão de lançamento no circuito comercial brasileiro.


 

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